não-dublinenses

Seguindo minha empreitada de dar espaço para mais livros contemporâneos nas minhas leituras, segui com Digam a Satã que o recado foi entendido. O livro faz parte da coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras. Todos os romances desta série foram escritos em outras partes do mundo, quando seus autores foram enviados para passar um tempo e receber novas inspirações. Participaram Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato, Daniel Galera e vários outros escritores (são 17 livros ao todo), incluindo Daniel Pelizzari, que foi para a Irlanda escrever o livro desta resenha.

O romance é um grande emaranhado de situações e personagens bastante exóticos, todos se passando na capital da cerveja escura. São imigrantes, turistas ou irlandeses, mesmo que neguem seu passado ou local de nascimento.


 

“Penso na sorte de quem consegue viver sem ficar arquivando para futura análise tudo que vê, cheira, prova, escuta, toca, pensa ou sente. Eu trocaria isso pela chance de viver as coisas no mesmo instante em que me acontecem, e não uma semana depois, ou um mês, ou uma vida inteira.”


 

Dublin será o palco de histórias assombrosas criadas por Magnus Factor, sócio de uma agência de turismo que promove tours guiados por pontos turísticos aterrorizantes (mas que não passam de prédios e ruelas quaisquer, com falsos contos de terror por trás). Aterrorizante de verdade talvez seja o que acontece com um grupo de adoradores de um deus irlandês no formato de cobra e que acredita no sacrifício de virgens como forma de reconhecimento da soberania do outro. Ou, quem sabe, as brigas de rua, atentados e roubos promovidos por terroristas diferentes, que só querem atiçar o raciocínio e pensamento crítico do povo – e não atacar o governo ou uma ideologia.


 

“Quase nenhum dos participantes conhecia Zbigniew de fato, disso eu tenho certeza. Eram apenas figurinhas num banco de dados dedicado a gerar receita com publicidade. Uma horda ávida por tagarelar sem ponderação alguma, emitindo opiniões compulsivas sobre qualquer coisa, como se esse desespero servisse para confirmar sua existência.
Discussões onde o único objetivo é vencer, sem espaço nenhum para a empatia, nenhum sinal de reconhecimento do outro.
Vence quem posta o primeiro comentário ou afeta o descaso mais sarcástico, a ironia mais rasteira, substituindo qualquer vestígio de emoções humanas genuínas.
Uma vida inteira reduzida a um jorro de texto que não passaria pelo filtro de spam mais rudimentar.”


 

daniel-pellizzari-c2ae-renato-parada1

É comum cada capítulo de um livro acabar com uma ponta bem grande e solta ou uma revelação bombástica que muda os rumos para a próxima cena começar. É um modo de certos escritores incentivarem a continuar a leitura ou tentativa de afirmar em si uma “genialidade”. Em Digam a Satã que o recado foi entendido nem sempre isso acontecia, mas me sentia atiçado puramente pela escrita de Daniel Pelizzari.

Isto porque seus capítulos não tem títulos, fontes diferentes ou avisos de onde estamos agora. Cabe ao leitor descobrir por si só o que está acontecendo, quem está narrando, quanto tempo passou. As mudanças de ponto-de-vista também constituem mudanças no tom da narrativa, então temos várias formas de escrita diferentes, uma para cada personagem.

Por exemplo, certos personagens tem sotaques de estrangeiro e escrevem em um português com alguns erros. Outros, mais metódicos, adicionam listas entre um parágrafo e outro. E ainda temos algumas referências a seres mitológicos, palavras complicadas que se relacionam com uma seita pouco difundida ou citações a personagens, músicas e cenas de músicas, videogames e clássicos da cultura pop. São várias as identidades construídas e cenários descritos muito bem, já que o escritor conheceu a cidade justamente para este romance.


 

“Ou prestamos atenção naquilo que nos separa dos outros, ou resolvemos prestar atenção nas coisas que nos unem.
Tento me concentrar na segunda opção.
Talvez eu seja masoquista.”


 

Quanto a trama, pode soar morna (ou até mesmo fria) para alguns. Eu também ficava em vários momentos tentando encaixar a quantidade de informações que Daniel Pelizzari acrescentava e nada funcionava na minha cabeça. Em momento algum pensei em desistir da história, mas confesso que sentia um pouquinho de sono nas narrações de alguns personagens (pelo menos seis personagens se dividem) e não achei a conexão das histórias paralelas grande coisa – não há um fio condutor interessante. É sutil e pouco faria diferença se tivéssemos um romance ou três contos no mesmo livro.

Fato é que este livro usa as palavras de uma forma que nunca havia visto. Digam a Satã que o recado foi entendido é propositalmente confuso: o autor parece saber muito bem o que está fazendo e me ganhou com um livro bem rico e com características muito próprias.


 

digam-a-satc3a3digam a satã que o recado foi entendido – daniel pelizzari – companhia das letras – 184 páginas

em 140 caracteres: uma boa escrita vale mais que mil reviravoltas
um livro para… pirar numa noite de insônia
combina com… cerveja escura e rock alternativo
para quem já leu… o filme “trainspotting” e os livros da série “nocilla”, de agustín fernández mallo.

Andre ficou com vontade de visitar os pubs irlandeses.

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