a solidão dos números primos

Por aqui, uma das propostas não é simplesmente soltar informações sobre um livro qualquer que tenha lido, caso não tenham percebido. O grande lance do andrecefalia é falar sobre o valor da experiência e do que eu passei, pensei e me identifiquei durante a leitura. Mas é extremamente difícil falar sobre identificação quando um livro apresenta situações que nunca vivi (e ainda mais difícil falar sobre identificação quando um livro apresenta situações com as quais convivo). Fato é que A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano, foi uma das leituras mais estranhas que já fiz, com toda a certeza. Não reconheci em mim nada do que os personagens passaram, ao mesmo tempo em que era muito parecido com cada um deles.

Alice nunca gostou de esquiar, mas era obrigada pelo pai a praticar este esporte. Até que, em um dia de neve como outro qualquer, a garota sofre um acidente durante um dos treinos e fica com sequelas, manca de uma das pernas. Para ela, isto é culpa do pai que nunca respeitou suas vontades. Ela, então, se transforma numa adolescente (e mulher) insegura em relação ao próprio corpo, se esforçando para ser bem aceita e desenvolve anorexia.

Mattia tem uma irmã gêmea, Michella, mas eles sempre foram muito distantes, no que diz respeito às suas características. Ela sempre foi considerada retardada pelos coleguinhas de uma escola normal, por causa de sua deficiência mental. Ele, entretanto, é um pequeno gênio, principalmente em exatas. O garoto nunca é convidado para festas dos amiguinhos porque nenhum deles deseja conviver com Michella, exceto uma vez. E na tentativa de fazer uma boa imagem em seu primeiro convite recebido, abandona a irmã numa praça e carrega a culpa do desaparecimento da irmã para sempre.


“Porque Alice e Mattia estavam unidos por um fio elástico e invisível,
encoberto por um monte de coisas sem importância,
um fio que podia existir apenas entre pessoas como eles:
dois que reconhecem a própria solidão: um no outro.”


Mattia conhece Alice durante a adolescência, quando ela, no meio de tantos hormônios e sensações, acaba tentando se envolver com ele, forçada por uma amiga que a colocaria no espaço popular do colégio. Ele logo percebe que a menina também é diferente, é como ele. Marcada por algo trágico, com o desejo de autodestruição, sempre tentando escapar da vida de alguma forma.
O livro acompanha a vida de Mattia e Alice durante algumas passagens de tempo e apresenta cenas desconexas quando isoladas. Infância, adolescência e vida adulta. Começamos os capítulos sempre com uma curiosidade na cabeça, porque a temática nunca é abordada diretamente. São feitas relações com a matemática, a fotografia, a solidão. Comparações muito bem inseridas e que nos fazem refletir sobre como convivemos com aquilo que a gente carrega e nada pode mudar.

“Viviam a lenta e invisível compenetração de seus próprios universos,
como dois astros que gravitam em torno de um eixo comum,
em órbitas cada vez mais estreitas,
cujo destino claro é o de se unir
em qualquer ponto do espaço e do tempo.”


As situações ilustradas em A Solidão dos Números Primos são bem pesadas, o que deixa o exercício da identificação difícil ou confuso. Não conheço ninguém que passou por problemas tão densos como os representados por Paolo Giordano, mas não é necessário que eu tenha visto certas situações de perto para entender a dor que aquilo causa, até porque a escrita do autor é bem crítica e sincera. Crua, por assim dizer. O que esta história nos incentiva, então, é a pensar empaticamente. Colocar-se no lugar do outro e tentar fazer algo, mesmo que não seja grandioso demais ou a resolução definitiva.

Entretanto, sabemos, que cada um tem sua tragédia pessoal. Todos nos sentimos culpados por alguma coisa que dizemos ou fizemos ou deixamos de fazer. A gente pode fingir que esqueceu, mas nosso passado não esquece. A Solidão dos Números Primos é sobre eu e você no lugar de Mattia, Alice ou qualquer outro número sem gêmeo, sempre deslocados ou com uma pontinha de solidão e melancolia. É sobre sermos assim, assustadoramente humanos.


 

A Solidao dos Numeros Primos.jpga solidão dos números primos – paolo giordano – editora rocco – 288 páginas

em 140 caracteres… situações, personagens e tramas desconfortáveis e inquietantes.
um livro para… sentir empatia, mesmo sem se enxergar nas criações do autor.
combina com… desagrado e tempo frio.

 

Andre é assustadoramente humano.

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Um pensamento sobre “a solidão dos números primos

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