a paz do fim

Meu avô paterno estava há dias no hospital, internado, em outra cidade. Era muito difícil ver meu pai passando pelos corredores da casa com um certo desespero, ou com uma feição triste, ou contendo choro. Não havia como consolá-lo porque 1) a situação era muito difícil no hospital e 2) nunca fui muito de me expressar de forma emocional verbalmente.

Então, quando meu pai saiu de casa por uns minutos, minha prima, que acompanhou boa parte dos procedimentos médicos, ligou. O estado do meu avô havia piorado naquela manhã, então, quando o telefone chamou bem alto, larguei o que estava fazendo e já me preparei para notícia que chegou.

– Andre, o vô Julião se foi.
– Aaaah, morreu?

Quando perguntei, com todas as letras, se ele havia morrido, ela gaguejou. Ficou muda por um instante, como se não quisesse encarar isto de frente. Ou talvez tenha se chocado com minha falta de eufemismos diante da morte de uma pessoa idosa, que estava há alguns dias em coma, com câncer em estágio avançado. Não que não tenha me sensibilizado, mas era uma situação que já estava praticamente premeditada.

Não estava preparado, mas era incapaz de mudar aquilo, então, por que não aceitar de vez?


 

“A morte dele era o fim de,
um dia,
sabê-lo vivo e feliz,
ao lado de outra mulher.
Morto,
permanecia seu,
imaterial, eterno.”


 

Hoje estamos aqui, mas amanhã podemos não estar. A gente sabe que a gente vai morrer. Mas o que é morrer? É algo sutil, que nem faz tanta diferença assim no desenvolvimento do mundo? Um desaparecimento do mundo? Um recomeço em outro lugar? Um recomeço em outro corpo?

Há quem acredita nas mais diversas possibilidades sobre o que vem depois da vida, mesmo que seja outra vida. O que se sabe, com uma certeza tão absoluta que dói, é que vamos morrer. Por mais que tente se esquecer, ignorar, relevar, este fato sempre surge novamente na nossa cara quando, no meio do almoço, durante uma aula, a caminho do trabalho, fazendo um freela morre alguém.

A morte – e morte de velhinhos – é o tema central de Fim, primeiro romance de Fernanda Torres, publicado pela Companhia das Letras. No livro, vamos conhecer cinco amigos de longa data, à beira da morte, narrando, cada um em primeira pessoa, seus últimos momentos.

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do disco “o mais feliz da vida” da banda mais bonita da cidade.

Um é mais pegador, outro mais quieto. Há o drogado e o atleta. O divorciado e o marido fiel. O que vive pelo sexo e o que vive sozinho. Mesmo de opiniões opostas sobre diversos temas e com ritmos de vida hoje diferentes, os cinco protagonistas são improváveis melhores amigos desde a juventude.

Antes e depois das mortes de cada um, vamos descobrindo mais sobre quem eram esses personagens. Histórias sobre casamentos frustrados, relacionamentos sadios, experiências em orgias, bailes de carnaval, festas com bebedeiras… Para mim, este o ponto em que Fernanda Torres peca.

Ao passear por várias esferas das vidas destes personagens (apresentando esposas, filhos, cunhados, parentes…) a trama fica uma bagunça, difícil de se entender. A leitura acabou se tornando bem lenta e desgastante tamanho esforço que eu precisava fazer para me encontrar entre os mais diversos nomes e sobrenomes, que, em sua maioria, apareciam em somente um capítulo ou dois.


 

“Aos vinte,
assassinam-se amores, amizades,
vai-se em frente como uma flecha afiada;
só mais tarde se aprende quão raros
são os reais afetos.


 

 

Contudo, quando ela encarna um velho para viver seus últimos minutos, que vão culminar num ataque cardíaco ou um tombo ou outro desastre qualquer, a narrativa se torna bastante cômica e irônica. Ganham-se tons mais relaxantes, suaves.

Momentos nos quais os cinco homens se afirmam diante de suas crenças ou se arrependem do que deixaram de fazer. E como é difícil ler que alguém esperou setenta anos para sentir um remorso, uma dúvida… Uma frustração guardada.

Então, morrem. Mesmo com o horário marcado para um encontro com uma morena carioca, eles morrem e lembram de que o leitor também irá morrer – e deixam uma mensagem aqui, implicitinha.


 

“A morte [assim] nada tem de natural.
(…)
Faltava o morrer de amor.”


 

A morte de alguém jovem, mesmo que tenha se rendido ao mundo do crime, das drogas ou violência, me choca. A morte de pessoas em acidentes de trânsito ou acidentes quaisquer, interrompidas sem aviso nenhum, também mexem comigo. A morte em casos severos, com dor, tortura, estupro, me incomodam.

Porém, uma doença terminal é um aviso de que a vida acaba. As rugas na face de alguém são sinais de que tudo é passageiro. Só nos resta esperar e aceitar de bom grado quando este momento chega. Posso chorar por um momento, como aconteceu com meu avô, mas logo me encho de um sorriso.

Encho-me de sorriso porque sei que outras pessoas estarão se sentindo mal com aquele momento e precisarão de um apoio, e este é o apoio que posso dar. Coloco um sorriso no rosto porque acredito que quem morre vai para um lugar melhor que este, e não há porque chorar por isto. Sorrio porque minha crença diz que um dia vou encontrar essa pessoa novamente. É só um até breve.

Essa pessoa encontrou a paz e não há porque eu me desesperar. Então, eu vivo, evitando pensar na morte, mas refletindo um pouco sempre que ela dá as caras.


 

tumblr_inline_nm3yggbuyj1rzaxsl_540fim – fernanda torres – companhia das letras – 203 páginas
em 140 caracteres… uma trama intrincada demais para apresentar uma mensagem tão simples.
um livro para… ler com calma, respirando fundo entre uma tragédia e outra. não há finais felizes, muito menos inícios e meios.
combina com… graça, sexo, sol e praias cariocas.
para quem já leu… o filme “up – altas aventuras”, para se motivar com outro velhinho.

 

 

Andre vai morrer.

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