o último adeus e a depressão do outro

O Último Adeus

Escrever esse livro não foi ideia da nossa protagonista. Foi ideia do seu terapeuta, que queria que ela começasse a se abrir mais sobre como foi conviver com o irmão, na esperança de que isso a ajudasse a superar a perda dele. Ty, o irmão, cometeu suicídio em dezembro e agora, em fevereiro, Lex começa a registrar num caderno moleskine alguns momentos que partilhou com ele. O dia em que ela descobriu que ganharia um irmão, quando eles precisaram passar juntos pela separação dos pais, o modo como ele a encorajou a ir ao baile de formatura do colégio, a última vez que o lembra de ter visto…

Algumas lembranças são felizes, outras são tristes, mas todas elas, quando transformadas em realidade no papel, acabam, de alguma maneira, ajudando Lex a organizar melhor seus sentimentos e a vivenciar o luto.

Mas a vida da jovem não parou depois da morte do irmão. Tudo precisava continuar, então a história de Lex também se passa fora do diário, onde ela narra o que tem acontecido por esses dias e como as coisas estão diferentes depois do que aconteceu. A relação com os pais, a vida no colégio, as consultas com seu terapeuta, os amigos, os professores, o ex-namorado e todas as outras pessoas que não sabem mais como agir perto dela (que ou tentam fingir que nada aconteceu ou escolheram se afastar da garota) e também a relação consigo mesma e com a imagem que havia criado do irmão. Lex tenta ligar os pontos que sabia sobre o irmão para descobrir por quais problemas Ty passava, porque ele achara que o suicídio era a melhor solução e como ela se encaixa nisso tudo (ela tem, afinal, alguma culpa do que aconteceu?).

É assim que O Último Adeus vai se desenrolando, alternando os estilos de narração no tempo, e tratando do sentimento da dor e da superação do luto de uma maneira bem honesta. Não há uma romantização do sofrimento ou da melancolia. Cynthia Hand, a autora, deixa bem claro o quanto é difícil encarar um lugar vazio na mesa de jantar, visitar um painel de fotos, notar as marcas de sangue no chão da garagem. Enquanto a maior preocupação das outras pessoas de sua idade é sobre para qual faculdade aplicar suas notas, ela precisa saber como lidar com uma mãe que se rendeu ao alcoolismo para escapar da dor de ter um filho morto. E Lex se pergunta porque ela precisa passar por isso.


“Sinto saudade sinto saudade sinto saudade.
O buraco no meu peito explode. Não consigo respirar não consigo respirar.”


adeus
foto por Anna Schermak
Desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio.

Depois do divórcio dos pais, enxergando a família ruir, Ty tentou se matar pela primeira vez, mas seu plano acabou não se concretizando. Impedido, sua vida seguiu sem muitas considerações sobre o assunto, ele passou a se dedicar mais aos esportes, se encontrava semanalmente com o pai… Ty tentou ignorar tudo que havia de errado e lidar sozinho com todo o peso daquela situação. Tudo parecia bem, mas não estava.

Depois de pregar um post-it num espelho, Ty seguiu para a garagem da casa e atirou no próprio peito. A única mensagem que deixou, “desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio”, é de uma crueza impressionante e traz à tona a depressão como um tema do livro.

A sensação de vazio talvez seja uma das mais particulares quando se trata do diagnóstico da depressão. Esta é uma doença que desequilibra as químicas do cérebro e leva a pessoa a uma situação onde toda a energia, toda a alegria, todos os motivos válidos para se fazer qualquer coisa que comumente teríamos vontade (como sair de casa, sair da cama, se alimentar…) acabam sendo sugados por algo como “um buraco negro”. A pessoa se sente realmente esvaziada, tomada apenas por uma tristeza profunda.

Para saber mais sobre depressão: como identificar, combater e buscar ajuda, no especial O Último Adeus, no blog da Anna Costa.


o
foto por Anna Costa
A depressão do outro

Durante o livro, Lex se culpa pelo que havia dentro do irmão e pelos rumos que essa situação tomou — e a escrita da Cynthia Hand é tão boa que deixa esta situação bem crível e conseguimos sentir a sensação de impotência da protagonista.

Porém, é preciso deixar claro que quando falamos de depressão, ela não é culpa da própria pessoa e nem de nenhuma das pessoas por perto. Não é uma simples situação onde a pessoa está chateada com algo que foi feito e ninguém ficará deprimido apenas porque houve uma discussão, uma briga. O que acontece é resultado de um conjunto de fatores e a propensão da pessoa a desenvolver a depressão.

Em vez de se sentir culpada pela situação, o ideal é pensar em como pode ajudar: ofereça um ombro para que a pessoa possa desabafar e procure ouvir os sentimentos de quem está passando por este problema, sem julgamentos; não tente reduzir a gravidade da doença dizendo “não fica assim” nem procure forçar a pessoa a fazer coisas que ela não tem vontade de fazer nem que normalmente faria; esteja por perto para um programa calmo, como uma tarde vendo um filme, sem muita conversa ou expressões físicas de afeto; mostre que se importa mesmo que a pessoa se afaste de você nesse período e lembre-se que isto nem sempre é uma escolha consciente, pois tudo está bem bagunçado na cabeça do outro.

Além de não se culpar, também lembre-se que a cura também não deve vir somente de você. Quando há um envolvimento maior com a pessoa com depressão, pode ser difícil reconhecer nossos limites no processo porque a vontade de se doar ao outro é enorme. O amor nos encoraja a carregar o peso da dor do outro. Contudo, de maneira geral, a pessoa com depressão precisa de tratamento e acompanhamento profissional especializado. Encoraje a pessoa a procurar esta ajuda externa e converse com outras pessoas próximas quando observar sinais de que alguém pode estar com depressão. Você é apenas uma parte da recuperação, apesar de seu apoio poder ser fundamental para que ela aconteça mais rapidamente.


ultimoo último adeus – cynthia hand – 352 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma narrativa sensível e emocionante sobre dor, luto, depressão e o cuidado com o outro.
um livro para… repensar algumas atitudes no trato com as pessoas que vivem perto da gente.
combina com… desabafo, memória e músicas tristes.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

* Ilustração de capa por Ana Teixeira.

Andre abraça a saudade.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s