a visita da solidão

o antheano

Anthea é um planeta comumente confundido com Marte, mas que não é Marte. Ele talvez esteja ali, na mesma direção que Marte, e também faz parte do sistema solar (ou você já ouviu falar de algum outro sistema?), mas são coisas diferentes.
Hoje, Anthea sofre com uma ausência drástica de combustíveis – não há mais gasolina, diesel ou qualquer coisa do tipo – mas houve um tempo em que eles tiveram combustível o suficiente para enviar apenas um antheano para a Terra: Thomas Jerome Newton.

Depois de um treinamento pesado, Newton deixou sua esposa, as pessoas com quem ele se relacionava e seu planeta para trás para embarcar numa missão: construir uma nave espacial na Terra e voltar para buscar os de sua espécie que ficaram em Anthea.

O Homem que Caiu na Terra começa assim que este ser estranho pousa na Terra. Disfarçado de humano, ele precisará enriquecer, conseguir o material e a mão-de-obra necessários para sua empreitada. E isso não será difícil já que Newton trouxe grandes ideias e conhecimento do seu planeta, além de ter naturalmente uma inteligência mais aguçada que a dos humanos.

No livro, mais do que acompanhar esta jornada, narrada de uma maneira tão tensa quanto poética, também vemos o que acontece quando um antheano encontra a cumplicidade de uma mulher e desperta a desconfiança de um cientista  – relações que ganham traços melancólicos pelo olhar pessimista do autor, que escreveu esta obra em meio à Guerra Fria e à eminência do fim do mundo.


“Uma espaçonave erguida em uma pastagem do Kentucky, cercada por montanhas outonais e cujo dono era um homem que escolhera viver em uma mansão com uma empregada bêbada, um secretário francês, papagaios, quadros e gatos.
Entre a nave e a casa ficavam a água, as montanhas, o próprio Bryce e o céu.”


foto-caiu

o humano

Por ser um livro de ficção científica e centrado num ser extraterrestre, pode ficar a impressão de que O Homem que Caiu na Terra é um livro sobre a conquista de outro planeta, a busca por recursos naturais e a tentativa de construção de relações interplanetárias. Se formos olhar por um lado, sim, a verdade é que O Homem que Caiu na Terra realmente é isso. Porém, Walter Tevis vai além.

No meio de algumas frases técnicas e jargões científicos típicas deste gênero, entram reflexões sobre do que é feita a nossa identidade e o que nos torna humanos.


““(…) Às vezes, vocês nos parecem macacos soltos em um museu, correndo com facas, rasgando os quadros e quebrando as estátuas com martelos.”
Bryce não conseguiu falar imediatamente. “Mas foram os humanos que pintaram os quadros e fizeram as estátuas.”
“Apenas alguns humanos”, respondeu Newton. “Apenas alguns.””


Primeiro, pela questão aparência. Thomas Jerome Newton precisa esconder seus olhos de gato, se vestir de outra maneira e se portar de uma maneira diferenciada. Mesmo assim, permanece andrógino, impúbere, alto, magro e delicado demais para os padrões de nossa espécie.

Depois, vem a convivência. O alienígena, ainda em Anthea, assistia diversos programas de televisão do nosso planeta, tentando copiar gestos, idioma, sotaque, trejeitos e qualquer pequeno detalhe de nossas linguagem e regras de etiqueta e socialização. Já na Terra, mesmo com uma inteligência bem superior à nossa, se rende a vícios humanos, como o álcool, e exagera na ambição.

Contudo, Newton ainda se sente deslocado. Ele tem um corpo, ele tem habilidades, ele consegue notoriedade pelo seu trabalho no campo científico, mas ainda é solitário.
Ali não existem semelhantes. Fingindo, ele se torna apenas uma cópia dos que estão ao seu redor. E isso não é o suficiente para se reconhecer quando se vê no espelho – nem mesmo quando tira suas lentes ele se enxerga.
Ter sua identidade apagada o torna cada vez mais infeliz.


““Se você fosse de Marte realmente estaria sozinho”, disse Bryce, observando os patos. Se ele fosse de lá, seria como um pato solitário no lago – um migrante cansado.
“Não é preciso.”
“O que não é preciso?”
“Ser de Marte para se sentir sozinho. Imagino que você já tenha se sentido sozinho muitas vezes, dr. Bryce. Se sentido alienado. Você veio de Marte?””


Walter Tevis construiu em O Homem que Caiu na Terra mais do que uma ficção científica sobre um ser de um planeta afastado nos visitando. Criou uma história sobre o que acontece quando nós nos afastamos da nossa essência. A visita da solidão e da tristeza profunda.


capao homem que caiu na terra – walter tevis – 224 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma ficção científica sobre nossos limites, ambições, arrogância e vícios como humanos.
um livro para… sentir umas bad vibes e uma melancolia aguda.
combina com… questões existenciais, respirar profundamente e sentir o ar nos pulmões.
para quem já leu… o documentário HUMAN, do fotógrafo e cineasta Yann Arthurs-Bertrand. em 3 anos, o francês entrevistou mais de 2 mil pessoas em 70 países e 63 idiomas, levantando questões e reflexões sobre nossa condição humana. assista e saiba mais aqui.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

* Ilustração do topo por Igor Frederico.

Andre volta quando se afasta.

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