a literatura é perigosa

Este post é uma colaboração para o projeto da
Revista Pólen para a Banned Books Week.
Para saber mais e acompanhar outros posts temáticos, visite a Pólen ❤ 

 

Imagine que um grupo de crianças acaba perdida numa ilha e precisa aprender a lidar com a natureza e a vida em grupo sem nenhum adulto por perto. Quais problemas poderiam vir disso? William Goulding tentou imaginar essa situação em O Senhor das Moscas, publicado originalmente em 1954.

Num primeiro momento, todos os garotos tentam escolher um líder para si, usando a democracia e o voto direto como uma forma de definir os próximos rumos a serem seguidos. Um personagem significaria a liberdade e outro o autoritarismo. Contudo, novos dilemas aparecem e as crianças precisam aprender a colher, caçar, criar suas próprias instituições de fé ou religiosas e se render de certa forma a instintos violentos que não haviam sido desenvolvidos na antiga vida delas, na Inglaterra. Polêmico ao questionar de onde vem a maldade e a violência, O Senhor das Moscas figura ainda hoje na lista dos livros mais frequentemente contestados da Associação Americana de Bibliotecas.

2.jpg

Porém, este banimento não impediu o livro de ser bastante discutido e inspirar e se tornar referência para outras obras. No livro Fábrica de Vespas (1984), de Iain Banks, por exemplo, temos um garoto vivendo numa ilha remota e criando seu próprio estilo de vida. Apesar de ter um pai, irmão e outros membros da família presentes na história, o autor vai usar uma alegoria bem interessante para permitir que Frank se torne livre para criar seus próprios valores, leias e regras: ele não tem registro de identidade ou certidão de nascimento; ele não assinou nenhum contrato social e pode se manter alheio a ele.

Já em Nada (2000), de Janne Teller, novamente temos um grupo de crianças se tornando violentas e obsessivas devido às circunstâncias. A autora mostra que a inocência infantil não é como a maioria das pessoas parece pensar e que as crianças devem nutrir quase tantos pensamentos negativos quanto os adultos – entretanto, ainda não tem um quadro moral sofisticado para colocá-los. No livro, alguns garotos tentam provar para um colega niilista que há algum sentido na vida, confrontando suas próprias vidas e criando uma pilha de objetos que tem significados para pessoas da vizinhança.

É curioso perceber como mesmo um livro com uma narrativa brutal e crua e que carrega um selo de banido, como O Senhor das Moscas, continua reverberando na cultura pop e influenciando novos autores e histórias. A literatura amplifica opiniões, favorece a transmissão de ideias, cria relações entre as pessoas, edifica diálogos, alimenta polêmicas.

Então, imagine o quão perigoso pode ser usar esta ferramenta para dar voz a quem não tem e criar o consenso de que todas as pessoas, independente de qualquer coisa, merecem espaço, consideração e respeito?


 

Andre nunca foi banido de nenhuma biblioteca.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s