mas você vai sozinha?

Não é de hoje (numa época em que youtubers gravam diversos vlogs em Orlando e programas de tv fazem listas de dez restaurantes imperdíveis em Paris) que a gente deseja passar nossa visão de viagens pelo mundo para outras pessoas. Lá nos tempos de navegações e descobrimentos (e antes disso) já se escreviam longas cartas e tratados sobre as impressões de alguém sobre um lugar novo a ser explorado e colonizado.
É comum nesses relatos termos um escritor presente, atuante, protagonista, que caminha pelas ruas de uma cidade e descreve o que vê e o que sente quando vê. Contam sobre pessoas, cenários, comidas, cheiros, costumes como quem vive aquela rotina diariamente – dando dicas fundamentais para quem deseja viajar para o mesmo lugar – mas trazendo um certo encantamento com o diferente no olhar.

Esses relatos, para mim, precisam brincar com os sentidos e esclarecer quem lê sobre os pontos altos e/ou baixos de um lugar, mesmo que indiretamente. São uma chance de convencer o leitor a comprar uma passagem para o mesmo destino na mesma hora ou desistir definitivamente de tentar encarar algumas experiências. Nesse sentido, o Mas você vai sozinha?, de Gaía Passarelli, consegue cumprir muito bem seu papel.

O livro de estreia da escritora de viagem a coloca no primeiro plano de jornadas para Índia, Colômbia, Peru, Escócia e outros destinos, mas também mostra um desejo e uma grande capacidade de observação.
Gaía narra o que acontece quando olha para o outro, se envolve com as pessoas e tenta perceber, compreender e respeitar seus hábitos.
Em Austin, ela cochilou num grande festival. Em Medellín, ela participou de uma cerimônia xamânica. No Parque Nacional do Itatiaia, ela se perdeu e se encontrou.
Ela viaja sozinha e sabe que existem riscos, mas não deixa a insegurança e o medo a dominarem, os perrengues a desanimarem. E vai seguindo por conta própria e se entregando a novas sensações e vivências…


“É uma sensação surreal estar na extremidade de um continente, sozinha, tão longe quanto jamais estive.
Sabia que não era a única pessoa ocidental no sangam, mas com certeza era a única mulher tatuada e de cabelo curto no espaço visível.”

vai.png

Quem procura por onde comer, onde se hospedar, quanto custa, as melhores rotas e uma quantidade imensas de roteiros detalhados e dicas específicas pode se decepcionar com o Mas você vai sozinha?, pois ele apresenta um espaço consideravelmente pequeno dedicado a isso. Somente uma ou duas páginas, ao final de cada capítulo.

Porém, o conteúdo deste espaço é muito bem feito e, justamente pelo tamanho reduzido, fornece informações tão gerais quanto importantes e dicas de lugares realmente que valem a pena visitar. Assim, fica até uma liberdade maior para o leitor explorar a cidade e/ou fazer buscas prévias sobre o que realmente o interessa.
Além disso, algumas vezes esta página traz uma playlist feita pela autora para você entrar no clima dos lugares visitados no capítulo. E vale a pena confiar numa ex-Vj da MTV Brasil para isso! As sugestões de músicas (todas disponíveis para ouvir no perfil da Globo Livros no Spotify) trazem de Lou Reed a Yeah Yeah Yeahs, passando por uma lista especial só com músicas do David Bowie.

O mais interessante e original aqui, contudo, são os boxes que encerram definitivamente cada capítulo e que carregam o mesmo nome do livro, “Mas você vai sozinha?”. São dicas particulares para mulheres que querem viajar sozinhas, dando informações sobre a violência, a liberdade individual e o comportamento social dos locais visitados e alguns comentários sobre os cuidados que a viajante deve ter. É uma forma de incentivar e encorajar mulheres a curtirem a própria companhia em qualquer lugar do mundo.
Inclusive, o livro todo tem certo tom de empoderamento feminino. Toda a equipe que trabalhou na produção do livro é de mulheres, algo que aconteceu espontaneamente. Em destaque: a artista Anália Moraes, que fez todas as ilustrações, Babi Souza (do Vamos Juntas?), que escreveu a orelha, e Jana Rosa (escritora) e Sofia Soter (uma das fundadoras da Capitolina), que escreveram os blurbs da quarta capa.


“Vão olhar para você.
O quanto antes você se acostumar à ideia e não deixar isso estragar sua viagem, melhor. Encarar de volta, aliás, é interpretado como um convite.(…)
O segredo é sempre lembrar que você não está em casa, mas numa parte do mundo onde os códigos de comportamento são diferentes dos seus.
O mundo não é o seu quintal.”


sozinha.png

“Nem sempre é preciso ir tão longe para ficar tranquilo com você mesmo, claro. Mas de cima de uma montanha cujo nome até agora não sei com certeza
(Ben Nevis? Glenn Nevis? Faz diferença?),
sem conseguir ver mais de dez centímetros à frente do nariz, por um momento percebia que eu nenhum lugar eu poderia me sentir tão bem.”


Mas você vai sozinha? é como um clássico livro de relatos de viagens, mas com uma voz afetiva, bem-humorada e original explorando o prazer de descobrir novos espaços, pessoas e culturas – e sobre ser descoberto por eles. Cada crônica inspira de uma forma diferente, mas todas deixam a sensação (ou a necessidade) de que é preciso seguir em frente e colocar o pé na estrada.

Viajar sozinho pode parecer deprimente, solitário, perigoso. Porém, essa superfície esconde uma oportunidade ótima de autoconhecimento e amadurecimento.
Pode ser meio desesperador parar pra pensar que não há ninguém conhecido por perto, mas o senso de que é você quem vai tomar todas as decisões, lidar com seus resultados e, por isso, se permitir errar é engrandecedor.
Há um lado positivo em se sentir vulnerável.


medium_1686mas você vai sozinha? – gaía passarelli – 176 páginas – globo livros
em 140 caracteres… um livro menos para dar dicas específicas e mais para contar boas histórias e deixar a vontade de criar sua própria rota.
um livro para… ficar com vontade de colocar o pé na estrada (ou ficar boas horas conversando com a autora, caso não seja desses.)
combina com… alces, lanternas, cervejas e david bowie.
para quem já leu… o livro (e sua adaptação para o cinema, com reese whiterspoon) “livre”, de cheryl strayed, uma outra jornada solitária de uma mulher.

A Globo Livros é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não saberia lidar com o alce.

Advertisements

2 pensamentos sobre “mas você vai sozinha?

  1. Andre
    Adorei a sua resenha! Você conseguiu captar realmente a essência do livro.
    Já li a obra e compartilho das mesmas sensações que você teve em minha leitura.
    É fantástico como a Passarelli conseguiu transmitir em seu texto a ideia de que sim, menina, você pode viajar sozinha.
    Parabéns pelo post.
    Mil beijos

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s