quando a alma transborda

Sou todos os filmes que meu pai já assistiu. Sou cada brincadeira da minha mãe. Sou cada almoço na casa das minhas avós. Sou cada história que meus avôs me contaram. Sou as reclamações do meu bisavô e a calmaria das minhas bisavós. Sou a implicância charmosa da minha irmã. Sou meu lar.

Sou aquele que era o mais quieto, mas que agora fala demais. Sou aquela que sempre chega atrasada. Sou aquele que tem resposta para tudo. Aquela que não desgruda daquela outra. O outro que conheço há bem mais tempo. Sou quinze que já foram sessenta e cinco. Sou um casal e seu filho. Sou aqueles que dormem nas aulas chatas. Sou aqueles que detonam aquilo que gosto e aqueles com vários gostos em comum. Faço de mim cada um dos meus amigos.

Sou aquela professora que parece respirar matemática. Sou aquele que não consegue terminar um assunto rapidamente, porque se perde em seus próprios pensamentos. Sou aquele que vai do grito ao sussurro em questão de segundos, só para chamar a atenção dos alunos. E aquele tão metódico que irritava. E o que adorava piadas ruins com elementos químicos. Sou todos aqueles que já me ensinaram alguma coisa.

Sou Pitágoras, Platão, Aleijadinho. Sou Foucault, Picasso, Tiradentes. Sou mal-do-século, Getúlio, Beethoven. Sou Rousseau, Saramago, Vivaldi. Sou Newton, Camões, Karl Marx. Sou cada escola literária, cada lei da física, cada movimento cultural que fez história. Cada personalidade que, um dia, foi presente.

Sou aquele cara que me ensinou a ser maré-viva. Sou todas as verdades que Supercombo já me jogou na cara. Sou a velha e louca do sambinha bom, do youhuhu e do tchubaruba. Sou, meu amor, esta última oração. Sou quem me mostrou o que é viver mais lento quando cantou que “a hora passa sempre devagar pra quem vê o bom lado da vida e se lança”. Sou quem derruba o grande rei quando a caçada começa. Sou vaga-lumes cegos e elefantes brancos. Sou a banda que já sabe como isso tudo vai acabar. Sou as músicas que adoraria ter escrito.

Sou ameixa, escafandro, cintilante. Sou alpendre, rubéola, pizzaiolo. Sou cabeleira, alvorada, jacintos. Sou anêmonas, camafeu, meteoritos. Sou damasco, diáfano, constelação. Sou eloquência, eufemismo, metamorfose. Sou cítrico, forma, cântico. Sou cada palavra que coleciono. Fico sendo cada um dos livros que li. Cada poesia recitada.

Sou cada lugar que ainda quero visitar. Sou cada monumento histórico, cada museu que quero conhecer. Sou cada pessoa que atiça minha curiosidade. Sou os autógrafos que ainda hei de receber. Sou as várias profissões que já quis ser e também sou aquela que um dia serei. Sou o único representante dos meus sonhos na Terra.

Sou a soma de tudo aquilo que já passou por mim. Sou aquilo que eu passei para os que somaram-se a mim. Sou o amor que carrego. Sou tudo que não cabe mais no meu corpo. Sou aquilo que transborda a alma.

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Andre não cabe em si.

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