o autor deste livro ficou louco

Quando Marcelino Freire afirma na quarta capa de Arco de Virar Réu que Antonio Cestaro “ficou louco”, ele provavelmente falava do quão diferente é a experiência que ele traz aqui – tanto por termos um livro convincente quanto por ser um formato ousado para um romance de estreia. Uma narrativa labiríntica, mas bastante sutil, que tenta reproduzir a cabeça de um personagem que conviveu com doenças mentais desde a infância.

Primeiro, foi o irmão, diagnosticado com esquizofrenia após uma série de surtos e delírios onde se imaginava em conflitos militares. Historiador, o protagonista (que apenas assina o texto como J. Bristol) foca seus estudos em tribos indígenas e acaba reconhecendo semelhanças entre os rituais destas com as falas desconexas do irmão. Cada vez mais imerso nessas duas realidades, elas se cruzam em sua cabeça e assim se inicia a fragmentação da sua mente. Tentando entender o irmão, o narrador fica perdido dentro da própria mente.


 

“Estaria eu perdendo o senso crítico, que era uma marca forte da minha personalidade,
ou a expressão da flexibilidade, da tolerância e da passividade estavam afrouxando as convicções que eu havia colecionado ao longo da vida?”


 

Quando a gente passa a lidar com um narrador assim, passamos a lidar também com diversas incertezas em torno da narrativa. Não é possível confiar nas palavras de alguém que não sabe em que tempo vive, adiciona cenas e conflitos surreais ao texto, que é constantemente tomado por pesadelos e tem tantas digressões e delírios.

O espelho, inclusive, acaba sendo uma ferramenta muito interessante na vida do personagem, que, de certa maneira, também duvida do que diz e do que pensa. O que ele consegue ver ali, acredita, é a representação mais pura da realidade e ganha destaque. Porém, em consequência disso, algumas informações são subtraídas. O tamanho curto do livro pode ser justificado não somente pela concisão do narrador, mas também pela quantidade de lacunas deixadas por ele.


 

“Não há cura possível para as doenças da alma, o remédio definitivo cabe à serventia da morte, com a sua eficiência antisséptica, que elimina, seca, anula, aborta, extingue, recicla e devolve ao planeta apenas uma pequena porção de matéria orgânica que se funde ao solo para fazer brotar de jequitibás a ervas daninhas.

As ambições, os quereres, as dores, os medos, os planos suicidas evaporam e caem em gotas num oceano de suavidade onde cedem mansamente os seus significados.

E nessa espiral eterna a morte é segura, confiável, resolutiva – um precioso recurso.”


 

O tom lírico (ou seria onírico?) da história, porém, agrada. A loucura do narrador é representada principalmente por um desprendimento com a linguagem acertada e a descrição exata do que está acontecendo. Os registros, principalmente aqueles que são explicitados como delírios, são poéticos, de caráter subjetivo, mais livres.

Arco de virar réu é um livro sem um grande clímax ou pontos de virada, mas que instiga e cativa o leitor, curioso para virar a próxima página e entender melhor a cabeça do personagem principal – ou se perder junto dele.


 

arcoarco de virar réu – antonio cestaro – editora tordesilhas – 152 páginas

em 140 caracteres… uma narrativa labiríntica sobre perder-se dentro da própria cabeça.
um livro para… se impressionar com as sutilezas do autor na hora de encarnar a loucura do narrador.
combina com… cuidado, atenção e reflexão!

 

Este livro foi enviado como cortesia pela agência Oasys Cultural para que esta resenha acontecesse (independente disso, o texto reflete a opinião do autor).

Andre não duvida do que vê no espelho.

 

 

(imagem do topo por Mello Menezes e Samuel Casal)

 

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