à luz desse farol da solidão

E nem de longe  gente pode disfarçar o que há por trás da pele… Me peguei cantando a letra de Farol ou sussurrando as notas de Sutjeska várias vezes durante a leitura desse livro. As semelhanças entre os fatos são muitos. A letra da primeira canção da gaúcha Fresno realmente lembra a história deste livro da gaúcha Leticia. (ouça aqui)

Um lampejo que guia, mas também cega. Procurar uma razão para viver. Navegar até o mundo se dobrar. Sumir no horizonte. Voltar quando o vento fizer voltar, guiado pelas estrelas. Claro, também não há como disfarçar o que há por trás da pele: a tragédia que habita na genética desta família sentenciado a muito tempo atrás a uma solidão de morte, mesmo que na companhia de outras pessoas.


 

Farol 2

À contragosto de sua mãe, a quem todos chamam Doña, Ivan passa a se relacionar com Cecília, uma garota simples, também moradora da ilha de La Duiva. Porém, a mãe é acometida por uma doença gravíssima e, para não ficar sozinha em sua casa, aceita que os dois morem junto a ela. E, depois de cuspir sangue em sopas e acabar espalhando a doença para Ernest, um empregado negro e culto que ela detestava, a viúva morre.

Os anos passam e o casal tem seis filhos que carregam no sangue todo o passado trágico da família Godoy, além de talentos e características especiais, fazendo deles uma família instigante e que merece ter a história contada. O mais velho é Lucas, que desde cedo seguiu os passos do pai e se apaixonou pelo mar e o farol, sempre quieto e reservado. Depois, veio Julietaque, após um acidente no parto e perder oxigênio no cérebro, acabou tendo sequelas para toda a vida, sempre estática e cheia de dependências. Orfeu, o mais bonito e gentil dos Godoy, dono de uma luz própria (como o farol que era responsabilidade da família), era o apaixonado pelos desenhos, sua fonte de expressão, e sempre foi corajosamente curioso. As gêmeas Eva e Flora vieram depois. A primeira era ruiva, sedutora e emitia sussurros, suspiros e olhares para os marinheiros que apareciam na ilha. Flora, porém, sempre fora das palavras. Dona de um talento para a escrita, cuidou de narrar cada desventura de seus familiares em seu livro, que acabou atraindo o europeu Julius Templeman para a ilha e colocou o destino dele junto ao de cada um dos outros. Por fim, Tiberius,  amante das estrelas e astros e conhecedor de cada constelação. O caçula recebera o dom de prever o futuro, dando de cara com premonições em meio a seus sonhos e terrores noturnos.

Cecília, então, decide tecer uma tapeçaria rica em detalhes, pontos e elegendo cores diferentes para cada pessoa que passou por essa história, a fim de cobrir toda a escadaria do farol de La Duiva. No meio de cada laçada, conhecemos vários pontos de vistas, por vezes desconectados ou divergentes, mas que criam uma história que, apesar de várias tristezas contidas, exala poesia e força.


 

Assim como Flora, está claro que Letícia nasceu para as palavras. É talento, dom, presente de um deus. Chame como quiser a capacidade de narrar uma história cheia de inusitados acontecimentos sob pontos de vista de vários personagens com pouquíssimas coisas em comum: uma escritora, uma deficiente mental, um homem rude, uma matriarca sonhadora, um garoto com conhecimentos do futuro… Ver o mesmo acontecimento várias vezes me desanimou em Morte Súbita, mas me deixou ainda mais instigado em Sal, porque a autora utiliza vários recursos para nos prender: anotações sobre os personagens entre os capítulos, cartas, poemas, escrita poética, capítulos curtos… Fora os diferentes tipos humanos que ela inventou, nos deixando ainda mais ligado nas mudanças de cores.


 

“Chovia copiosamente desde a tarde do dia anterior,
como se o céu chorasse.
A chuva, como tudo o mais,
era uma sensação vaga,
realidade facilmente esquecível enquanto eu estava envolvida no transe da minha narrativa.
Assim,
quando coloquei um ponto final no livro,
foi como se me tivessem roubado o guarda-chuva.”


Farol 1

A paixão de Flora por escrever rendeu bons pensamentos, daqueles para marcar em um post-it e prender no mural de inspirações. É lindo ver uma jovem se deliciar com o sumo das palavras que descobre e, brincando com elas, escrever O Livro. Outra personagem que me conquistou foi Julieta, da cor sépia. A mente repetitiva e a visão de mundo de uma mulher que será criança para sempre foram muito bem retratados por Letícia. Tiberius, o amarelo, narra sozinho a segunda parte da história e, contrariando meu pensamento ao perceber isto, não foi cansativo ou arrastado demais, apesar de ter repetido um pouco o que já havíamos visto algumas vezes na Parte 1.

Sal não foi uma leitura rápida, de modo algum. Do dia em que recebi e comecei a ler o livro até a data em que terminei a obra, passaram-se quase duas semanas. Não vejo isto como um defeito, mas a narrativa densa se refletiu neste tempo. Já adianto que sentia a necessidade de me afastar do livro às vezes, ou procurar pelas referências mitológicas no Google: Órion,Orfeu, Tiberius, Teseu, argonautas… Isso pode incomodar alguns, mas aproveitar uma leitura no seu tempo correto foi um prazer.


 

Cheio de licenças poéticas, perspectivas diferentes e misturando realidade e fantasia, Sal é um livro intenso e que mostra como nunca poderemos nos disfarçar de outra pessoa e viver um outro destino. A gente acaba voltando para o nosso estado original, reafirmando, mesmo que sem querer, nossa essência. Um livro que mostra o poder das palavras e nos leva para viajar(para La Duiva, para o Rio de Janeiro, Europa, África…) com cada uma delas. Um história refinada, para ser lida com calma e atenção, sem pressa.


 

SAL_1372431985Psal – leticia wierzchowski – intrínseca – 240 páginas
em 140 caracteres… uma trama familiar tão intrincada quanto as melhores tapeçarias!
um livro para… ler com cuidado e calma, prestando atenção em cada palavra tirada da coleção da escritora.
combina com… novelos de linha colorida e histórias de avó!
para quem já leu… o mais recente lançamento de leticia, “navegue a lágrima”, segue numa linha poética parecida. pode ser uma boa!

* As fotos desta postagem retratam o Farol da Solidão, no Rio Grande do Sul, e foram tiradas por Matheus Vieira, durante a gravação do clipe de Sutjeska/Farol para a Fresno. Assista aqui.
* Apesar disso, a ilha e o farol de La Duiva, cenários de Sal, foram inspirados no litoral silencioso do Uruguai.

 

Andre não saberia escolher uma cor para si.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s