em algum lugar nas estrelas

Quando o pai de Jack saiu para servir no exército durante a guerra, Jack tinha nove anos e sonhava com o dia em que ele voltaria, daria um beijo forte em sua mãe, bagunçaria seu cabelo e tomariam um sorvete feito em casa.
Quando o pai voltou, entretanto, foi para o funeral da mãe. Não houve beijo, nem bagunça, nem sorvete. Os dois, estranhos um para o outro, encheram a casa de silêncio e se separaram aí, quando Jack, com treze anos de idade, foi deixado num colégio interno só para garotos.

É desse ponto que parte a viagem de Em Algum Lugar nas Estrelas.
Entre garotos adolescentes, caixas, quadros de aviso, aulas de latim e competições de regatas: era ali que Jack precisaria superar o luto e lidar com a morte da mãe. Distante do interior do Kansas e da segurança e firmeza de tudo que ele conhecia como mundo e perto de toda a ondulação do mar e areia fofa do Maine.


” – Está passando para a parte da navegação cedo demais.
Talvez deva se concentrar na beleza daquelas estrelas lá em cima, em vez de só pensar na função delas. Olhe para elas, admire-as, deixe que o fascinem, antes de esperar que elas o guiem.”

01


Dentre todos os garotos que Jack conhece, um acaba saltando aos seus olhos. Early Auden. Um garoto pequeno para sua idade, introvertido, que acredita que existem cascavéis no norte, perdeu o irmão mais velho para a guerra, acalma as pessoas com o ruído branco das vitrolas e tem toda uma dinâmica própria para ouvir música. Mozart para os domingos, Louis Armstrong às segundas, Frank Sinatra às quartas e Glenn Miller às sextas. Terças, quintas e sábados são dias sem música. A não ser que esteja chovendo. Se está chovendo, independente do dia, é dia de Billie Holiday.

Earl também tem uma habilidade especial. A dádiva de ver números com cores, formas, tamanhos e texturas diferentes. Com sua mente operando de uma maneira diferente, ele consegue enxergar o número pi como uma história. O número 1 é Pi e os outros números são a história dele. Começando pelo número 3, sua mãe, bonita e bondosa, e o 4, seu pai, forte e bom. Nos outros números, Earl enxerga o mar, ondas, vulcões, estrelas, amigos, vilões e um infinito de outras alegorias.


“Enquanto olhava pela janela para o céu sem lua, revia mentalmente os eventos do dia. (…)
Mas, principalmente, lembrava a sensação de estar perdido, incapaz de determinar em que direção seguir. Olhar pela janela era como encarar um oceano profundo, e eu me imaginei flutuando, boiando à deriva sob um céu sem estrelas.”

02


A história de Pi acontece em outro tempo, antes das estrelas terem nomes, de os homens saberem como usá-las para traçar caminhos, antes das grandes aventuras e navegações. Intrigado, Pi olhava fascinado para as estrelas, as admirava e, sobretudo, se perguntava “por quê?”. Com essa pergunta (ou todas as perguntas do mundo) ardendo no peito, ele resolve sair de casa, seguir a Ursa Maior e procurar por um motivo para tudo, descobrir seu lugar no mundo, conquistar seu próprio nome.

Em sua viagem, Pi vai precisar enfrentar diversos perigos, como um labirinto, marés cheias e violentas e um rio de lava incandescente. Contudo, todos estes obstáculos são apresentados como parte de uma jornada de auto-descobrimento. Pi está disposto a tudo para se tornar alguém mais sábio e que possa responder as perguntas que o despertaram.
Lotada de poesia, a história de Pi poderia ser uma quebra na narrativa (como acontece em alguns livros que optam por múltiplos pontos-de-vista), não fosse por todos os símbolos que completam a trama de Jack e Earl inseridos ali. Enquanto os capítulos se intercalam, a gente vai percebendo as pequenas metáforas que a autora, Clare Vanderpool, criou. Ao ligar os pontos, como estrelas em constelações, é impossível não se encantar com toda a expressividade que a imagem formada carrega – esta história dentro da história é como uma forma de resguardar Earl do mundo real ao mesmo tempo em que o encoraja.


“Chovia,
por isso eu sabia que o disco de Billie Holiday estava rodando na vitrola.
Sabia que a oficina de Early era quente e convidativa. Sabia que tinha sanduíches de pasta de amendoim prontos.
E sabia que Early estava lá.
Eu não estava sozinho.”

03


Isso porque a história de Pi é aquilo que guia Earl, de certa maneira. Quando um professor suscita em Jack a dúvida de que o número pi não é infinito, Earl se coloca em um barco com o amigo para provar para ele que a história não pode ter um fim.
Em vários pontos fica claro que Em Algum Lugar nas Estrelas é um livro sobre amizade, companheirismo, lealdade, amor, confiança… Já, para mim, esta relação bonita de Earl com a narrativa (ou com a ficção, os romances, a literatura…)  é o que mais me chamou a atenção e me fez gostar tanto.

A gente vive num mundo onde tudo precisa ser útil, produtivo, trazer um resultado, um lucro, e por isso acaba rejeitando bastante a arte. Literatura, cinema, música: é tudo perda de tempo. A gente para tudo enquanto poderia estar fazendo alguma coisa de verdade.
Mas aqui fica clara a função da arte nas nossas vidas. Ela pode nos guiar em nossa própria jornada.
As histórias de pessoas que vieram antes de nós ou daquelas pessoas que fizeram parte da imaginação de alguém podem nos motivar, nos ensinar, nos ajudar a nos entender, a entender o mundo, a conquistar nosso caminho e nosso próprio nome. E, mesmo que nunca tenha pensado em navegar ou descobrir constelações ou procurar grandes ursos, em livros como Em Algum Lugar nas Estrelas, a gente consegue apreender os porquês do nosso mundo.


capaem algum lugar das estrelas – clare vanderpool – 288 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma história sobre encontrar seu caminho, um amigo para te acompanhar e suspender sua descrença diante das histórias das outras pessoas.
um livro para… sentir vontade de estudar constelações, pegar um barquinho e seguir por uma longa extensão de água.
combina com… chuva, poesia, billie holiday e balinhas coloridas.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não tem mais mãos transparentes.

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