alice entre zumbis

Todo acontecimento sempre traz três verdades diferentes: a minha, a sua e a que realmente aconteceu. As histórias são sempre aumentadas, suavizadas, transformadas, adaptadas e recontadas utilizando sempre os aspectos que interessam a quem deseja transmitir uma ideia.

Isto acontece com os contos de fadas, por exemplo. Para os autores originais, criar uma atmosfera pesada para os acontecimentos violentos era algo fundamental. Por outro lado, a Disney prefere ensolarar suas versões, mesmo que se trate de algo triste ou macabro. Não há nada errado nisso, pois são simplesmente modos diferentes de passar uma mensagem (não vá por esse caminho, lembre dos ensinamentos de seus pais, rejeite o que estranhos te ofereçam…).


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Contudo, apesar de muitas vezes a moral da história seja a mesma, existem aquelas pessoas que transformam os cenários completamente, utilizando um clássico somente como inspiração, criando algo tão original quanto ele. É o que acontece com Alice no País das Armadilhas, um livro bem longe de ser chamado de reconto ou adaptação.

O cenário principal aqui é a Índia, algo incomum (nas minhas leituras pelo menos) e me animou logo de cara. Entretanto, esqueça as descrições de tecidos coloridos, temperos ou do trânsito caótico: o tempo é o futuro, depois de uma nova guerra de grandes proporções e ataques nucleares generalizados. Tudo é desolador, principalmente ao que se diz respeito á sobrevivência.

Os humanos, além de terem recursos reduzidos quando se trata de agricultura, pesca, pecuária ou qualquer modo de subsistência do tipo, são ameaçados pela presença dos Mordedores. Frutos de mutações genéticas, esses seres são como mortos-vivos (sem fome, sede, raciocínio, sentimentos…) e transmitem esse estado para os humanos através de mordidas.


 


 

A protagonista dessa trilogia (este é apenas o primeiro livro) é Alice, uma garota de 15 anos de idade, que conviveu desde sempre com todos estes problemas. Por isso, foi treinada desde a infância para exterminar Mordedores e se integrar ao exército. Uma líder nata, mesmo sem ordens de superiores, ela resolve explorar o subterrâneo da região onde mora e verificar se os boatos de que os Mordedores guardam uma base embaixo da terra são verdadeiros.

Sim, eles eram. O que acontece de surpreendente, porém, é o fato de os Mordedores aguardarem a presença dela por anos. O livro de Lewis Carroll é visto como uma profecia, de uma garota humana que chegaria ao subterrâneo e salvaria a todos – a utilização de Alice no País das Maravilhas, então, não é como uma inspiração óbvia do autor, mas uma referência.


 

“A Rainha pareceu um pouco decepcionada por Alice não reconhecer o que havia ali, porém ela não sabia que a moça nunca lera um único livro na vida, e que por isso não reconhecia o título na capa.
Alice no País das Maravilhas.”


 

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O desenvolvimento da história é repleto de ação. São diversas as cenas de confronto, correria, tiros, lutas, bomba… O ritmo é acelerado na maior parte do tempo, dando bastante velocidade para o livro. É possível terminar o livro de leitura em poucas horas, um ou dois dias.

Mas tanta ação não impediu que Mainak Dhar se aprofundasse também no lado psicológico dos personagens e numa trama histórica, o que é algo importante quando falamos de histórias no futuro. Aqui entendemos muito bem o que levou a sociedade àquele estado, como funcionaram as guerras por um tempo e como surgiram os Mordedores.

Com o passado sendo apresentado em Alice no País das Armadilhas é que vem as reflexões sobre o estado atual da nossa visão política: qual o sentido de acabar com o próprio território somente para ele não ser invadido por uma nação inimiga? É mais interessante defender o petróleo que outros humanos? E como temos tratado aquilo que é diferente de nós? Com receio, medo, afastamento?

Alice nos País das Armadilhas é mais do que um livro de zumbis. É também sobre política, conflitos internacionais e sobre o que nos faz humanos. Mainak Dhar acerta em vários pontos, termina este volume com um cliffhanger enorme e me deixou bem curioso para descobrir como a trilogia irá encerrar.


 

capa_alice_final.inddalice no país das armadilhas – mainak dhar – única editora – 130 páginas

em 140 caracteres… uma história de zumbis com referências ao livro mais famoso de lewis carroll!
um livro para… refletir sobre o que nos faz humanos e como tratamos aquilo que consideramos diferente.
combina com… madrugadas e filmes de ação.

a única editora é parceira do blog e um exemplar deste livro foi enviado como cortesia. veja também este livro no skoob, conheça o catálogo completo aqui e acompanhe-os no facebook.

Andre prefere ser um morto-vivo.

 

 

imagem do topo por chitztaychuang, via deviantart. outras imagens por camille rose garcia, via vår bokvärld.

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