como sobreviver ao ensino médio

No ano passado, eu terminei o que chamaria de meu ensino médio (não que tenha feito ensino médio realmente, é complicado explicar). Depois de três anos com várias provas difíceis, matérias desnecessárias e trabalhos acumulados, concluí um período extremamente árduo, mas não menos divertido e gostoso. O fato de ter embarcado nessa etapa em uma escola diferente da qual havia estudado antes, com vários colegas e professores os quais nunca havia visto na vida, deu um gás a mais. Entender que está todo mundo no mesmo barco, sem saber muito bem para onde rema, era um incentivo.

Fora a rotina bastante cansativa, com aulas de seis às seis e muito estudo em casa, colocaria ali um clima de ensino médio por tudo ter sido ditado pela insegurança da adolescência. É nessa época que a gente começa a pensar com mais seriedade sobre o futuro e se alarma quando não enxerga nada com certeza. Para completar, os vestibulares seriados, enem, fuvest, pas, pases, sisu e todas estas siglas e sistemas que só quem passou entende ainda aparecem para nos atormentar.

Esta é uma realidade bem brasileira do ensino médio, pouco retratada na literatura. E reconhecer aquelas fase e ter uma sensação de pertencimento e identificação numa leitura foi o que me fez gostar de Nada Dramática, estreia de Dayse Dantas.

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Camilla é a narradora desta história, publicada pela Editora Gutenberg. É uma garota comum, sem uma inteligência descomunal, mas que consegue entrar na turma dos mais sábios com bastante esforço. Sem muitos amigos, ela consegue sobreviver ao ensino médio sem popularidade ou grandes problemas. Agora, no último semestre do 3º ano, ela narra suas aventuras e desventuras no livro.

A narrativa de Dayse Dantas está bem longe de ser considerada chata ou superficial. Várias matérias desta fase de ensino, como Era Vargas eDitadura, dá as caras na trama, além de alguns feriados nacionais, como o dia da Independência ou Finados. Bastante cômica, todos os parágrafos parecem conter uma piada ou um comentário engraçado de Camilla. Para aumentar a densidade da história, ainda temos mensagens de celular, e-mails, verbetes de dicionário, bilhetes e postagens em blog aparecendo num projeto gráfico bem rico e caprichado.

As postagens do blog de Camilla, por sinal, seria responsável por um grande alívio cômico, caso o resto da história fosse minimamente dramático. Porém, o blog de ficção onde a garota imagina o cotidiano da Agente C, seus amigos-agentes-secretos e seus arqui-inimigos acaba soando desnecessário. O resultado é um desenvolvimento fragmentado, como se houvessem duas histórias acontecendo paralelamente. O tal blog só ganha uma certa (e mínima, bem pequena) conexão com a história bem no final, mas, até lá, só serve para quebrar o ritmo da leitura.


 

“Eu quero para sempre lembrar que essa foi uma época difícil, e frustrante, e legal, e idiota, e louca, e tudo quanto é tipo de adjetivo que existe por aí.
E nem quero só lembrar como nostalgia que nem o povo gosta de ficar fazendo. Eu quero manter tudo bem vivo, tudo bem real, na intensidade verdadeira das coisas.
Não quero que fique preso na minha memória como uma época de completo pesadelo, ou uma época de bela juventude,
eu quero tudo junto, tudo que foi.”


 

Outra coisa que incomoda é a falta de um plot, um problema de verdade a ser resolvido pela protagonista. Na maior parte do livro, Camilla simplesmente presencia ou comenta os problemas de seus pais, seu irmão mais velho, seus amigos… Uma protagonista que acaba sendo muito mais narradora que personagem.

Nada Dramática oferece a oportunidade aos jovens e adolescente brasileiros a chance de se reconhecerem nas páginas de um livro. Os problemas deCamilla e os outros personagens que a rodeiam vão gerar identificação. Seus comentários perspicazes e tiradas sarcásticas vão gerar risadas. Mas não vale a pena esperar algo grandioso do livro de estreia de Dayse. Uma ótima pedida para quem quer se divertir ou sentir um pouco de nostalgia.


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nada dramática – dayse dantas – gutenberg – 320 páginas

em 140 caracteres… um retrato autêntico do ensino médio brasileiro, com algumas mudanças de foco e assunto ali no meio.
um livro para… relembrar (ou se preparar para) a época da escola e dos vestibulares.
combina com… viagens com amigos e conversas pela internet.

Andre já sente saudades.

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