veneno, feitiço & poder

Uma princesa indefesa e que, apesar de ser protagonista e dar nome à história, sempre precisa de um herói que a salve das garras de uma malévola madrasta, um dragão ou uma torre a ser escalada. Contos de fadas são sempre a mesma coisa, né? Sempre colocando a mulher como vítima e inimiga de uma outra mulher, inserindo o homem como o forte e poderoso e unindo os dois opostos no final feliz.

É claro que a Disney anda se prezando pelo papel e incentivando uma certa revolução. Em Frozen, duas irmãs se unem para a salvação e dão um novo significado pelo gesto de amor sincero (que não, não precisa ser um beijo). Em Valente, uma princesa cansada dos estereótipos e convenções da realeza planeja fugir dos vestidos espalhafatosos e seguir um novo futuro, um que ela mesma escolhesse. Acho ótimo que estejam mudando tudo isto e que mostrem para crianças que não é necessário ser igual a todo mundo. Justamente daí veio minha vontade de ler a Saga Encantadas, de Sarah Pinborough.

A trilogia – composta dos livros Veneno, Feitiço e Poder – não pretende mudar as visões de crianças (até porque apresenta um conteúdo mais jovem e adulto), mas resolve acabar com certos estereótipos, sim. A princesa aqui não é indefesa. A vilã tem seus motivos para ser assim. O caçador é mais impulsivo e menos calculista. Os anões são explorados pelo governo e não trabalham tão alegres assim.


 

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A história de Veneno, primeiro livro da série, começa quando o Rei precisa se ausentar do país e seguir para uma guerra, deixando Lilith, sua esposa, como rainha. O tempo passa, o poder sobe à cabeça da madrasta de Branca de Neve e ela fica irritada com toda as decisões que a princesa toma: não quer se casar, não usa vestidos, socializa com as classes sociais inferiores… Na tentativa de converter a jovem a uma dama, as coisas saem de controle e um drama é desenvolvido.


 

“A que se devia essa necessidade de ser visto como benevolente?
Se é para ser cruel, então admita isso.
Abrace isso.
Qualquer outra coisa era apenas auto-ilusão e fraqueza.”


 

Cada livro tem foco em uma princesa, mas personagens de outros contos internacionalmente conhecidos são explorados pela autora. Neste, por exemplo, conhecemos os outros lados de Aladim, a Bruxa Velha da casa de doces e dos irmãos João e Maria. As conexões são bem feitas e não passam por somente referências ou citações, mas um aprofundamento mais inteligente.

A escrita da autora é bem leve, mesmo nas cenas eróticas (são poucas e não beiram a pornografia ou mau-gosto), e a descrição dada por ela aos cenários e personagens é bem tangível, reforçando as histórias clássicas e nos mostrando algo novo sempre: principalmente no final do livro. Sério, é um dos meus desfechos mais inesperados que já li.

Sarah Pinborough conseguiu me prender neste mundo encantado e fiquei bastante ansioso pelos outros livros da saga. Por aqui, em junho do ano passado, esperava bastante que o nível continuasse o mesmo e que as próximas ligações fossem tão bacanas quanto neste volume.


 

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Li o segundo livro da série, Feitiço, em julho do ano passado, na correira para conhecer a Cinderela de Sarah Pinborough. No livro, ela vive com o pai, a madrasta Esme e uma irmã adotiva, Rose. Outra irmã, Ivy, já se encontra casada com um rico e conceituado duque. Ao começar Feitiço, descobrimos que o Príncipe promoverá dois bailes de gala, onde conhecerá as mulheres do reino e escolherá uma delas para se casar. Cinderela, que sempre foi apaixonada pela beleza do Príncipe, a ponto de ter pôsteres dele em seu quarto, acredita que essa seja sua oportunidade de se tornar rica e famosa, ajudando sua família, que não está nas melhores condições.

Porém, Esme, que não suporta viver na pobreza e quer retomar um lugar que já teve na nobreza, acredita que é a sua filha legítima que deve ir para o baile. A contragosto, Rose, que não estava a fim dessa história, começa a se preparar para as festas, escolhendo vestidos, fazendo dietas, criando novos penteados, enquanto Cinderela resmunga e recebe a ajuda de umaMadrinha, que não tem nada de fada e a oferece um acordo em troca de dois sapatinhos mágicos.

Novamente, a autora cria boas ligações do mundo real com as histórias clássicas de contos de fadas. Esta sequência é a que colocou a série entre minhas histórias preferidas. É interessante ler e conhecer o lado humano dasprincesas perfeitas. O lado do orgulho, da inveja… Ao mesmo tempo em que apresenta estes defeitos, a autora cria situações em que a única e desesperadora saída pode ser uma pequena maldade. Ficam os questionamentos: até onde ir pelos nossos sonhos?


