três menos um

Existem pessoas que só conseguem lidar com a lógica e a racionalidade. Só pensam com a ciência, a teoria, a razão. Lúcia, a narradora-protagonista de Resta Um, é uma delas, mas, quando começa a lidar com o desaparecimento de uma filha – uma incógnita que ela não consegue resolver objetivamente – vê cada uma dessas suas ferramentas (ou mais que isso, armas) desaparecer.

O fato de Lúcia ser uma professora universitária no IME-USP, doutora em Matemática, com renome e uma carreira científica e diversos artigos publicados na área, não colabora em nada na resolução desta subtração na sua vida. A única filha, Amélia, pré-adolescente, sai para visitar uma amiga a 50 metros de distância mas não retorna.


“Na cama da minha filha, o edredom rosa-claro bagunçado fazia uma clareira do lado esquerdo, deixando ver o lençol roxo. A blusa do pijama estava no chão, as meias de dormir em cima da cama, uma revista aberta na escrivaninha, perto do perfume de maçã verde, sem tampa.
A sombra que ela havia passado estava lá também, debaixo de uma foto que tinha escapado da tachinha da cortiça (…)
Amélia estava em todos os cantos.
Ainda assim, não houve resposta quando gritei seu nome.”


 

O pai, José, sempre lidou com a filha de uma maneira mais libertária, numa relação mais amigável que paternal, respeitando (até demais) a necessidade que a garota tinha de espaço. Coube à mãe dar limites e fazer o papel de chata – e ficou com ela os maiores desesperos da narrativa: teria sido culpa dela e da maneira mais ríspida de cuidar da filha? Contudo, talvez não tenha sido isso uma fuga. Amélia poderia ter sido vítima de um estuprador ou sequestrador ou atropelamento ou um assassinato por engano ou… ou… ou… ou… O conjunto de hipóteses é infinito. Não dá para ser testado por uma equação.

Mas pode ser resolvido com a chegada de um e-mail, anos depois. Anônimo, ele diz que tem a certeza que pode encontrar a garota e oferece ajuda. É aqui que a narrativa ganha outros contornos e se torna mais eletrizante.


 

“Faz sete anos.
Às vezes, nos dias em que tudo está em ordem, nem trânsito nem contas nem demoras,
consigo imaginar o reencontro.”

elianeas

Quando Lúcia recebe essa mensagem, contudo, o tempo já passou e sua vida e a de seu marido já foram completamente transformadas. Algumas mudanças são mais impactantes que outras – como a depressão, a mudança de emprego e os problemas no casamento – mas os que mais me chamaram a atenção são aqueles menores, que nunca havia pensado sobre quando falamos do assunto. Por exemplo, o hábito que José tinha de comprar sempre três pães para a hora do café permanece por algum tempo, até cair a ficha, até que acontece a aceitação ou o entendimento de que existe um pão sobrando na mesa.

Mas eles seguem em frente aos poucos, calmamente, cada um a seu tempo: o leitor acompanha tudo isso através de capítulos datados, fora de ordem. Uma escolha bastante inteligente da autora, Isabela Noronha, que prova neste livro de estreia que sabe contar uma história, capturar a atenção, criar personagens tangíveis, humanos, e emocionar.


 

“X é a raiz, aquilo que justifica o restante, a ordem da vida, a resposta para as perguntas “Por que eu?”, “Por que agora?”.
Desvendá-lo é chegar à explicação necessária, porque só entendendo se digere e só digerindo é possível seguir em frente.”


 

Mas, quando terminei a leitura e refiz as contas, haviam personagens sobrando, cenas demais, perguntas sem resposta. As contas e datas não batem, você se confunde, precisa refletir sobre o que leu. Esse fator pode incomodar bastante gente (tanto que a avaliação do livro no Skoob é apenas mediana), porém não consigo não gostar de livros que não se fecham sozinhos e precisam da ajuda e da percepção do leitor sobre a história.

Resta Um tem uma premissa de thriller e suspense, mas vai além e evoca os sentimentos do leitor, numa narrativa tensa e forte. Uma leitura impactante sobre a fragilidade humana, que nem sempre pode ser compreendida com cálculos, sistemas e constantes.


 

Eliane-Brum-A-Vida-Que-Ninguem-Ve-Caparesta um – isabela noronha – companhia das letras – 304 páginas

em 140 caracteres… um livro tenso onde o desaparecimento e o suspense é só uma parte da história.
um livro para… reler assim que der, refazendo as contas, observando as datas e reanalisando algumas teorias.
combina com… um final de semana livre, para correr atrás de Amélia e dos outros personagens completamente.

 

Andre não pratica jardinagem.

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