evolução

Quando eu tinha alguns poucos anos (entre 5 e 7, penso eu), adorava observar formigas. Ficava olhando aqueles longos caminhos que elas faziam pela casa, principalmente na cozinha, em volta de farelos de pão e respingos de suco e café. Ou quando uma barata morria e elas logo chegavam. Também tinham aquelas imagens ao ar livre, com as formigas carregando pedaços de folhas bem maiores que elas, uma atrás da outra.

E ficava intrigado quando via que o final daquelas filas era num buraquinho na parede, entre um azulejo e outro. Claro, me inspirava nas formigas por isso. Eram sinônimo de força para mim. Assisti em algum filme ou programa de televisão que as formigas conseguiam aguentar segurar 10 vezes o seu peso. Sofria para carregar aquelas sacolas com 5 quilos de açúcar, mas falava que aquilo não era nada: se as formigas podiam, também eu, oras.

Nunca cheguei a anotar todas as minhas descobertas, análises e dúvidas sobre o universo dos insetos, mas, se tivesse lido A Evolução de Calpúrnia Tate na infância, tenho certeza que teria reproduzido a Caderneta da menina com alguns pedaços de folhas A4 ou em uma agenda usada em outro ano pelos meus pais. Claro, desde a infância essa falta de comprometimento me persegue, visto que adoraria a ideia, investiria no início, mas não prosseguiria com isso.

É difícil falar sobre o enredo de A Evolução de Calpúrnia Tate porque parece ser somente um livro sobre uma menina. Eu senti falta de um direcionamento maior para alguma coisa, um drama comum em todo o livro. Um suspense ou problema que me fizesse querer virar as páginas. O que parece é que são várias histórias com a mesma protagonista. Um núcleo é pausado ou finalizado para dar lugar a outro (mas todos completam um infanto-juvenil bem leve e inteligente, com uma diagramação e projeto gráfico IN-CRÍ-VEIS da Única Editora, editora parceira do blog).

No livro, Calpúrnia é uma menina curiosa e astuta, que descobre a Biologia aos onze anos e começa a anotar num caderninho, presente do avô, tudo aquilo que ela percebe na natureza: o comportamento dos animais, os dramas entre espécies pequenas e seus predadores, os bichos que aparecem no lugar onde mora (algo como um sítio) em cada estação do ano… Ela se pergunta, procura respostas e registra tudo com grande entusiasmo.


 

“Imagino que ali deva haver um milhão de pequenos dramas acontecendo o tempo todo.
Ah, mas dificilmente eles eram pequenos para o caçador e a caça,
jogando a moeda de vida ou morte.
Eu era apenas uma observadora, uma folgada.
Eles estavam naquilo pra valer.”


 

O grande incentivador de Calpúrnia descobrindo a ciência é seu avô, Walter. O avô lutou pelo seu país na Guerra, se tornou amigo de um morcego (numa história improvável, mas que a autora diz que ouviu de alguém que a presenciou) e passou a se dedicar a este tipo de estudo. Morando nos fundos da casa de Calpúrnia, em um barraco que já foi de escravos da família Tate, ele guarda vários animais empalhados, tem guias e fascículos sobre diferentes espécies de plantas e é quem estimula Calpúrnia a aprender mais e procurar pelas próprias respostas.

Ele é quem apresenta especulações e opiniões, conta histórias e traz um grande acervo de livros sobre natureza em sua biblioteca pessoal. Entre eles, A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Este livro, inclusive, é quem abre todos os capítulos da obra de estreia de Jacqueline Kelly. Todos começam com uma epígrafe, uma citação da teoria da evolução, sempre com alguma coisinha relacionada ao conteúdo das páginas a seguir, o que torna o livro bem rico.

Outras polêmicas também são discutidas em A Evolução de Calpúrnia Tate (além da ciência e da crença na seleção natural). Uma das personagens mais interessantes do livro, Viola, a cozinheira que trabalha há anos com a família Tate, é pouco mais escura que a protagonista, mas ainda sofre preconceito em vários núcleos da sociedade, mesmo tendo uma origem negra não muito perceptível. A namorada do irmão mais velho de Calpúrnia, Harry Tate, também é “condenada” por ser de uma denominação cristã diferente da deles.

O pensamento das pessoas quanto à mudança de século também é retratado. Algumas pessoas acreditavam no fim dos computadores. Outras eram mais radicais e diziam que o fim do mundo era o que estava chegando. Calpúrnia vê esta mudança, porém, como uma nova chance de mudar e de lutar por aquilo que ela acredita. E quem imaginaria que o maior empecilho da menina, mesmo guardando boas intenções por trás, seria alguém que vive com ela, alguém da mesma espécie?


 

“Esperava-se que eu entregasse minha vida para uma casa, um marido, crianças.
A perspectiva era a de que desistisse de meus estudos naturalistas, minha Caderneta, do meu amado rio.
(…)
Eu estava em uma armadilha.
Um coiote com a pata presa.”


 

Margaret Tate, a mãe de Calpúrnia, pode ser vista por alguns como uma vilã da narrativa. É ela quem priva a garotinha de estudos no rio, análises de espécies e tempos de leitura para que ela se dedique a coisas que ela não deseja: aulas de culinária, frivolité, corte, costura. Por causa da guerra, a mulher não pôde participar de eventos sociais e ser apresentada como debutante para todos. Então, ela tenta forçar a única filha (entre seis meninos) a investir tempo na preparação para ser uma boa dona de casa, esposa e mãe.

Para mim, ela é também uma vítima daquela sociedade antiquada (afinal, estamos falando de 1889). Mulheres tinham um lugar separado dos homens, assim como os brancos eram separados dos negros, assim como os batistas andavam distantes dos independentes. Eles trabalhavam e colocavam dinheiro na casa. Elas cuidavam dos filhos e tomavam conta dos afazeres domésticos. Ter um anseio por independência estava fora da cabeça da maioria das mulheres naquele tempo. Querer ser uma cientista, como a menina, era querer ser ridicularizada pelos outros. Ter um sonho proibido.

Posso adiantar que este conflito entre a vontade de Calpúrnia e o que a sociedade ordenava que ela fizesse não é resolvido (já era de se esperar que o livro não retratasse uma situação mágica, uma exceção há duzentos anos atrás), mas a discussão sobre gênero fica naqueles que leem as ideias da menina, todas à frente de seu tempo. Este, para mim, é o maior legado que A Evolução de Calpúrnia Tate deixa para quem o lê (e acho ótimo que o público-alvo deste livro seja novinho).


 

119959711_1GGa evolução de calpúrnia tate – jacqueline kelly – única editora – 384 páginas

em 140 caracteres… a busca de uma garota por novas espécies e por liberdade!
um livro para… questionar padrões e se tornar mais curioso!
combina com… feminismo e aulas de biologia!
depois da leitura... o filme “a vida secreta das abelhas” pode ser uma boa!

 

Andre evolui.

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