a pequena vendedora de livros

Era véspera de Natal. Um frio terrível castigava a cidade. Contudo, a maior parte dos habitantes não se preocupava com este fato, já que precisavam de fazer suas últimas compras para a celebração. Alguns se arrastavam pelas ruas para comprar um presente para algum conhecido, participante do amigo oculto. Crianças pirraçavam diante de pais envergonhados, na tentativa de ganhar um presente mais caro, mais bonito e mais atrativo, para se exibir para os colegas do condomínio. E haviam aqueles que compravam os últimos ingredientes para as fartas ceias da madrugada: peru, farinha, vinho, frutas cristalizadas…

Diziam que esta troca de presentes dos últimos dias do ano reforçava a amizade e o respeito entre as pessoas. Campanhas por agasalho, comida e artigos de limpeza faziam menção ao amor ao próximo e à solidariedade. Uma época em que o clima muda (e não estamos falando da neve), mas ninguém parecia notar aquela menina tímida, usando um gorro e luvas, encostada na entrada de um grande shopping center, apesar de toda a sua crença no espírito natalino.

Em meio ao frio e, vez ou outra, dependendo do ritmo das luzes piscantes, à escuridão, a garota tentava vender alguns livros usados. De pés nus e vermelhos de frio, a pequena vendedora já havia desistido de ficar em pé ou caminhar (até porque, invisível, sempre recebia algum esbarrão nas avenidas lotadas). Ninguém queria saber de Machado de Assis. Ele não conseguia competir com os smartphones ultra modernos das lojas decoradas, ela sabia. Alguns dos livros já estavam cobertos de flocos de neve quando a menina tossiu pela primeira vez. E, para evitar uma doença pior, arrancou a página de um dos clássicos de capa dura, ateou fogo e se aqueceu.

O mesmo processo foi repetido várias vezes. O cheiro do papel queimado se misturava ao perfume dos assados, vindos das janelas por perto. A barriga reclamava com força, mas a menina não poderia comprar nada com o dinheiro de um único livro vendido. E a noite de Natal caminhava para o fim… Os mais atrasados já estavam chegando em casa e a menina, solitária, permaneceu queimando páginas e páginas para sobreviver, delirando e imaginando mesas lotadas de comidas, lareiras, cômodos quentes e embrulhos embaixo da árvore de Natal.

Sua última visão foi a de uma mulher de braços abertos. Deu um meio sorriso ao reconhecer que aquela era sua mãe, que já não via há muito tempo. Mesmo confusa (afinal, todos diziam ser impossível que ela retornasse, pois havia se transformado em um estrela), a garota correu para aquele abraço. De olhos fechados, ela pensava que estava certa este tempo inteiro: milagres de natal realmente acontecem.

*

Enquanto isso, em um quarto quente e iluminado, um homem reclamava mentalmente sobre o presente de Natal que recebera. Um livro sem suas últimas páginas. Insatisfeito, não conseguiu dormir sem saber se Capitu havia traído ou não seu marido.

 


 

Este conto é uma releitura do clássico “A Pequena Vendedora de Fósforos”, de Hans Christian Andersen, sim.


 

Andre deseja um feliz natal para quem ler essa assinatura.

 

Fotografia do topo por Emilãine.

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