o teste, estudo independente e a formatura

esta postagem está dividida entre os livros da trilogia.
a primeira parte é livre de revelações, mas não é aconselhável ler os blocos sobre os livros 2 e 3 que você ainda não leu, caso não curta um spoilerzinho ou outro.

 

o teste

lido em maio/14

Quando se tem 17 anos você não pode beber, nem dirigir nem fazer qualquer coisa de adulto, exceto tomar uma das decisões mais importantes da vida de alguém. Isso já é idade de se ter certeza da faculdade que pretende fazer, mas o medo do que estava por vir depois do curso (que ainda nem tinha começado, olha o desespero) era o que mais me atingia. Vou conseguir emprego? Vou sustentar a mim mesmo?

Todas essas perguntas sobre o que o futuro está preparando para nós também aparecem nos primeiros capítulos de O Teste, de Joelle Charbonneau (claro, adaptadas para a realidade pós-guerra devastadora do livro). Identificação imediata, o que me fez empolgar com a leitura de cara quando o li no ano passado. Depois de uma safra de protagonistas de distopias que eram fortes demais ou emocionais demais, Malencia Vale conseguiu ser, para mim, a mais humana e tangível.

A história de O Teste começa na formatura de Malencia (ou somente Cia). Se você se forma neste ensino regular, você pode passar por dois caminhos distintos. A primeira opção é continuar normalmente em sua colônia, convivendo com sua família e tentando arranjar um emprego em um dos locais que os oferecesse por lá. A segunda opção (e a que mais interessa Malencia) é ser escolhida para participar do Teste, um sistema de seleção para a universidade. Diferentemente do Brasil, onde todos podem concorrer vagas no ensino superior, nesta distopia somente os alunos mais esforçados conseguem a chance de seguirem para a central de provas que definem quem se tornará médico, engenheiro, professor ou qualquer outra carreira que ajude a reconstruir o planeta, que se encontra devastado por causa de uma nova guerra mundial.


“…empolgação, medo e outras emoções rodopiam dentro de mim, tornando difícil dizer o que realmente estou sentindo.
É estranho não saber o que vou fazer quando me levantar amanhã.”


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O pai de Malencia participou do Teste anos atrás e foi aprovado. Logo, foi enviado para a colônia que mais precisava de seus serviços, distante de família e amigos (onde acabou conhecendo a mãe de Malencia e formando uma família por ali). E mesmo sabendo que precisará se desfazer de todos os laços emocionais, Cia está disposta a tentar lutar por uma vaga como líder da reconstrução do planeta. Entretanto, há anos ninguém de sua colônia é selecionado para o grande evento.

É claro (como era de se esperar pelo título do livro) que Malencia consegue seguir para o Teste, junto com outros adolescentes da sua colônia. Mas por que, depois de tanto tempo, selecionaram novamente alguém daquele lugar com pouquíssimos habitantes? Outro fato que intriga a protagonista é o fato de apagarem a memória de seu pai após o fim da seleção. A princípio, ela acredita que isto é somente um modo de ninguém descobrir o que acontece no Teste antes de estar lá para ver, não obtendo vantagens sobre outros participantes. Mas seu instinto acaba mostrando que há muito mais por trás disso.


“Uma vida de pesadelos não é minha ideia de boa coisa.
Contudo, reprogramar-me para esquecer o que vivi também não é.”


O Teste acontece em quatro etapas que contém provas de agilidade, conhecimento, raciocínio rápido, pensamento coletivo, problematização… Cada fase apresenta novos desafios onde os candidatos a líderes precisam estar sempre atentos para não serem eliminados por escolhas erradas.

The Testing

Malencia não é apresentada nestas questões como alguém infalível ou extremamente decidida. Ela também era confundida, se deixava levar pelas emoções, ficava com dúvidas na hora de fazer escolhas… Uma das coisas que mais a torna humana, na minha opinião, é seu medo de dormir. Seus sonhos eram sempre tomados por pesadelos que continham tudo aquilo que havia passado durante o dia. As piores cenas voltavam à mente dela durante a noite.

Somos todos Malencia. Com medo do futuro e atormentados em nossos pesadelos pelas questões mais profundas que já visitaram nossa cabeça.

A história me deixou bastante tenso e ficava entusiasmado a cada novo capítulo, sempre com um cliffhanger desesperador aos finais. Me deixei levar pela escrita de Joelle, torcia por alguns personagens, desconfiava de outros e fui surpreendido na maioria das vezes. É impossível não passar inerte pela quantidade de emoção que a autora conseguiu depositar nas linhas de sua história. Tudo foi muito bem escrito e nada tem aquele tom de desnecessário. O mais difícil, claro, foi ter que conviver com várias pontas soltas enquanto aguarda pelo próximo volume da série.


estudo

estudo independente

lido em agosto/14

Terminei o primeiro livro da série dizendo que, se a autora construir a sequência no caminho do antecessor, O Teste tem tudo para ser uma das melhores séries da literatura. E, vejam só, terminei Estudo Independente com o sentimento de que continuar na mesma linha foi o maior pecado que Joelle Charbonneau cometeu aqui. Acabou sendo um pouco repetitivo e não acrescentou muito. A tal da síndrome do livro do meio de trilogia.

