candeia

Samuel é um jovem que sempre teve muitos receios quando se trata de crenças e religiosidade. Mesmo vivendo com um povo de muita fé, em Juazeiro do Norte, pelos lugares onde caminhou Padre Cícero. O que ele jamais imaginaria é que Santo Antônio seria quem o iria abrigar num momento de solidão, momento este provocado para que cumprir uma promessa.


 

Mesmo contrariado, no início do livro A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, Samuel resolve atender o pedido que a mãe o fez em seu leito de morte e peregrinar de Juazeiro do Norte à pequena cidade de Candeia para acender três velas a três santos e reencontrar sua avó e o seu pai.

Porém, em Candeia, ele acaba sendo recebido de uma forma nada agradável, expulso da casa da avó e sem nenhum contato com o pai. O único lugar que ele consegue arranjar para dormir, então, é uma cabeça gigante de uma estátua de Santo Antônio, que foi decepada há muito tempo atrás e jamais restaurada.

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Ali dentro, inesperadamente, Samuel passa a ouvir diferentes vozes femininas. Primeiro, cogita estar louco. Depois, entende que aquelas vozes que pedem por um casamento, um amor ou simplesmente cantam um hino de louvor são, na verdade, devoções e mensagens destinadas ao Santo, ansiando por um milagre.

Mesmo assim, Samuel reluta em aceitar aquilo e, em vez de utilizar este dom de uma forma “sadia”, decide se aproveitar daquilo que ouve para receber uns trocados em cima da fé daquele povo. A partir daí, uma série de contravenções se desenrolam, as coisas saem do controle do protagonista e o destino daquela pequena cidade será transformado para sempre.

A escrita de Socorro Acioli é tão gostosa e poética que dá gosto ler. Para completar, a trama fantástica que ela cria em torno de cenários reais é sublime e muito bem amarrada. Fruto de uma oficina com Gabriel García Marquez, são claras as influências do escritor no modo de contar a história.

Ao longo do enredo, Socorro Acioli abre mão das descrições do cenário, já que aposta em lugares conhecidos ao menos pelo público nacional (A Cabeça do Santo já foi traduzido para o inglês), para contar bem com todo um gestual, sotaques, entonações e outros detalhes sobre os personagens. E apesar de serem poucas as chamadas para ambientação dos personagens, o clima quente e seco do nordeste fica claro em vários pontos. Essa combinação acaba criando uma narrativa extremamente visual, daquelas onde a gente não lê o texto, mas enxerga as cenas em nossa frente. Fica até uma vontade de confirmar isso nas telas de cinema, numa adaptação caprichada que o texto merece…


 

“Foi a morte que me ensinou.
O tempo de sonhar é em cima da terra.”


 

Um pequeno incômodo, porém, também vem dos personagens, que são chapados demais, na minha opinião. Exemplificando: O Chico Coveiro, na maioria das vezes, aparece somente em cenas no cemitério ou fazendo comparações mórbidas (a citação acima é deste personagem). Isso também acontece com outros personagens, que tem seus espaços muito demarcados, ganhando uma personalidade não muito profunda. Do mesmo jeito que isso cria um humor e fornece leveza para o livro, fica a impressão de que faltou um desenvolvimento real para os secundários, já que o único que adquire algumas mudanças ou novas características é o protagonista, Samuel.

Aos poucos, a escritora Socorro Accioli vai enrolando um fio muito interessante entre algumas situações, criando uma teia que liga várias pessoas a uma história específica. O clima engraçadinho de antes é mesclado aqui com uma certa melancolia. Algumas destas ligações são previsíveis, a maioria nem tanto. O legal é que todas são interessantes e criativas, mostrando certo esmero e cuidado na hora da criação.

O desfecho pode ser considerado conveniente demais, por ser um pouco mais acelerado que o resto do livro (não que A Cabeça do Santo seja lento e arrastado, longe disso). Porém, é impossível não se apaixonar pelos últimos capítulos, quando a autora despeja o auge da sua poesia, criando um final bem delicado, mesmo que fácil demais.

A Cabeça do Santo representa muito bem a religiosidade do povo nordestino, unindo a poesia ao realismo mágico. Não há como não se envolver, rir, ficar triste ou se emocionar durante a história, claro, recomendada.


 

tumblr_inline_noez52rCXe1rzaxsl_540a cabeça do santo – socorro acioli – companhia das letras – 176 páginas
em 140 caracteres… uma história de amor, fé e poesia no sertão do nordeste brasileiro!
um livro para… sorrir abobado com tanta graciosidade!
combina com… sol escaldante e pés descalços!
para quem já leu… Auto da Compadecida, tanto o livro de Ariano Suassuna quando o filme de Guel Arraes.

 

 

 

Andre não começa com C.

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