na estrada

Nunca fui muito fã de viajar. Tenho labirintite e, por isso, minha cabeça fica totalmente zoada em qualquer passeiozinho de carro. Se eu entrar no carro com pressa, sem respirar muito e com o estômago vazio, já era. Um tempinho depois já estarei sentindo enjoos e/ou colocando qualquer líquido disponível para fora.

Então, sempre tomo algum remédio antes de partir para a praia ou para o interior. Esses dois sempre foram os destinos das viagens de férias da minha família, porque é onde moram a família do minha mãe e a família do meu pai. E, como sempre estou com algum comprimido pelo corpo, durmo boa parte do trajeto. Vale dizer que nos momentos em que não estou dormindo estou praticamente dormindo.

É claro que em pouquíssimos momentos tenho certa consciência do que está acontecendo dentro do carro. Consigo perceber (e cantarolar mentalmente) as músicas que tocam no rádio, tento entender o que meus pais conversam, procuro algum modo de ficar mais confortável, afofo o travesseiro e coisas do tipo.

E mesmo “participando” bem pouco das viagens com a minha família, consegui me identificar bastante com a novela Um, Dois e Já, de Inés Bortagaray, que se passa no trajeto entre uma cidade e uma praia.


“Agora estou na janela.
Sorte a minha.
Não acontece toda hora,
porque sou a irmã do meio,
e irmãs do meio nunca ficam nas janelas.”


A menina-protagonista-narradora do pequeno livro tem duas irmãs (uma mais velha e outra mais nova) e um irmão. Todos os quatro, junto do pai e da mãe, estão dentro do carro para uma viagem que tem muito das viagens de qualquer família. As brigas para decidir quem se senta à janela, as tentativas de brincar dentro do carro, as paradas em postos de gasolina, as fotografias que registram o caminho, o rádio que perde o sinal e não funciona a todo momento… Impossível não sentir um pouquinho que seja de nostalgia ou saudade.

Para mostrar somente a afetividade que cerca a família, nada é narrado com precisão. Porque é tudo comum o bastante para qualquer família se colocar ali. Não são contados os nomes dos personagens, a marca do carro, as cidades por onde passam, qual a bandeira do combustível, em que mês se passam as férias. Percebemos, então, que pouco importa quem são os seis passageiros do carro. Essa história é real, porque aconteceu comigo, com você e com várias outras pessoas.


 

“Os postes se movem e eu fico quieta.
Avançam para trás, em direção ao que já passou.
Mesmo que meu pai parasse de dirigir,
se ele se negasse a acelerar, freasse de repente,
esses postes e essas linhas seguiriam viagem.”


Por ser uma viagem longa, a menina adormece em alguns momentos, onde conhecemos os sonhos dela. Uma pitada de surrealismo e fantasia acaba sendo adicionado na novela. Pequenas histórias cheias de imaginação que mostram alguns desejos e a vida pessoal da menina e da família.

Um, Dois e Já é uma história sutil e inocente, que fala de relações familiares de uma maneira doce e delicada. Mesmo extremamente breve (são menos de 100 páginas), é impossível não se apegar a cada uma das pessoas que estão relatadas ali e não resgatar alguma memória das nossas viagens em família.

 

Um Dois E Ja_4697um, dois e já – inés bortagaray – cosac naify – 96 páginas

em 140 caracteres… uma narrativa de viagem comum e que, justamente por isso, gera identificação.
um livro para… sentir o balanço do carro e observar as paisagens!
combina com… aperto e restaurantes de beira de estrada!

 

Andre se move e os postes estão quietos.

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