algumas coisas que sei sobre michel laub

michel
diário da queda

Em uma das cerimônias de passagem da cultura judaica, os garotos adolescentes de treze anos de idade são recepcionados pela sociedade adulta sendo jogados treze vezes para o alto, um grupo o segurando nas quedas, como numa rede de bombeiros. Isto não aconteceu, porém, com João, o único gói numa escola de judeus: em sua décima terceira queda, a rede se abriu e ele caiu de costas no chão.

Mas imagine que não tivesse havido o antissemitismo e dezenas de milhares de judeus não tivessem sido mortos em campos de concentração? E se o ódio de judeus contra não-judeus não tivesse sido alimentado? João teria sido vítima de uma violência de forma sistemática no colégio em que estudava? Ele ainda assim teria ido ao chão em vez de aos braços dos colegas?
O quanto grandes tragédias mundiais podem influenciar o caminhar da vida de uma pessoa? Qual o nível de envolvimento com um acontecimento global você precisa ter para que ele te afete de fato? Essas são algumas perguntas evocadas através dos fragmentos escritos pelo narrador de Diário da Queda, de Michel Laub, que resgata este e outros acontecimentos de sua vida para discutir sobre o poder de uma escolha e tomar uma importante decisão ao final da história.

Os capítulos (ou grandes partes) de Diário da Queda começam com títulos curiosos. “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai”“Algumas coisas que sei sobre mim”. Porém, o conteúdo mostra algo que pode parecer não fazer tanto sentido assim com o título, pelo menos à princípio. Quando diz falar sobre o avô, o narrador fala sobre o pai. Quando diz falar sobre o pai, o narrador fala sobre o “acidente” com o colega de infância.
A vida de todos os personagens se intercalam e falar de um é falar do outro. Em notas numeradas aleatoriamente, mas organizadas numericamente em ordem crescente, o filho conta várias histórias que ouviu durante sua vida e tenta achar conexões e relações de causa e efeito entre elas. A história dessas três gerações é uma só – e ela é a história de Auschwitz.


“Eu imagino o que meu pai sentiu quando estava no hospital, a minha mãe em trabalho de parto, se para ele foi um momento diferente do que é para qualquer pai, se ele teve de fazer um esforço extra para cumprir esse papel, as falas e gestos, as emulações de presença e apoio, as demonstrações externas de carinho, os abraços externos, o sorriso externo para além do fato de que ele talvez pensasse no meu avô,
e acordasse diariamente com medo de repetir o meu avô,
e olhasse diariamente para mim pensando que eu poderia me tornar o que ele era caso ele se tornasse o que foi o meu avô.


laub

a maçã envenenada

Já em A Maçã Envenenada, temos um narrador que sofreu um acidente de carro, viajou para Londres, passou um tempo no serviço militar, viveu um relacionamento tão intenso quanto tóxico e teve uma banda – e consegue organizar tudo isso numa linha do tempo perfeita, observando onde cada decisão foi tomada e onde cada curva foi feita em sua vida. Hoje, é jornalista cultural (para ele, o único resultado possível depois de todas essas atividades do passado).

Em seu trabalho, acaba precisando entrevistar uma sobrevivente de um atentado horrendo, um genocídio em Ruanda. Immaculée Ilibagiza escapou da morte ao passar 90 dias escondida num banheiro com outras seis mulheres, mas perdeu todos os seus amigos, parentes e familiares, assassinados por uma tribo rival.
A entrevista é quase catártica para o narrador (sem nome explicitado, assim como em Diário da Queda), que logo o associa com a vida de Kurt Cobain, que fazia um grande show no Morumbi, em São Paulo, no mesmo dia em que Immaculée precisou se esconder.
Um ano depois, o líder do Nirvana se suicidou. Immaculée, perdida e sem nenhum laço interpessoal relevante, contudo, ainda palestra para beatas e religiosos sobre os dias terríveis que viveu, o poder do bem e a necessidade de mudar o mundo.

De certa maneira, talvez seja mais fácil observar estas relações de causa e efeito dentro de uma mesma vida. A cronologia é mais facilmente verificada e uma única fonte é necessária para confirmar ou negar qualquer informação.
O narrador, entretanto, se confunde e não chega a nenhum resultado quando tenta explicar porque Kurt Cobain (que não deixou mensagens tão claras em várias de suas canções e pode ser enxergado como um “desistente”) é considerado um ídolo até hoje, enquanto Immaculée (que pode ser considerada um exemplo de vida, otimismo e esperança) é creditada apenas por meia dúzia de freiras. Ou ainda, como alguém rico, com fama e uma criança pequena para cuidar pode ter acabado com a própria vida, se uma mulher que tinha todos os motivos para fazer isso não o fez?


“Era inevitável pensar que poderia mudar de endereço e de emprego e passar anos incógnito, e só voltariam a ouvir meu nome se eu morresse e encontrassem o passaporte e a embaixada localizasse a minha família.
Não há frase na agenda sobre a sensação quase absoluta, que às vezes me assustava porque é só estender a liberdade e de um instante para o outro você não tem mais passado, nem sente falta de nada porque é como se nada tivesse acontecido, ou só as coisas que você escolheu, as lembranças boas e inofensivas, e nada do que você disse ou fez a uma pessoa tem consequência porque nunca mais precisará encontrá-la, nem pensar nela, nem imaginar e confrontar o que foi feito dela em outro tempo e outro continente numa vida que às vezes nem parece ter sido a sua.”


michel-laub

michel laub

Os narradores de Michel Laub criam uma narrativa memorialística às vezes lírica, às vezes brutal, às vezes seca, às vezes detalhista. As mudanças de tons, certeiros para cada cena contada, podem dar a certeza de que é tudo real. Eles até se misturam com a vida do próprio autor e trazem figuras históricas e reais, todavia, ambos são amplamente ficção.

Nestes dois livros (e num terceiro, prometido pelo autor, mas ainda não lançado), Laub fala sobre como uma vida interfere na outra, como tragédias globais e tragédias locais estão sobrepostas e como é quase impossível delimitar onde começa uma coisa e termina a outra.
Porque a gente está o tempo todo decidindo e escolhendo e definindo rumos não somente nossos, mas também das pessoas à nossa volta e das pessoas que ainda nem existem. É desgraçante para nossa cabeça pensar nesse tipo de coisa – e é impossível dizer se ter ciência disso muda alguma coisa, nos torna mais ou menos responsáveis. Porque é possível memorar tanta coisa para explicar um acontecimento, um conflito, um desastre, que, às vezes, é mais simples resumir tudo na dúvida.


quedadiário da queda – michel laub – 152 páginas – companhia das letras
em 140 caracteres… uma história sobre grandes tragédias mundiais, pequenas tragédias pessoais e o modo como elas se sobrepõem.
um livro para… pensar em nossas relações familiares e sobre como somos feitos de diversas pessoas.
combina com… glossários, memórias e celebrações de bar mitzvah.

envenenadaa maçã envenenada – michel laub – 120 páginas – companhia das letras
em 140 caracteres… sobre como as noções e os motivos para valer a pena viver são diferentes de pessoa para pessoa.
um livro para… refletir sobre religião, idolatria, doenças físicas e doenças mentais.
combina com… o fruto do conhecimento do bem e mal.
para quem já leu… resta aguardar a adaptação de diário da queda para os cinemas.

 

Andre desconhece as causas e aguarda os efeitos.

*a primeira imagem vem da capa inglesa de diário da queda. 

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