os argentinos se reproduzem por osmose

Dias desses (acho que foi ontem, mas não tenho tanta noção do tempo), comentava com uma amiga de uma mulher que deve estar chegando aos 30 anos, mas que faz comentários de livros adolescentes e jovens-adultos lidos em seu Kindle em seu canal no YouTube, enchia o que falava de gírias e expressões em inglês. Gosh! Really? Awesome! So creepy! Shame on me! Yeah! Claro, sempre ditas com entonações dignas de humorísticos de sábado a noite.

Também tenho uma amiga que sempre cita pessoas famosas. Ela é maníaca por citações. Não sei como ela consegue guardar tantas referências, mas, qualquer que seja o assunto discutido na mesa, sempre aparece com versos de algum poeta brasileiro, pensamentos de filósofos, frases de poetas do Tumblr… “Como falava Fernando Pessoa…” ou “Igual ao Caio F. Abreu…” ou “Já dizia Picasso…” e outras sentenças do tipo.

A literatura, que é a arte que mais produzo e desfruto, também me guia em várias momentos. Desde que eu tenha uma ideia de romance, conto ou qualquer tipo de ficção, não é possível deitar na cama sem imaginar as vozes dos personagens dentro de mim, criar diálogos imaginários, e (segredo, não conta pra ninguém), gesticular na frente do espelho, como se fosse cada um deles, e poder melhorar as descrições. Um pouco de cada uma das cenas que crio ficam dentro de mim.

Essas relações fortes que temos com a arte (mais especificamente com a literatura) é o que guia boa parte do livro Cordilheira, de Daniel Galera. No livro, Anita, alguns anos depois de ter escrito seu único romance, é convidada para lançar a tradução argentina da obra num evento em Buenos Aires, onde conhece JoséHolden, um misterioso fã argentino que despertará a curiosidade (e paixão) na brasileira.


“Como eu podia ter me privado por tanto tempo
do sabor das decisões drásticas,
do prazer de derrubar uma pecinha de dominó
e mudar tudo de forma irreversível?”


Anita, a protagonista, é cercada por acontecimentos trágicos e são eles que incentivam a moça a se aventurar em um país desconhecido, sem lugar para ficar, sem muito dinheiro e sem data marcada para retornar ao país de origem. A jovem nunca respirou o mesmo ar que a mãe, que morreu no parto, e perdeu o pai há alguns anos, em um acidente de carro. Do grupo de quatro amigas, uma está morando longe e as outras duas tentaram se matar (uma delas consegue). Nos lugares que frequenta, ninguém parece entender o desejo dela em engravidar (“Mas tão nova? Por que não espera até os trinta?”) e Anita nem precisa que todos entendem: se Danilo, seu namorado (com quem divide um apartamento), entendesse já seria o bastante. Cansada de esperar que ele o faça, resolve se separar e aceita o convite de participar de atividades em Buenos Aires.

Na Argentina, Anita se sente deslocada, a princípio, mas acaba conhecendo um grande admirador de seu livro, em uma entrevista coletiva, que a convida para sair qualquer dia desses. Mas no domingo não. Domingo é dia de encontrar um grupo de amigos intelectuais e conversar com eles sobre literatura, política e outros assuntos que mereçam ser discutidos. Aos poucos, Anita vai sendo inserida por Holden entre estas pessoas de hábitos estranhos e caricatos (uma mulher que só fica com senhores de idade; um cadeirante que se arrasta pela cidade grudado em traseiras de carros; um cara que, independente da situação, está com a cara fechada…) e descobrindo a verdade por trás daquelas ações, a verdadeira face do seu novo namorado e quais os planos que ele tem para ela.

Já havia lido outro livro de Daniel Galera, Mãos de Cavalo, e, em termos de estrutura da história, Cordilheira é bem parecido. O primeiro cria um certo suspense no desenvolvimento por ser narrado em vários tempos diferentes e este provoca tensão quando termina o capítulo com um cliffhanger e inicia o próximo com um novo assunto (que vai guiando a história até retornar ao ponto onde parou anteriormente). Parágrafos enormes, diálogos indiretos e divagações sobre a vida, o universo e tudo mais o medo de andar no caminho errado ou não estar fazendo o que é certo também são semelhanças.


“Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida
é construir uma ficção muito pessoal.
Dar sentido ao mundo é um ato criativo.
Uma visão de mundo é uma narrativa.”


 

Os limites entre a ficção e a realidade também são debatidos no livro, que ganhou o prêmio de Melhor Romance da Fundação Biblioteca Nacional, em 2008. Todo escritor coloca um pouco de si naquilo que inventa? Os traumas dos personagens são frutos dos nossos traumas? Inserimos aquilo que desejamos ser nas pessoas que criamos nas páginas? A ficção realmente imita a realidade?

A escrita de Daniel Galera é bastante densa e difícil de ser digerida (apesar de não exigir um vocabulário extenso e nem ser bastante rebuscada). Isso, por si só, já é algo que diminui o ritmo de leitura. Comigo, porém, ainda rolou uma certa distância da narrativa contada. A grande quantidade de ruas, esquinas e endereços de Buenos Aires citadas (o autor foi levado para escrever o romance na cidade) afasta quem não conhece os locais, em vez de criar mais familiaridade. Da mesma forma, Anita (que tem sua voz criada brilhantemente em primeira pessoa) me pareceu um pé no saco: sua vontade obsessão em ser mãe dá um tom chato para algumas passagens, a relação dela com Holden não é nada tangível e sua viagem para Buenos Aires (que, na minha opinião, traria mais pertubações e marcas) a **cura** magicamente. Também temos o grupo de amigos que, apesar de gerar boas reflexões, não recebem o destaque merecido e tem um desfecho insosso.

Cordilheira é um romance que, apesar das boas ideias (mistura de gêneros textuais, os personagens estranhos e a viagem em busca de algo que está dentro de si mesmo) e de estar lotado de passagens interessantes (as discussões filosóficas sobre a distância entre o criador e suas criaturas, a influência do “destino” na vida das pessoas, a crise dos vinte e poucos…), não me empolgou. Não é de todo ruim, mas poderia ter sido melhor explorado em vários pontos.

 


cordilheiracordilheira – daniel galera – companhia das letras – 176 páginas

em 140 caracteres… o que acontece quando a literatura é vivida com o corpo e a alma, nas últimas medidas.
um livro para… pensar sobre a influência da ficção nas nossas decisões.
combina com… viagens sem programação e mudanças bruscas de caminho.

 

Andre não sabe dançar tango.

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