aqui termina a jornada dos pássaros

Um caderno secreto. Escondida, Evangeline escreve em seu diário com a intenção de, um dia, publicar seus pensamentos e impressões sobre Kashgar por uma editora. Esta é sua real motivação para viajar com a irmã Elizabeth e a líder cristã Millicent em uma viagem missionária: ser a primeira mulher inglesa a conhecer a Rota da Seda, lá em 1923. Ela não está interessada na conversão do povo do Oriente ao Cristianismo e duvida (ou está certa que não crê) da própria fé, inclusive.

Uma herança improvável. Enquanto isso nos dias atuais, Frieda recebe um comunicado de que é a parente mais próxima da recém-falecida Irena Guy, uma mulher que ela não conhece nem menos pelo nome, jamais mencionado em sua casa. Por não ter um parentesco claro para a Justiça, Frieda não recebe seus bens como herança, mas tem o direito de desocupar o apartamento da desconhecida e retirar todos os objetos que queira guardar. Mesmo receosa, Frieda decide ir ao endereço que recebeu, para investigar mais sobre quem era essa mulher e qual a ligação das duas, encontrando um local cheio de objetos antigos e histórias nebulosas sobre o passado da estranha.

Estas são as narrativas paralelas narradas por Suzanne Joinson em Guia de uma Ciclista em Kashgar, uma das leituras mais imersivas do meu ano.


 

“…Frieda descobriu que era possível fugir em uma bicicleta.
Pedalar com rodas velozes,
movimentar-se depressa,
manter-se em movimento,
ir, ir, ir até estar longe o bastante.
…Continuar pedalando, pedalando para longe.
Se você pedalar rápido o bastante, você voa.”


 

Uma das coisas mais interessantes do livro é o choque de culturas. Logo que chegam a este lugar desconhecido, as amigas MillicentLizzie Eva, em 1923, se encontram sem querer com uma mulher em trabalho de parto e são acusadas de bruxaria ao cortar o cordão umbilical da criança e condenadas a prisão domiciliar. O que deveria ser visto como solidariedade ou compaixão (em outras regiões ou outras épocas) acaba sendo visto como um atentado à vontade de Deus, pois a mulher foi “destinada” a ter o filho em uma estrada deserta, sem estrutura.

Este encontro de mundos também acontece na narrativa dos dias atuais, com a relação de Frieda e deTayeb, um iemenita que está sendo procurado pela justiça e acaba passando a noite na escadaria do prédio da moça. Ao acordar, ela não encontra o rapaz, mas um desenho em sua parede, acompanhado de uma frase escrita em árabe. Entretanto, os dois se reencontram de maneira improvável e partem juntos numa jornada pela libertação de Frieda (em torno de si mesma e do seu passado) e pela liberdade de Tayeb (em torno da justiça e de seus “crimes”). Uma jornada com ideais parecidos com a de Eva.

Entretanto, a ligação entre as duas histórias está longe de ser tão superficial assim. Durante a narrativa, após a descoberta do apartamento de Irena Guy, vamos percebendo que vários objetos que compõem este cenário na Inglaterra, em tempos atuais, se repetem quando no Oriente, no século passado. Como isso poderia acontecer? A surpresa, para mim, não foi tão grande, pois a narrativa de Suzanne Joinson realmente caminhava para aquilo, mas a decisão da autora é sensata e coerente.


 

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Mesmo que ocorra divergência de pensamentos entre os personagens e os leitores sobre as culturas expostas, o que não se pode negar é a capacidade de Suzanne Joinson de criar todos os cenários e acontecimentos na nossa cabeça.

Guia de uma Ciclista em Kashgar é um livro denso, cheio de descrições que podem soar desnecessárias. Contudo, para mim, são parte de um estilo de escrita único, com um peso dramático essencial para tudo que acontece na história.

O desenrolar de tudo, principalmente na trama antiga, é trágico e, por que não dizer, triste. As palavras utilizadas pela autora também colaboram para que haja ainda mais comoção, mesmos com sentimentos expostos sutilmente. As descrições são profundas e o desfecho tem lucidez e verossimilhança tremendas. Uma obra primorosa que fala do destino de uma forma sensível e emocionante.


 

tumblr_inline_nshd64btGT1rzaxsl_540guia de uma ciclista em kashgar – suzanne joinson – intrínseca – 272 páginas

em 140 caracteres…
um livro sobre caminhos, mulheres e culturas.
um livro para… sentir o clima de diferentes lugares, cenários e paisagens!
combina com… mapas, penas e guias de turismo!

Andre quer manter-se em movimento.

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