onde vivem os (meus) monstros

(Este texto me deixou aflito em 07/09/14. Hoje ele me fez sorrir.)

É que parece que tudo dentro de mim agora é medo. Medo de me mostrar como sou para outras pessoas, medo de me entregar numa dança, medo de cantar bem alto. Medo do que vão pensar de mim, do que pensarei de mim mesmo. Medo do futuro e de tudo que ele reserva pra mim. Tudo é tão inconstante, incerto e grandioso que não vejo motivos para me sentir confortável.

As notas das provas da última semana começam a chegar e percebo que não fui tudo que deveria ter sido, talvez. E se eu, com meus padrões medianos, estou achando tudo errado e perigoso, o que pensarão os outros, que fazem cobranças de um modo bem mais severo?

Parece que estou no lugar errado. Vejo todos os livros no meu quarto e não me enxergo em dezenas deles. A capa de caderno que escolhi para este ano, simples listras, deixaram de combinar comigo. A cama parece grande demais para minha pequenez. Uso sempre o mesmo pulôver preto, cheio de bolinhas brancas de tão gasto, porque não consigo me ver em outras roupas.

E a carta não enviada. Duas páginas escritas em uma folha de papel pautado, mas guardadas. Não houve coragem para enviar. Não houve coragem para sair da cama e encontrar pessoas que não quero ver nem de longe, mesmo sabendo que poderia magoar dois amigos que, provavelmente, não lerão aquelas palavras sobre distância e amizade verdadeira.

Sozinho em casa, sem meus pais por perto, percebo que não estou pronto para sair daqui e ir morar em outro estado como quero. Não estou pronto para a independência porque não estou pronto pra solidão. Eu até sairia da cama, mas se fosse para não voltar mais. Se fosse para seguir para uma ilha distante, sem obrigações, sem outros humanos. Onde pudesse ser o rei de mim mesmo.


 

“Não, não estava com frio.
Quem o visse poderia pensar que
um menino poderia estar com frio passando tanto tempo assim na neve,
porém Max não estava com frio.
Sentia era calor,
primeiro porque estava usando várias camadas de roupa
e segundo porque
meninos que são metade vento, metade lobo nunca sentem frio.”


 

Where the Wild Things Are
encare os seus

Max, o sortudo protagonista de Os Monstros, de Dave Eggers, já fugiu de casa e, sem saber como, foi parar numa ilha assim. Desde que se separaram, o pai de Max tem ficado cada vez mais distante (as ligações telefônicas ficam cada vez mais escassas) e a mãe precisa trabalhar muito mais para sustentar a casa. O pouco tempo livre que ela tem é usado para descansar ou dar atenção a Gary, o novo namorado. Já Claire, que era a companheira de brincadeiras do garoto, cresceu e não quer mais saber de ficar perto do irmão.

Esgotado por ver todas as coisas que gosta ser proibidas pela mãe e por ser chateado pelos amigos mais velhos da irmã, que bebem e fumam, Max se veste de lobo, corre pela vizinhança e encontra um barquinho abandonado pelo caminho. O destino, a nova casa do seu pai, contudo, não consegue ser atingido.

Mais exóticos que as paisagens da ilha desconhecida onde o garoto chega são os seus moradores. Sete monstros peculiares (um se parece com um bode, outro com um galo, outro com um touro; os outros são sonos de características estranhamente próprias) que só querem saber de baderna e diversão. Não lhes interessa a ordem, leis e proibições: tudo é permitido desde que seja para que todos fiquem alegres.


 

“Passaram algum tempo sentados em silêncio,
observando os outros monstros dormir.
No sono,
as gigantescas criaturas pareciam crianças, quase bonitinhas,
e ao mesmo tempo patéticas, trágicas,
sobrecarregadas por tudo que traziam consigo,
muito mais do que Max ou Alexander podiam saber.”


 

Where the Wild Things Are

Dave Eggers não é o primeiro a escrever a estória do menino que foi coroado rei neste lugar. O primeiro foi Maurice Sendak, em 1963, em um livro infantil ricamente ilustrado. Depois, Spike Jonze transformou as pouquíssimas frases do best-seller no roteiro do filme Onde Vivem os Monstros, um dos meus filmes preferidos e que tem a melhor trilha-sonora do cinema.

O que mais me cativa aqui é que Dave conseguiu conservar a essência de Max e dos Monstros na  sua versão, um romance infanto-juvenil. Agora, Max tem outros problemas em casa e tenta resolver as coisas de modo diferente na ilha, mas usando a mesma fantasia, os mesmos delírios infantis, uivando da maneira mais poética que pode. A trama ganha complexidade nas mãos dele, que tem uma escrita única e consegue mudar o foco da felicidade para a tristeza com poucas palavras. Um livro de emoções diversas.

O imaginário refletido da infância de todos, a busca constante para suprir nossos vazios, o medo dos barulhos que ouvimos, a necessidade de escapar de alguns dos nossos semelhantes para encontrar outros, a dificuldade em conseguir crescer… Esses problemas de crianças são aquilo que move a bonita narrativa de Os Monstros, que tem o poder de inspirar e dar leveza ao cotidiano de qualquer adulto (ou jovens blogueiros de 18 anos).


 

12828_ggos monstros – dave eggers – companhia das letras – 264 páginas

em 140 caracteres… uma ilha, uns monstros, uma criança e a mais bela metáfora sobre infância e medo.
um livro para… se sentir menos sozinho!
combina com… uivos de companheirismo!
para quem já leu… o livro “a mais pura verdade”, de dan gemeinhart, pode ser uma boa! uma outra história sobre crianças em fuga.

Andre seria um monstro grande e peludo.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s