 

“Mas a vida na corte não é só feita de danças, música e amor, Cinderela.
As pessoas boas não se dão muito bem quando todos estão brigando pelo poder.”


 

A história de João e Maria, citada no primeiro livro, Veneno, reaparece neste volume, recebendo o que pareceu ser um desfecho. O desenvolvimento desta narrativa se mostrou bastante aleatório para mim e não acrescentou nada à trama principal, desta vez.
Enquanto isso, a história de Branca de Neve e o Caçador reaparece de uma maneira bacana, numa conexão quase imperceptível. Quase: páginas antes de uma grande reviravolta já é possível adivinhar o que está por vir. Um novo conto também aparece em Feitiço: Robin Hood é o melhor amigo da protagonista.

Ao final deste volume, a parceira Única Editora deixou um aperitivo do último livro da trilogia. Nele, conhecemos um jovem príncipe, que parte em uma aventura misteriosa. Poder tem seu foco na história da Bela Adormecida.

No meio diário de leituras, em Julho de 2014, escrevi o seguinte: Feitiçofecha algumas pontas de Veneno e adiciona novos fios na meada de Sarah Pinborough. Espero que o final da saga seja interessante e surpreendente, mantendo o nível dos outros dois livros.” Protelei a leitura do desfecho por bastante tempo, mas a fiz neste mês de março. Spoiler sobre os próximos parágrafos: minhas expectativas não foram atendidas.


 

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Poder é ambientado numa cidade que adormeceu por quase 100 anos. Todos os habitantes adormeceram e o lugar foi envolto numa grossa parede de folhas, troncos e galhos, o que criou uma atmosfera de medo e terror e evocou várias lendas em torno dos motivos daquilo. Como você deve ter percebido, teremos aqui parte da história da Bela Adormecida (que aqui não se chama Aurora, mas okay, existem motivos para isso).

Digo “parte da história” porque começamos com a partida de um príncipe e um caçador com a intenção de desbravar esse reino, visto que o lugar já foi bastante rico e devem haver tesouros guardados. Entretanto, a primeira coisa que encontram ao colocar os pés na cidade (depois do aparecimento da Chapeuzinho Vermelho) é uma princesa tão bonita que ganha o amor instantâneo do Príncipe (procurei a identidade do príncipe, mas não achei. os reis devem ter tirado esse nome de algum livro de nomes & significados para bebês). O que acontece depois você já sabe:

1) o Príncipe, diz que vai beijar Bela.
2) Chapeuzinho Vermelho avisa o coleguinha de que isso é abuso.
3) ele beija do mesmo jeito e acorda a cidade inteira novamente.

Isso tudo já era de esperar, mas o que se desenrola daí, com direito a aparições de Rumpelstikin, da Rapunzel, do Lobo Mau e de outras histórias é totalmente imprevisível. Bem ao jeitinho Sarah Pinborough de ser? Mais ou menos. A diferença, para mim, é que este livro é mais fechado que os outros, sem ligações com os anteriores, não resolvendo nem criando problemas.

Em uma entrevista que a Única Editora adicionou ao final da edição, a autora diz que este é como um prequel para as outras narrativas. Totalmente dispensável, sério. De onde veio a ideia de encerrar uma Saga com o início dela? E, pior, com um início que nem se parece com um início?


 

“- Não seja boba querida. Não são só homens que precisam de aventuras, sabia? Todo mundo precisa encontrar o próprio destino.”


 

A tentativa de subverter as princesas e questionar valores acontece de uma maneira bem escorregadia. O lado negro da Bela é tão exagerado que não me causou uma reflexão, como nos outros volumes da história. Chapeuzinho Vermelho acaba tomando o lugar de protagonista, mas com ares aleatórios e que não condizem com a história original. Fora a conexão entre ela,Rumpelstikin e Rapunzel, que é BEEEEM forçada.

A escrita de Sarah Pinborough continua divertida e leve e, por isso, a leitura foi bem agradável, em somente um dia. Prova que foi falta de planejamento ou de um roteiro bacana e não pelo fato dela ser uma “escritora ruim”.

Para quem gostou muito de Veneno e Feitiço, a leitura de Poder pode ser um fiasco, mas é válida para encerrar a Saga Encantadas com um outro lado da autora. Parece que todos tem algo desagradável sobre si, realmente.


 

veneno – feitiço – poder
sarah pinborough – única editora – 224 páginas (cada)

avaliação final: 4 anões

única editora é parceira do blog e cedeu os exemplares dos três títulos da série para que essa resenha acontecesse.

Andre queria estar no reino adormecido.

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