ode ao livro infantil

Como nos tornamos leitores? Essa é a pergunta que foi respondida pelas mulheres dos canais JotaPluftz e Vamos Falar de Livros por estes dias, no YouTube. A ideia é justamente essa: mostrar o que se lia antes de começar a expor sua vida literária na internet.

Uma coisa em mim que se assemelha a elas é a presença de muuuitos livros infantis e juvenis na sua formação. Ziraldo, Marçal Aquino, Ruth Rocha… Histórias criadas e escritas para crianças.


 

“Crescer é assim:
a gente quer e quer,
contra tudo e contra todos,
mas quando rompemos o casulo e sentimos o vento frio lá fora,
dá vontade de correr de volta!
Tudo contraditório mesmo,
em meio à vontade de ser independente, encher a menina mais bonita do mundo de beijos e galopar pelo mato ao lado de um amigo com o coração batendo mais forte que o Big Bang.
A gente não cresce de uma vez, mas, que nem cabelo com franja,
que fica desigual e descabelado por um bom tempo.”


 

Também foi assim comigo. Os primeiros livros que li foram histórias curtas, com narrativas engraçadas ou cheias de aventuras, sempre tentando falar um pouco sobre amizade e moral ou colocando eu, leitor, como protagonista, escolhendo a minha própria aventura ou desvendando um mistério.

Entre os primeiros livros da minha vida como leitor, destacaria Os Karas, a coleção clássica de Pedro Bandeira e melhor leitura obrigatória de todos os tempos, Alice no País dos Números, de Carlo Frabetti, que ensinava noções de lógica e matemática no País das Maravilhas, e a extensa coleção de fantasia juvenil Deltora Quest, de Emily Rodda.

(Não, não fiz parte da Geração Harry Potter.)


 

Então, há um tempinho atrás, o MEC e o MinC resolveram financiar o lançamento de uma série de histórias clássicas da Literatura Brasileira adaptadas para jovens e crianças. A principal justificativa era que o texto original era complicado demais e não chama a atenção desse segmento de potenciais leitores.

Um receio vem do fato de que, quando se trata desse assunto, não vejo alguém mais novo pegando um texto original depois de já conhecer a história “mais a fundo”, além da sinopse mais acessível. O filme costuma ser suficiente, até mesmo quando se trata de um ya de capa bonita e escrita clara. Aprofundar-se é algo incomum no cotidiano dessa geração acostumada a saber de coisas demais e não saber algumas coisas em demasia.


 

“A gente tem que tomar muito cuidado com o que é visto como normal nesta vida;
ademais, assim é mais bonito e menos óbvio, mais próximo da verdade:
faz pensar, também sentir.”


 

Temos de concordar que, realmente, os textos de autores como Machado de Assis e Aluisio Azevedo não costumam ser os mais simples ou atrativos, mas, até que ponto essa adaptação é boa ou ruim? Simplificar o trabalho de uma pessoa, retirando parte da originalidade e mantendo somente o básico, um enredo, é mesmo o melhor caminho para chamar a atenção?

Proponho essa discussão agora porque hoje é o Dia Nacional do Livro Infantil. E foi um livro infanto-juvenil com uma proposta bem interessante que me provocou essa indagações sobre o quão ruim pode ser empobrecer a escrita de um autor.


 

 

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a autora de “antônio descobre veredas”

Antônio Descobre Veredas (o título já deve deixar claro para você onde ele pretende chegar) apresenta um garoto que tem Grande Sertão: Veredas como leitura obrigatória na escola. Correndo o risco de ser reprovado, ele precisa ler todas as páginas deste clássico de Guimarães Rosa para fazer o melhor trabalho possível. Não, ele não pode se ater a uma versão adaptada.

Então, decide investir tempo e se dedica nessa leitura cheia de neologismos e regionalismos. Para isso, ele receberá o apoio de um grupo de personagens muito interessante: Diadorim, Nhorinhá, Riobaldo e todas as outras criações que aparecem na história.


 

“Na parede, montou uma espécie de painel
com os marcos na vida dos personagens do Livro.
Para não se esquecer de nenhum,
colou os nomes dos principais em bonequinhos Playmobil
e organizou-os em cima de seu tabuleiro de damas

Riobaldo, Joca Ramiro, Reinaldo, Nhorinhá, Titão Passos, Hermógenes, etc.
Criou também um sistema de cores
para distinguir qual bando de jagunços cada um pertencia,
e canetas coloridas para anotar as características de cada líder e seus objetivos.”


 

O texto de Antonio Descobre Veredas é rápido e fluido. Em pouco menos de 80 páginas, a autora consegue desenvolver bem seus personagens e amadurecer Antônio através da leitura do original de Grande Serão: Veredas (é disso que eu estou falando!).  Apesar de atrativa, a escrita de Deborah Kietzmann Goldemberg não é lá das mais simples. Podem, sim, aparecer algumas palavras um pouco mais complicadas, dependendo do vocabulário adquirido de quem lê.

Lançamento recente da Editora Biruta, o objeto-livro ainda chama a atenção pelo projeto gráfico. Mesmo não dividido em capítulos, sendo uma trama direta em pequenos blocos de texto, eles conseguiram criar uma diagramação interessante para o texto, com boa fonte e tamanho agradável para as letras. Todas as páginas ainda são emolduradas por essa planta de uma cidade, tal como na capa do livro.

A história é bem leve e cumpre muito bem o papel de apresentar Guimarães Rosa para uma galera mais nova. Por não revelar demais do enredo original e pelo protagonista ter um contato tão direto e honesto com a história, acabou me seduzindo e instigando muito mais do que uma adaptação. Acredito que livros a essa maneira são uma boa aposta para fugir das mudanças de valores que alguns pretendem.


 

Observando minha trajetória, consigo perceber claramente, que não me tornei um leitor por causa de história clássicas da literatura brasileira, mas por causa de bons livros infantis. Foram eles que me fizeram apaixonar por personagens, narrativas e páginas amareladas. Foram eles que me abriram para mundos diferentes, sejam estes mundos fantásticos ou mais parecidos com o nosso.

Vamos ler e incentivar a literatura infantil. É ela que tem dramas voltados para idades menores, gera mais identificação do leitor com os personagens e melhor pode comunicar-se com uma criança. 


 

tumblr_inline_nmz7g5kthx1rzaxsl_540antônio descobre veredas – deborah kietzmann goldemberg – editora biruta – 76 páginas

em 140 caracteres… um convite a se enveredar por um dos maiores clássicos da literatura brasileira.
um livro para… apreciar rapidinho e ficar com muita vontade de viver uma aventura também!
combina com… acampamento, palavras inventadas e galope de cavalo.
para quem já leu… o infanto-juvenil “duas vezes na floresta escura”, de caio riter, que apresenta contos clássicos de machado de assis, enquanto uma trama policial se desenrola.

 

o livro “antonio descobre veredas” foi cortesia da editora biruta, por uma parceria com o blog. acompanhe as novidades no blog biruta gaivota ou pelo facebook e acesse o site para conhecer melhor.

Andre quer, cada vez mais, desamar-se das palavras.

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