carta ao pai

A mãe toma as rédeas da casa e tenta deixar tudo organizadinho, mas ninguém parece dar tanto valor assim. A tia Maria não é tia. A tia criou o pai, mas também não é avó do menino. O menino é um menino normal, como qualquer outro. O pai, porém, é um pai silencioso, de poucas palavras quando está sóbrio e de palavras erradas quando está bêbado. O pai é alcoólatra.

A relação do pai e do filho é o drama central da história de Eu e o Silêncio do Meu Pai. O que acontece quando a bebida entra na relação deles e o que acontece quando ela não está por perto. Apesar de todos os problemas do pai e de o fazer passar vergonha várias vezes, o filho se inspira no pai (adquire o gosto pela leitura por causa dele) e sente a vontade de provocar um barulho entre os dois. De quem será a tentativa de usar as palavras como uma ponte pra unir esses dois?


 

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A história foi baseada na realidade vivida pelo próprio autor do livro, mas desconheci esse fato até a última página (a revelação é feita na pequena biografia de Caio Riter ao final do texto). Munido de tudo que ele sentiu e viveu, como o menino sem nome que protagoniza a história, ele procura as melhores palavras para que a história seja sentida pelo leitor. É impossível deixar a emoção passar batida. É impossível não sentir uma pontada no coração a cada decepção, a cada apelo do menino, a cada dor do garoto. Eu e o Silêncio do Meu Pai é um livro que mescla a tristeza de ver o pai cambalear pelas ruas com a estranha alegria do menino não conseguir colocar o pé no chão e precisar ser carregado no colo pelo pai.

Alguns capítulos falam sobre as palavras e estes foram meus pensamentos preferidos. O modo como Caio Riter fala de ser escritor, de gostar de livros, do poder das palavras é único. Pra ler com o sorriso no rosto, escrever em papel e guardar no bolso, pregar na parede do quarto ou mandar por cartas para quem mora longe e vive o silêncio geográfico (acabei de inventar essa expressão, haha).

Claro, é impossível não mencionar o trabalho da Editora Biruta e da Casa Rex. As ilustrações de Eu e o Silêncio do Meu Pai (que são contornos de objetos icônicos da história, como o sapato da capa) assumem caras novas a cada página, sobrepostas ou com pedaços apagados. Eu acabava parando a história para refletir sobre os traços, vendo as formas das chaves se unindo às outras. Outra coisa bacana é que os capítulos mudam e as cores das letras vão mudando também: alternando entre azul e preto, o livro se torna um objeto com design.


“Ficava ali, do outro lado da mesa, querendo entender o que se passava na cabeça do meu pai. Queria adivinhar (e desejava saber) que histórias ele teria para me contar.
Queria saber do seu passado, das suas lembranças, daquela infância comportada que tanto a tia Maria apregoava.
Queria saber do espaço que a nossa família tinha na vida dele. Que eu tinha na vida dele.
Mas faltava a coragem para a pergunta.”

 


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Por termos aqui um livro infanto-juvenil os acontecimentos são focados na infância e pré-adolescência do menino. Apesar de compreensível, o salto muito grande na linha do tempo ao final da narrativa me deixou um pouco decepcionado. Não queria somente o menino, mas também o jovem e o homem. Mais dessas escolhas certas de palavras, das passagens impecáveis, do cuidado dessa edição da Editora Biruta e do estúdio de design Casa Rex.

Depois de caminhar por todas as frases de Eu e o Silêncio do Meu Pai, vale reler, dar pausas e refletir bastante sobre a nossa relação com a família e outras pessoas que nos cercam: Será que estamos deixando o silêncio tomar o lugar da conversa com aqueles que nos querem bem? Será que faltam palavras? Oportunidades? Ou falta coragem?


 

01eu e o silêncio do meu pai – caio riter – editora biruta – 100 páginas

em 140 caracteres… uma narrativa profunda e emotiva sobre como o silêncio faz um barulho que incomoda.
um livro para… reler sempre e inspirar nossas relações.
combina com… tranquilidade e mudança!

 

A Biruta é parceira do blog e enviou este livro como cortesia. Você pode conhecer todo o catálogo da editora aqui e acompanhar no Facebook, no Instagram e no Blog Biruta Gaivota.

 

Andre quer as palavras certas para acabar com o silêncio.

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