O livro anterior terminava com a protagonista Malencia Vale sendo selecionada para entrar na universidade. Porém, antes disso, ela passa por um procedimento que seleciona e apaga suas memórias de tudo que ela viveu no Teste. A justificativa do governo para isso é que os sobreviventes podem acabar revelando as técnicas que usaram para ser selecionados e atrapalhar as próximas edições deste “vestibular”.

Entretanto, a garota é astuta e usa um gravador de voz para armazenar aquilo que ela viveu. Pessoas confiáveis, mortes angustiantes, cenários de desordem… Um grande desabafo sobre os perigos que ela enfrentou e o amor que viveu neste jogo.

Estudo Independente começa com Malencia já na universidade. Agora, ela precisa conviver com pessoas em fraternidades e dividir a casa com moradores provenientes das colônias do país e também jovens de Tosu City. Sim, alunos de Tosu City (algo como uma capital para o país, cidade bastante desenvolvida) são privilegiados e não precisam passar pelo perigoso Teste para receber uma graduação.


“Medo do que está por vir.
Não apenas com essa Iniciação, mas com tudo que se segue.
Este não é o fim dos desafios que vou enfrentar.
Há mais. Mais difíceis. Talvez mais mortíferos. Preciso estar preparada para todos eles.”


Diferentemente do sistema de educação brasileiro onde os alunos escolhem o curso que desejam fazer, o governo deste mundo pós-apocalíptico escolhe o destino de seus alunos e os envia para os lugares que combinem com sua personalidade. Após isso, uma Iniciação dos calouros é feita pelos graduandos: uma grande disputa que ensina as primeiras lições sobre o que acontecerá nesta nova fase da vida deles.

Outro plot que aparece neste livro (e que já era de se esperar, como estamos em uma distopia) é o aparecimento (ou “explicitamento”) de uma corrente de rebeldes. Porém, Estudo Independente apresenta duas facções que são contra O Teste. Uma delas acredita que a violência é o único jeito de conseguir acabar com o sistema violento e ineficiente de encontrar líderes para as comunidades do país. A outra (e que recebe o apoio de Michal e Malencia) tenta conseguir provas e evidências de que o Teste não funciona como deveria e, aos poucos, convencer os representantes políticos do país.

Independent study

Acredito que o que me fez gostar tanto do primeiro livro da série foi a ótima escrita de Joelle Charbonneau, que sabia dar o tom certo às cenas de ação, me deixando tenso ou me emocionando. Estudo Independente também me fez vibrar, mas em menor tom. A narrativa que fluiu rapidamente no primeiro livro se torna bem cansativa agora, que já conhecemos a história do livro anterior, mas precisamos lidar com as lembranças de uma Malencia que está se descobrindo. Além disso, já conhecemos os artifícios da escritora para nos atrair, o que me afastou um pouco.


 “A desconfiança e a raiva levaram governos a gritar palavras furiosas. Palavras furiosas fazem com que bombas sejam jogadas.
Um mundo destruído.”


Malencia, que me conquistou no primeiro livro (onde ela era uma personagem bem real, cheia de dúvidas, mas com bastante potencial), aparece agora como alguém extremamente inteligente e perspicaz, chamando a atenção para ela e se contradizendo. Ao mesmo tempo em que ela se sente totalmente insegura e tímida, dizendo não saber lidar com as coisas, utiliza palavras como “histriônica” (que eu nem sabia que existia) e [SPOILER BEM GRANDE: tece um maravilhoso parágrafo diante de uma juíza]. Faltou sinceridade na personagem, sabe?

Gosto de falar um pouco de mim quando escrevo sobre um livro ou série porque, antes de tudo, este é um blog pessoal. Mas, dessa vez, sobre esta história, vou ficar devendo. Estudo Independente não me fez refletir como o excelente primeiro livro da trilogia e não permitiu que eu me identificasse com os personagens, infelizmente.

O desenvolvimento da história também é mais devagar e causa menos impacto que no livro anterior. Enquanto estávamos rodeados de mortes e jogos eletrizantes em O Teste, Estudo Independente traz mais teorias, conversas e relações sobre o governo da Comunidade das Nações Unificadas e da direção do Teste.

O segundo livro da trilogia acrescenta pouco à história (poucos personagens novos, poucos acontecimentos relevantes, poucas novidades…) e serve basicamente para introduzir a revolução à história.

 


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a formatura

lido em novembro/14

Acordo às dez da manhã. Perdi um compromisso. Meus ombros doem por causa do modo com que os escorei na cabeceira da cama e na parte de baixo do guarda-roupa ontem, durante boa parte do dia. Minha cabeça ainda não digeriu os acontecimentos das últimas horas – ou últimas páginas. Avancei na madrugada, sempre ficando sem fôlego. Uma prova de obstinação. Um teste físico, examinando se sou resistente à fome, sede e fortes emoções.

 Esta foi minha experiência da leitura de A Formatura. Todas as páginas foram lidas no dia de ontem e na madrugada de hoje.

