sobre a mágica que nos impede de crescer.

A realidade é brutal, todos sabem, mas parece que existe toda uma áurea misteriosa em torno da infância que impede que os problemas dos pais cheguem com clareza às mentes das pessoas pequenas. Eu mesmo nunca desconfiaria de que minha família passasse por problemas financeiros e que precisasse racionar dinheiro porque estava construindo um prédio para aluguéis. Ou, por mais que tenha presenciado discussões entre meus pais, quando era menor não colocava na cabeça que eles pudessem se separar depois delas (o que, ainda bem, realmente não aconteceu).

Papai Noel, assunto de adulto, bicho papão, coelhinho da Páscoa e todas essas coisinhas criadas por alguém muito, muito velho para explicar o mundo para as crianças ou fazer com que os questionamentos sejam logo sanados ecoam no inventário infantil e, por mais que relutem, todo pai passará por algumas situações onde falar que a cegonha é a origem de tudo é mais fácil – ou menos constrangedor.

Para a pequena Lena, mesmo com menos de 10 anos de idade, o mundo se mostra cruel há um certo tempo. A menina mora com uma tia que a destrata em um lugar que nunca poderia ser chamado de lar: sujo, fétido e nojento. Lena sente o peso de ser abandonada de um modo ainda maior porque se vê diferente em relação aos outros desde cedo. A garota é russa e, mesmo morando há bastante tempo neste outro país, não se acostumou com a língua inglesa. E é na escola de inglês para estrangeiros que ela conhece seu primeiro amigo.

Vaclav também é russo, mas conseguiu se adaptar ao novo país de uma maneira quase instantânea. Com a família bem-estruturada e acompanhado de um livro de grandes personalidades americanas, claro, ficou fácil. Do livro, sua maior inspiração se torna o grande mágico Houdini. O garoto se apaixona pela arte da mágica e, mesmo com todos os segredos à mostra, ele se encanta pelos próprios movimentos premeditados e truques autorais. A mágica é a coisa mágica que esconde a realidade de Vaclav e passa a esconder os dramas de Lena quando eles se conhecem. E como ele sempre havia precisado de uma assistente…

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ilustração por marc rosenthal.

Aquela amizade se junta ao ilusionismo e se torna o porto-seguro na vida daqueles dois. É claro que uma história tão simples e direta como esta não renderia um livro. Por isso, o enredo de Haley Tanner ainda traz uma separação. Quando os dois se separam, aos 9 anos de idade, a ruína também vem junto. Não existe mágico sem assistente, diz Vaclav não aceitando a perda.

A amizade é rompida e, sem nenhum tipo de contato, Vaclav larga a mágica, que também permanece distante de Lena. Os dois são obrigados a crescer na marra, agora que não há nada os impedindo disto. É preciso abrir os olhos para o que há dentro deles e conviver com as marcas que o outro deixou. A saudade aperta dos dois aperta, as lágrimas escorrem, mas a narrativa intensa da autora nos mostra que não havia mais como adiar o fim da infância. Sempre chega a hora da ruptura.


“Talvez para todo mundo chegue uma hora em que a gente se dá conta de que andou mentindo sem querer ao dizer eu te amo, estou com saudades, você é linda, você é a mais linda, quero que nunca mais vá embora.
Talvez esse tempo termine e tudo volte a ser verdadeiro,
como a gente sempre achou que fosse.
Talvez esse tempo nunca termine.


Vaclav & Lena é um livro despretensioso e bastante honesto com os leitores, capaz de transmitir diferentes sons, aromas e texturas, ao mesmo tempo em que dá um margem ampla para a imaginação, graças à escrita cheia de descrições peculiares. São todos os clichês de um YA (personagens deslocados, diálogos engraçadinhos, passagens filosóficas, a garota que bagunça a vida do cara) de uma maneira muito sutil e delicada.

Vale dizer que os personagens crescem e se reencontram, partindo em busca de verdades sobre o passado. O desfecho, contudo, mesmo acontecendo no início da juventude de Vaclav e Lena, é algo extremamente mágico e inocente. Um final doce pra que a gente nunca permita que a magia nos deixe.


 

vaclav-lenavaclav & lena – haley tanner – intrínseca – 272 páginas

em 140 caracteres… uma história tão despretensiosa quanto sensível! uma boa surpresa!
um livro para… terminar com vontade de reler!
combina com… circo, mágicos e mistérios!

 

Andre não tem assistentes.

 

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