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À princípio, o cotidiano de Elsie se parece com o de uma adolescente qualquer: troca de confidências com uma amiga, umas tentativas de flertes com o sexo masculino, uma vontade de ter mais liberdade, a sensação de sufoco e busca por mais espaço… Contudo, um pequeno detalhe a diferencia: Elsie é uma vaca – jovem, esbelta e moderninha, mas uma vaca.

Essa protagonista sempre se incomodou com o desaparecimento repentino de sua mãe (e diversas outras mães-vacas da sua fazenda) mas nunca foi muito a fundo neste tema, já que este fim parece inevitável, mesmo que sem muitas explicações. Porém, com a juventude aflorando, a inquietude e a busca de romper as barreiras das gerações anteriores aumenta e acaba conseguindo respostas que nunca imaginou, se deparando com a crueldade humana.


 

“Sei que os humanos consideram um insulto grave ser chamados de animais.
Bem, eu nunca daria a um humano a honra de ser chamado de animal
porque os animais podem até matar para viver mas não vivem para matar.”


 

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Elsie acaba esbarrando em um desses documentários  sobre fazendas industriais, panfletos do modo de vida vegetariano ou vegano. Desesperada (e ligando os assassinatos de vacas na televisão ao sumiço repentino da mãe) ela acredita ter visto o seu destino na sua frente e procura mudá-lo. A decisão que toma para transformar seu futuro é uma viagem para a Índia, onde vacas são sagradas.

 

Com uma narradora bastante espirituosa, uma boa motivação e alguns questionamentos sobre nossos hábitos alimentares, David Duchovny cria um romance de formação fresco, original. Uma jornada cômica em busca de um lugar seguro, mas com uma boa dose de amadurecimento pelo caminho. Ele também acerta quando, ao mudar os padrões desse gênero literário, reflete sobre o mercado editorial atual – falando sobre adaptações de livros para o cinema e os autores que seguem modelos extremamente comerciais.

O autor se perde, contudo, quando adiciona um porco e um peru no texto, personagens secundários com justificativas meio perdidas. Enquanto eles acompanham a protagonista, aparecem comentários sobre como as diferentes culturas e religiões veem o consumo de carne e se relacionam com os animais. Contudo, os três personagens tem motivos bem distintos para fazer fugir da fazenda e acabam somente atrapalhando Elsie a concluir sua viagem para a Índia, transformando a história em algo confuso e imprevisível de uma maneira negativa. Tudo fica meio perdido.


 

“Não se pode simplesmente usar os elos da cadeia alimentar no pescoço
como se fosse uma corrente ou um balangandã.
Você faz parte disso e,
se continuar tratando o assunto com desdém,
esta corrente vai estrangulá-la.”


Os comentários de Elsie sobre a produção em massa de carne mostram que os modelos atuais de consumo de proteína animal são furados e cruéis. Além disso, os agrotóxicos utilizados em vegetais empobrecem os solos e os hormônios e antibióticos utilizados em vacas, galinhas, porcos e outros animais acabam favorecendo mutações de vírus e bactérias, dificultando a resolução de transmissões ou até mesmo retornando com doenças já erradicadas.

Apesar de deixar bem clara sua posição, David Duchovny não cai num incentivo desmedido ao vegetarianismo ou ao veganismo – é válido entender que a produção de vegetais e carnes orgânicos dificultariam a distribuição de alimento para boa parte do mundo, que não tem condições totalmente apropriadas para a agricultura ou a pecuária.

Holy Cow: Uma Fábula Animal é um livro mediano, mas válido. A história te prende, é rápida e divertida. Entretém e ainda traz algumas reflexões bem fortes e necessárias – questões bem atuais sobre o nosso poder de escolha e como afetamos teias e cadeias alimentares. Cabe ao leitor decidir de qual maneira ele se sente mais confortável para lidar com isto.


 

9788501106889.-233x350holy cow: uma fábula animal – david duchovny – editora record – 208 páginas

em 140 caracteres… um romance de formação narrado por uma vaca.
um livro para… refletir sobre como consumimos carnes e vegetais e influenciamos na natureza.
combina com… alfafa, ecumenismo e vegetarianismo.

 

Andre está com suas tendências vegetarianas ainda mais afloradas agora.

 

* imagem do topo do projeto “vacas e carros indianos”, de Patrik Gunnar Helin.
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