a arte de perder

“The art of losing isn’t hard to master.”
– Elizabeth Bishop

Mais do que uma mudança de país, o que guia as narrativas de Edney Silvestre em Vidas Provisórias é a perda. Nos dois focos, nas duas histórias, nos dois livros que se alternam e compõem este mesmo romance, temos duas pessoas que deixaram o Brasil por diferentes motivos, mas que vão passar pelos mesmos problemas em algum momento: o esquecimento (proposital ou não) da sua vida antiga, o estranhamento provocado pela nova cultura e pelo novo idioma e o sentimento de que não pertence à nova nação.

Paulo, depois de passar pelo Chile, chega à Suécia para tentar construir uma vida nova do zero. Contudo, o fato de não ter mais documentos, contato com familiares e amigos ou nenhum pertence é bem pequeno diante da única coisa que carrega: as cicatrizes do que viveu na época da ditadura militar. Perseguido e torturado, as marcas ficaram não somente no corpo mas também o assombrando em pensamento.


“Há aqueles que não suportam as sessões de tortura e se matam na prisão. E há aqueles a quem a memória da dor continua atormentando e esmagando por dias, semanas, meses, anos depois. (…)
Este é o grande poder dos torturadores.
A dor não passa. O domínio deles continua.”


Enquanto Paulo tenta esquecer seu passado, o que incomoda Barbara é seu presente. Ainda adolescente, ela se muda para os Estados Unidos ilegalmente, apenas para fugir das pessoas que atacaram seu pai, enganada pelo sentimento de vida fácil na América, no governo Collor. Sem perspectivas além de pagar a documentação falsa que precisou para entrar no novo país, ela passa os dias fazendo faxinas e trabalhando como manicure e depiladora num salão de beleza. Depois que juntar o que precisa, ela não sabe o que fará da sua vida – e percebemos que não há mesmo nenhum tipo de preparação para o futuro ou sonho na personagem depois de confrontar esta realidade ilusória. Ela não se esforça para aprender o inglês, evita relações até mesmo com outros imigrantes e parece querer esquecer de vez o português.

A única coisa que ainda desperta algum sentimento em Barbara é o contato com Silvio, um ex garoto de programa que passou por uma série de tratamentos experimentais e foi utilizado como cobaia em diversas pesquisas para a doença que tem, a Aids. Entretanto, toda energia gasta foi sem resultado. O vírus continua avançando e mutilando o corpo dele. E machuca em Barbara ver o homem que ama ficar cada vez mais pálido e abatido – fora o fato de que a única relação que os dois mantem é a de patrão-empregada, pois Silvio é homossexual.


“Agora ele quer dizer um verbo que nunca usou.
Quer lhe dizer algo que nem mesmo sabe direito o que é, mas que vem, e vem, e vem sem parar em sua mente.
Reconhece com pudor e vergonha que é o verbo amar. (…)
– Cafuné.”


vidas

Além disso, o núcleo de Barbara também é composto por outras personagens emblemáticas que tentam ganhar a vida em Nova York: são prostitutas, cafetinas e mães de família, tudo ao mesmo tempo. E Edney Silvestre constrói essas figuras utilizando toda a sua vivência no exterior – o jornalista foi correspondente internacional por onze anos – criando uma visão tangível e sincera do que é estar distante do seu povo e enxergar o Brasil de longe.

Outro ponto que impressiona em Vidas Provisórias é a capacidade do autor de amarrar a história real à vida dos personagens. As passagens caminham do Golpe de 64 ao atentado ao World Trade Center e tudo aparece nitidamente contextualizado, dando mais profundidade às tramas. Os cenários do livro também variam com a linha do tempo (Chile, Nova York, Suécia, França e Iraque), todos bem ilustrados em palavras.

Vidas Provisórias é um livro de histórias corriqueiras (justificadas com diversos depoimentos e entrevistas, listados ao final do livro), mas que ganham força e presença com uma narração que desenvolve os personagens, os cenários e a emoção numa forma equilibrada. E que dói pelas descrições de tortura e cenas de violência, pela desesperança que às vezes definham os personagens, pelos massacres que acontecem em suas vidas – vidas que deveriam passar rapidamente, mas que insistem em ficar por mais um tempo.


capa_vidasprovisorias_blogvidas provisórias – edney silvestre – 240 páginas – intrínseca
em 140 caracteres… duas histórias sobre perda de identidade (ou a descoberta de uma nova).
um livro para… se arrepiar com as descrições.
combina com… nostalgia e saudade.
pra quem já leu… o e-book gratuito “aqueles tempos”, onde edney silvestre conta um pouco dos bastidores deste livro.

 

 

Andre ainda consegue enxergar tudo se fechar os olhos agora.

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