sem homens

 

A primeira coisa que me disseram quando comecei a cursar Comunicação Social é que, um dia, iriam me ver na bancada do Jornal Nacional. A segunda coisa que me disseram (e esta deve fazer mais sentido, já que foi dito pelo primeiro professor que conhecemos) é que eu ficaria insuportável.

Insuportável porque passaria a questionar e analisar quaisquer interações sociais que acontecessem perto de mim, numa televisão, num bar ou entre personagens de um seriado. Entendo perfeitamente, porque já estou assim há um tempinho, mas em relação às questões de gênero, raça, “peso”, crença, e outros padrões impostos.


“A percepção nunca é passiva.
Não somos apenas receptores do mundo;
somos também produtores ativos.
Existe algo de alucinatório em toda percepção,
e as ilusões são criadas com facilidade.”


 

Não sou lá a pessoa mais recomendada para falar sobre isso (julgando que tenho um pênis), mas, desde que comecei a receber (e aceitar de coração aberto) conteúdos, ideias e temáticas que se relacionam com minorias por aí, passei a observar todas as coisas, inclusive no curso, com outros olhos também.

Não conseguia mais assistir à novela das seis sem perceber que os dois únicos atores negros no elenco eram empregados da família branca e rica. Comecei a tentar entender, através de livros como Middlesex e Menino de Ouro, questões relacionadas à afetividade e sexualidade. Ou perceber que quase não se veem pessoas obesas em destaque em filmes ou programas de televisão – a não ser em papéis cômico e/ou caricatos. Os padrões “é de menino” e “é de menina” também sempre são desconstruídos na minha cabeça, em silêncio. Fico bem nervoso na hora e prefiro deixar isso internamente, sabe?


“Montaigne,
altíssimo ápice literário do século XVI,
subscrevia a tese da reentrância protuberante:
“Machos e fêmeas são feitos do mesmo molde, e,
com exceção da educação e dos costumes,
a diferença não é tão grande.”


 

E lá veio o teste de Bechdel… O tal teste é uma referência a uma história em quadrinhos de Alison Bechdel e um determinado filme só se satisfaz quando 1) tem, ao menos, duas personagens mulheres 2) que conversam entre si 3) sobre algo que não seja homens. Simples, mas a grande maioria dos filmes, principalmente blockbusters, não passaria no teste. Passei a observar isso (não sempre e obsessivamente), porém o suficiente para me chocar.

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a tirinha que originou o bechdel test

 

O verão sem homens, livro de Siri Hustvedt, começa quando Boris decide colocar uma pausa no casamento com Mia. Pausa esta que tem nome, sobrenome, é francesa, vinte anos mais jovem… Ver um relacionamento de trinta anos se romper não é fácil, então, Mia sofre um colapso nervoso é internada por um tempo e, depois que recebe alta,
resolve tirar umas férias em sua cidadezinha natal, para auxiliar na recuperação e a tomar coragem para rever a Nova Iorque que deixou.

Se fosse um filme, O verão sem homens passaria no teste de Bechdel. E passaria com sobras. Aqui, temos personagens femininas suficientes para sete filmes que satisfazem os três requisitos. (Contando somente as personagens que aparecem mais de uma vez)

O livro é narrado em primeira pessoa pela Mia, filósofa que decide dar algumas aulas de poesia na cidade em Minnesota para passar o tempo durante as férias. Na sala de aula, sete meninas pré-adolescentes vão se expôr através da literatura. Outro grupo que conviverá com a protagonista é o das Quatro Cisnes, composto por amigas idosas, do qual a mãe de Mia faz parte. A vizinha, uma mãe que é constantemente abandonada pelo marido com a filha criança e um bebê também, compõe outra trama. A última personagem é a filha de Mia, que ficou com o pai, no Brooklyn, e troca cartas com a mãe durante a história.

Idosas, adolescentes, jovem, mulher “feita”. Perceberam como a autora perpassa, com uma narradora na meia-idade, por várias fases da vida de uma mulher? De primeiro amor a menopausa, os dramas aqui são todos bem válidos.

A narrativa de Siri Hustvedt é bem diferente de outras que já havia lido. A protagonista até tenta seguir uma linha temporal, mas se perde em flashbacks ou acontecimentos próximos. O mais legal é ver a narradora pedir perdão, conversando com quem lê e explicando seus motivos para mudar de assunto repentinamente, insistindo para que não a abandone.


 

“Não se trata da inexistência de diferenças
entre homens e mulheres;
mas da diferença que tais diferenças representam,
e de como escolhemos classificá-las.”


 

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a autora numa foto espontaníssima

Outro ponto interessante é a forma sutil que a autora utiliza para apresentar discussões sobre gênero. Um exemplo seria o por que as oficinas de poesia são frequentadas por somente meninas ou por que a mulher deve cuidar sozinha de um bebê que não foi feito somente por ela ou por que vemos poucas mulheres na ciência ou por que as brigas de homens tem valores e a briga de mulher tem um caráter erótico, felino.

Entretanto, a parte que mais me chamou a atenção foram dois personagens masculinos citados (eles não aparecem realmente). O primeiro deles, o falecido pai de Mia, era calado e quieto, sem muitas expressões. O ex-marido Boris, o segundo, também aparece igualmente misterioso. Ambos parecem ter sido criados para que não haja sentimentalismo ou para que sejam sempre diretos, rápidos, incisivos. Praticamente um isolamento ou ausência de comunicação. E o cunhado, aquele que ousa ser diferente e conversa com mulheres com as quais não deseja se relacionar sexualmente, acaba não suportando todo o peso da crítica.


 

Como já disse, não sou a pessoa mais apta para verificar a representatividade de determinados grupos sociais, como as mulheres, na cultura. Porém, posso dizer que todas as personagens de O verão sem homens tem seus problemas, qualidades e defeitos, não sendo superficiais ou atuando como antagonistas entre elas. Ponto positivo, certo?

Aqui, as tramas de Siri Hustvedt são bem serenas, sem grandes altos e baixos, e merecem ser lidas, independente do seu sexo. Uma boa forma de reavaliar e descobrir uma literatura mais real e inclusiva.


 

tumblr_inline_nlhfnv6ex51rzaxsl_500o verão sem homens – siri hustvedt – companhia das letras – 200 páginas
em 140 caracteres: personagens e dilemas comuns, apresentadas de um jeito novo, único. ou vai me dizer que já leu algum livro parecido?
um livro para… transformar seu olhar para as mulheres de outros livros ou filmes
combina com… tanto com férias em família quanto com viagens solitárias!
para quem já leu… apesar de ter uma temática muito diferente, não há como deixar de indicar “orange is the new black” por aqui. muitas mulheres reais também!

 

 

Andre fala demais das coisas que gosta.

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