a semente do mal

A história de Menina Má começa com uma morte. Claude Daigle, um garotinho premiado por sua caligrafia, se afoga numa tarde de piquenique com os amiguinhos da escola. Quando ouve esta notícia por um flash no rádio, Christine Penmark, mãe de Rhoda, que estudava junto com o menino afogado, logo começa a pensar em como aquela precoce visão da morte poderia atingir a filha.

Porém, quando Rhoda chega em casa após o piquenique, ela não parece impressionada ou desconsolada. Inclusive, até anuncia o resgate do garoto como uma das maiores aventuras que já viveu. Christine se sente extremamente desconfortável perante a apatia da filha diante daquela situação e, remontando o passado em família e todas as estranhezas da garota, começa a desconfiar da natureza da criança. Teria algo de errado com ela?


“Christine pensou:
Ela é tão fria, tão impessoal em relação a coisas que incomodam os outros…
Era isso o que nunca fora capaz de entender.
Ela e Kenneth costumavam rir daquilo e chamar, entre eles,  de “reação de Rhoda”. No entanto, naquele momento, a particularidade da filha a perturbou e a desanimou de um jeito inqualificável, indefinível.”


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A narrativa em torno de Rhoda é bastante incômoda, principalmente porque acompanhamos tudo pelo ponto de vista de sua mãe, angustiada com tudo que tem ocorrido. Apesar do narrador estar em terceira pessoa, temos acesso aos pensamentos de Christine e cartas que ela escreve para o marido, ausente por questões do trabalho.

Vamos descobrindo mais sobre a personalidade da garota apenas quando Christine começa a perceber certos padrões no comportamento dela, associando supostos acidentes do passado com o caso do garoto afogado. Somente depois dos acontecimentos que iniciam o livro que a mãe vai começar a ver além da carinha de inocente, das tranças bem feitas, da obediência fiel e da dedicação de Rhoda para sempre ser melhor. Só assim ela começará a refletir e notar os traços exagerados de ambição e egoísmo e uma necessidade quase doentia de se destacar na menina.

Porém, William March, fascinado por violência sexual e perversidade, cria toda uma série de situações que podem chocar ou causar um mal-estar no leitor. Não é apenas Rhoda que tem certos desvios de conduta. São diversas as histórias e pessoas mencionadas em diálogos e leituras durante a trama central. Uma seguradora de idosos que os matava “programadamente” para nunca ficar sem dinheiro. Uma mulher que assassinava seriadamente toda a sua família, até que reste como a única herdeira. Uma tia que envenenava seus sobrinhos para ganhar alguns milhares de dólares de seguro.

Mas, além dessas ocorrências enormes que vão sendo citadas, algumas características dos personagens que giram em torno de Rhoda também são um pouco perversas (em alguns momentos, a gente só consegue perceber o quanto aquilo é “mordaz” considerando o contexto da época em que foi escrito). Uma vizinha sente um desejo de relações incestuosas com seu irmão; um senhor parece esconder homossexualidade; o zelador do prédio onde os Penmark vivem é mostrado sutilmente com certa fixação por Rhoda e é capaz de imaginar-se cometendo algumas atrocidades com todos os moradores que ele detesta. Até mesmo Christine tem seus momentos de corrompimento.

March aproveita, então, o auge das ideias de Freud nos Estados Unidos, para adicionar diversos elementos relacionados à psicanálise na narração, utilizando sua criação para fazer o leitor se questionar se o ser humano é naturalmente corrompido ou se adquire a maldade ao longo da vida. Qual é a semente do mal?


“Ela já dedicara muito tempo a pensar no assunto, e chegara à conclusão de que, quanto maior o impulso, maior tinha de sera defesa contra esse impulso, para que a pessoa sobrevivesse enquanto animal social.”


“Mas nada é mais natural que esperar que tivéssemos nossas culpas particulares, já que nosso desenvolvimento, nosso próprio lugar no mundo, baseia-se nessa premissa.
Desde pequenos nos ensinam que nossos impulsos humanos são vergonhosos e degradantes, que o ser humano é vil, que a própria forma como ele nasce é fruto de um pecado cometido às escondidas pelo qual devemos nos lamentar e expiar.”


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Menina Má é uma obra espetacular, tanto pela profundidade que os personagens apresentam quanto pela maneira como o autor consegue tratar as diversas formas de corrupção da sociedade. Um suspense psicológico para se sentir apreensivo, incomodado ou, no mínimo interessado: você pode o sentir de diversas maneiras, só não dá para fazer a reação de Rhoda.


capa mmenina má – william march – 272 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um livro sobre como a maldade pode atingir as mais diferentes pessoas, independente de sexo, classe ou idade.
um livro para… se questionar sobre o que nos faz ser humanos. a bondade, a maldade ou a união dessas duas coisas?
combina com… bonecas assassinas, pessoas frias e vestidinhos vermelhos!
para quem já leu… o filme “A Tara Maldita” (1956), que foi inspirado nesse livro de March e indicado a quatro Oscars. a atuação de patty mccormack como rhoda está incrível e o desfecho é diferente!

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não tem boa caligrafia.

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