Até pensei que seria calmo e racional, mas o último livro da trilogia O Teste é intenso demais para ser largado num canto até o próximo dia.


 “Apesar da sua vontade em ver o Teste terminado, acima de tudo ele quer ir pra casa. Esquecer.
Compreendo esse desejo, mas não existe esquecimento para o que vimos e fizemos.
A única maneira de viver com nossas ações é acabar com que as causou. Ou morrer tentando.”


 

Em O Teste, conhecemos um processo seletivo para a universidade que é, acima de tudo, violento. Em Estudo Independente, vemos que os métodos nada sutis de conhecer os candidatos a líderes da Comunidade Unida persistem durante estudos preliminares, estágios e na convivência entre os alunos em suas repúblicas e campus. Entretanto, rebeldes começam a se organizar para acabar com este abusivo sistema. Em A Formatura, a protagonista Malencia começa a investigar cada lado da história do seu país, das colônias e do Teste e precisará tomar uma decisão: defender ou atacar o processo que a permitiu ingressar na Universidade. Desta vez, nenhum personagem irá perder suas memórias, então deverá conviver com suas decisões e acontecimentos brutais para sempre. A vida real nesta sociedade distópica é o teste mais mortal de todos.

Por ter conseguido um estágio com a presidente Collindar, trabalhando em seu gabinete e tendo um relação estreita com ela, Malencia se torna ainda mais fundamental na revolução quando, juntas, as duas começam a entender o plano das facções rebeldes e resolvem arquitetar um projeto para contra-atacar. Porém, o que a líder da Comunidade deseja é algo severo e que vai causar muitas dúvidas em Malencia. Ela realmente faria qualquer coisa para que o sistema acabe?

Para colocar tudo em prática, Malencia precisaria de alguns companheiros, entretanto, o clima de tensão se espalha pelo campus da Universidade (com vigilância redobrada e estudantes armados pelos rebeldes) e a protagonista hesita ao precisar decidir quem devem ser seus aliados, quem realmente merece confiança e quais são os que não poriam o esquema em risco. Sim, uma adolescente precisa decidir os rumos da revolução aqui – não é algo tão tangível mas já foi repetido em diversas distopias adolescentes, né.

E, ao tentar tomar decisões no teste final, Malencia irá conhecer segredos que devem ser guardados de toda a população, mas que poderiam colocar um ponto final na seleção. Um exemplo? Finalmente descobrimos o que acontece com os estudantes Redirecionados e os candidatos do Teste que não passam nos exames!

graduation day

Algo que noto de diferente nesta trilogia são os “respiros” com romance que a autora insere entre alguns capítulos de mais ação. Para mim, soam forçados porque é simplesmente um romance. Em momento algum dos três livros o relacionamento do casal é posto à prova de verdade, com alguma discussão entre eles ou a chegada de um triângulo amoroso. Tomas é simplesmente um apoio para Malencia. Parece que Joelle somente não quis ficar atrás de outras distopias ya e inseriu um amorzinho na sinopse, porque o que ela sabe fazer, de verdade, é desenvolver a ação. E sabe mesmo.

As conspirações, mentiras, reviravoltas, revelações, mortes… Tudo contribui para que a gente não perceba que o tempo está passando e acabe lendo tudo direto, como aconteceu comigo. A maioria absoluta dos capítulos se encerra com um cliffhanger matador, te obrigando a devorar mais um. Fico imaginando o que aconteceria se os capítulos fossem realmente curtos… (A maioria deles tem de 15 a 20 páginas.)


 “Alvos estratégicos.
Término.
Ferramentas.
Plano de ação.
Palavras simples para o derramamento de sangue que elas implicam.”


Outra das coisas legais da Trilogia inteira é a representatividade feminina. Mulheres aqui tem nome e sobrenome, ocupam grandes cargos do Governo e da Universidade, são pessoas que apoiam o Teste e também que ajudam nas revoltas contra o método. São bem diferentes entre si e não deixam nada a dever para os personagens homens. Joelle brilha nesse sentido.

Sobre a sociedade e o Teste em si, só tenho dizer que Joelle consegue implantar questionamentos nos leitores muito bem. Cheguei a me questionar se o Teste é tão ruim assim quando se descobre o panorama completo do país. Afinal, ser severo não é um modo de conseguir selecionar os melhores futuros líderes? As poucas mortes que acontecem no processo não seriam compensadas pelo desenvolvimento tecnológico que se consegue após?

O desfecho é tudo que eu já esperava da trilogia. Não no sentido dos acontecimentos específicos, mas no que diz respeito à qualidade. Joelle Charbonneau me conquistou no primeiro livro, caiu um pouco no segundo volume, mas recuperou a bola e o ritmo num final emocionante e cheio de grandes descobertas e revelações.

Publicada pela parceira Única Editora no Brasil, a série garante boas emoções e surpresas e está recomendada, claro.

 


o teste – estudo independente – a formatura
joelle charboneau – única editora – 320 páginas (cada)
avaliação final: 4 kits de sobrevivência!

única editora é parceira do blog e cedeu os exemplares dos três títulos da série para que essa resenha acontecesse.

André piorou a dor no ombro digitando isso tudo numa cadeira dura.

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