autobiografia de um homem plano

Entre uma rimas

e uma metáfora que enfeita:

imagine viver

em um poema de métrica perfeita.

Ou como seria viver num querido diário de uma adolescente, na data onde ela descobrira o amor ou deu seu primeiro beijo ou resolveu expor seus problemas tipo com auto-estima ou não teve o resultado esperado naquele teste da capricho ou brigou com a bff ou foi no show daqueles lindos da boyband que está bombando essa semana ou sei lá, whatever.

Acordar na manhã de hoje (9) dentro de uma pequena nota jornalística.

A: E como seria estar numa página de entrevistas, em uma coluna esportiva?

C: Ah, as expectativas para hoje são as melhor possível (sic). Vamos dar tudo de si (sic) e ir com força para vencer e conquistar esses três ponto (sic). O grupo está bem entrosado e a gente acredita na chance da vitória.

Em um livro policial: numa cena de crime; num diálogo com o investigador; no meio de digitais em móveis, poças de sangue ou vestígios; entre uma reviravolta e outra; na punição do culpado que ninguém imaginou quem fosse.

Poderias subsistir, do mesmo modo, ó leitor, em um calhamaço clássico. Circunvalado por elocuções de custosa cognição, tanto para vossa persona quanto para os notáveis indígetes e seus arrojos.

P03


 

Esse texto acima foi minha tentativa bizarra e falha de tentar representar a narrativa de Para Cima E Não Para Norte, da escritora Patrícia Portela. Publicado pela LeYa, o livro traz várias narrativas diferenciadas ali dentro, como tentei fotografar nas imagens acima. São fontes diferentes, fotografias, rabiscos… Projeto gráfico incrível e muito bem construído! E acho que é assim que deve ser: a editoração precisa deixar de ser vista como mero apelo estética ou melhoramento da leiturabilidade e ser uma aliado na hora de contar a história também.

Em um dos capítulos, por exemplo, tudo é narrado como um programa jornalístico: cheio de oralidade e com direito aquelas notícias que ficam girando no rodapé da televisão. Em outro, quando o protagonista é preso, as margens imitam as grades de uma jaula. Estátuas gregas ilustram todas as páginas de um capítulo cheio de filosofia e pensamentos mirabolantes, notas de rodapé nem sempre aparecem no rodapé, páginas que pedem por minutos de silêncio tem somente esta fala e um espaço em branco, a tentativa de organizar e mostrar como vive o protagonista é feita com slides…


 

“É engraçado,
vocês passam os dias a sonhar com o mundo da fantasia,
enquanto nós, que aqui vivemos, sonhamos constantemente com tempestades.”


 

O protagonista desta história real, narrada em primeira pessoa, no caso é o Homem Plano, que vive num mundo bidimensional. Ele tem emprego, casa, esposa e filhos (como alguém do nosso mundo), mas vive em livros, caminhando por letras, pelas páginas de aventuras de James Bond. Porém, quando ele encontra uma letra diferente por onde ele andava é que ele começa a se questionar e descobre que existe algo além do papel pólen soft 80g/m².

A tal letra inusitada que aparece é uma impressão digital. A marca de um dedão, que comprova que existe um mundo 3D. Um mundo onde alguém vira as páginas quando quer, lê de um modo diferente e conhece as versões tridimensionais dos objetos que ele só conhece de maneira planificada.

Para Cima e Não Para Norte acaba sendo uma viagem. A viagem do protagonista em busca de se tridimensionar e do leitor em busca de entender todas as referências, visuais ou textuais. São tantos tipos de linguagens e uma escrita tão escrita que é impossível sacar tudo logo de primeira. Até porque a opinião do protagonista sobre o que ele vive vai se transformando na mesma medida em que caminhamos ao desfecho, que me surpreendeu pra caramba.

É preciso ter bastante imaginação para esta leitura.
E paciência.
E boa audição para todas as vezes que a página virar.

Ouviram?


 

ArquivoExibirpara cima e não para norte – patrícia portela – leya – 240 páginas

em 140 caracteres… a autobiografia de um homem plano tentando fugir para o universo tridimensional.
um livro para… ficar intrigado e pirado com as diversas formas de escrita e recursos visuais.
combina com… livros (pois é)!

 

Andre dedica a todos esta história.

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