aos 7, aos 40

“A hora, enfim, chegara,
depois de muitos dias se despejarem em outros,
misturando memórias frescas com antigas,
no ritmo natural das coisas vivas,
tão natural que ocultava a certeza de que,
a qualquer hora,
poderia cessar, subitamente.”


 

Aos 7 anos de idade, em dias normais, acordava pouco depois das 8 da manhã. Tomava leite com achocolatado enquanto minha mãe anotava as receitas do programa da Ana Maria Braga. Ficava esperando ansioso pelo Sítio do Pica-pau Amarelo que começava logo depois e emendava no programa da Xuxa (ficava fascinado com a ilha feita de livros que aparecia na abertura), todas as manhãs. Almoçava mais tarde, usando a mesa de centro da sala como apoio para o prato e com os olhos em algum desenho animado japonês. Meio-dia era hora do banho e, depois de arrumar os cadernos numa mochila colorida (cada parte era feita em uma cor de tecido), seguia para a escola, a pé, onde ficava mais de vinte minutos esperando que o portão abrisse, conversando com alguns amigos. Dentro da escola, uma professora bem magra, que encontro de vez em quando na padaria perto da minha casa, ensinava contas básicas e encontros de vogais de consoantes. Em casa, novamente, imaginava diferentes personagens, cenários e paisagens: às vezes, construía tudo com blocos de madeira; em outras, usava cadernos e lápis de cor. Jantava algo que meu pai cozinhava e ia para a cama, onde meu maior prazer era ser coberto com um lençol gelado.

 

Aos 40,
__não consegue se imaginar bem,
__mas deve estar com
__alguns fios brancos na barba,
__o cabelo começando a cair,
__um emprego estável,
_____e, provavelmente, sem graça,
__uma esposa,
__talvez filhos,
__nenhum animal de estimação,
__lembranças de como era
_____aos 7
_____e aos 19.


 

Esse é (uma tentativa de reproduzir) o formato da narrativa de João Anzanello Carrascoza, no livro “Aos 7 e aos 40”. Publicado pela Cosac Naify, tem uma diagramação interessante e que completa a narrativa. A história, como o título explica, mostra a infância e a meia-idade de um mesmo personagem. Sem muitas reviravoltas ou surpresas, a obra se trata do resgate de lembranças do protagonista, em páginas divididas em duas cores: verde e cinza.

Enquanto criança (como no texto que tentei representar acima), o protagonista conta do passarinho que roubou do vizinho, do primeiro amor e de algumas partidas de futebol. Vivo, todo o texto da infância é escrito na metade verde do livro e em parágrafos justificados. Poucos pontos e muitas vírgulas. O garoto tem sede de viver, é animado e narra sua própria história.

Adulto, o homem (o nome não é revelado pelo autor) já está cansado, sente as costas e deixa sua vida ser narrada por uma terceira pessoa, que não é explicitada, no papel cinza, que ressalta um caráter mais pálido no cotidiano. O clima de rotina, sem muitas novidades, se instaura e a escrita fica mais arrastada. As frases não ocupam todo o espaço disponível, já que o homem de 40 sente profunda falta do filho, que mora somente com a mãe.

Outro ponto interessante da construção do texto é os títulos dados aos capítulos. Trazendo ideias opostas, aqueles em que a criança é apresentada tem nomes como Depressa, Dia e Leitura. Nos capítulos dos 40, Devagar, Noite e Escritura.


“(…)
tudo no caminho é para ficar lá atrás,
as pessoas carregam só aquilo que deixam de ser,
o presente é feito de todas as ausências.”


 

Aos 7 e aos 40 tem 160 páginas, mas que poderiam ser reduzidas à metade, já que existem muitos espaços deixados por esta escolha de diagramação. Logo, é possível terminar a leitura rapidamente, em uma só parada.  Ainda mais por contar com uma escrita delicada e cuidadosa, conferindo mais agilidade.

Mesmo com a velocidade, é possível refletir sobre as passagens deixadas pelo escritor, principalmente na fase adulta. Tudo parece seguir paralelamente (como o projeto gráfico incentiva o leitor a pensar), mas são várias as conexões e pontos de intersecção. Vamos, aos poucos, conhecendo a infância e ficamos curiosos em como isso irá se espelhar no futuro, montando uma dança calma entre os dois tempos. Enxergamos uma influência direta de pequenas decisões do menino na vida do homem e a vontade (ou o ato) de esquecer algumas cenas passadas para reconstruir o que tem.

De início, o romance de estreia de João Anzanello Carrascoza me lembrou Mãos de Cavalo, de Daniel Galera. Todavia, a trama do gaúcho é mais dura e violenta, enquanto a do paulista evoca algo mais singelo e melancólico. Um livro um tanto poético. Com tanta suavidade! Tantos aos 7 quanto aos 40.


download (1)aos 7 e aos 40 – joão anzanello carrascoza – cosac naify – 160 páginas

em 140 caracteres… uma história comum, mas que transmite muito bem as mudanças que o tempo provoca.
um livro para… sentir o peso da passagem das horas.
combina com… brincadeira de criança e responsabilidade de adulto.

Andre sente saudade dos 7 e angústia pelos 40.

 

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