grito, delírio e certeza

Fausto é um ator nato. É essa uma das primeiras descrições que a gente recebe desse rapaz em Grito, livro de Godofredo de Oliveira Neto. Porém, ele ainda não recebeu grandes oportunidades em sua carreira e vive passando de um emprego aqui para um bico ali, atendendo num cinema inferninho, numa agência de turismo ou no caixa de uma loja inglesa de sanduíches.

E então Fausto conhece Eugênia, uma ex atriz, famosa, que já passou por diversos personagens, roteiros e montagens em toda sua vida. Eugênia logo se encanta com este jovem, orgulhosa de conhecer alguém como ele, tão talentoso quanto determinado a viver do teatro e fazer da arte um sentido para sua vida. Disposta a ajudá-lo com suas dicas de veterana, os dois se inspiram na vida de Fausto para escrever juntos peças onde Fausto interprete os personagens, baseando-se nas cenas que ele mesmo viveu. Os dois trocam ideias, criam narrativas, discutem cenários, trilhas e figurinos… E fundam juntos, no conjugado onde vive, uma sala de teatro privada, batizada em homenagem à irmã gêmea do jovem que nunca nasceu.

Quando Fausto é iluminado pelo holofote da sala Ifigênia de Sá Sintra, sua pele escura ganha tons ainda mais belos. Quando Fausto brada sua voz, extraordinária para o teatro, qualquer exclamação ganha uma dramaticidade impressionante. E quando Fausto recita a resposta de Iago, de Otelo, de Shakespeare, a Rodrigo (“O amor é mera lascívia do sangue e simples complacência do desejo”) o espaço do apartamento trezentos e oito se preenche de poesia.

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“A voz do amor.
O desejo trazido pela linguagem, a linguagem que exprime o desejo.
Amor e paz. É o que aprendi na minha religião.
E você é só violência.”


De início, a relação dos dois é bastante profissional. Juntos, estes vizinhos se encontram diariamente e debruçam-se sobre suas vidas para criar as peças que a gente encontra no livro, em forma de roteiro de peça teatral mesmo. Além disso, as encenações e apresentações numa sala tão restrita evoca intimidade e a relação dos dois começa a tangenciar o afeto. É quando a gente percebe que Eugênia, que narra em primeira pessoa as passagens corridas do romance, parece começar a se empolgar demais com a situação.

Eugênia é viúva. Idosa, sem muitos amigos vivos, poucos restaram do Retiro dos Artistas. Sem filho ou familiares. Tudo que restou para ela são sua memória artística e a capacidade de repetir tiradas inteiras dos espetáculos em que atuou. Logo, toda essa atenção que recebe de Fausto, utilizada tanto como companhia no presente quanto como um resgate de seu passado quando jovem nos palcos, era bem capaz de se tornar mesmo algo maior e exagerado. Um sentimento de platonismo e possessividade começa a ganhar a narrativa.


“Fausto me disse ter lido depois o argumento com uma amiga, Leila Mara. Ela fazia o papel da Alice, a protagonista. A amiga adorou a peça, segundo ele. Na minha opinião é mentira dele.
Para Fausto de Sá Cintra eu sozinha preencho todo o seu afeto e toda a sua arte.”

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Grito é um livro sobre obsessões. É feito de uma mulher obcecada pelo teatro, por um rapaz e pelo seu passado. E de um jovem tão obcecado pela arte que a projeta na própria vida e nas próprias experiências. Narrado de uma forma apaixonada, com os desejos muito bem expostos e transmitidos, mesmo que a estrutura do produto final seja atípica, destinada a um interlocutor além do leitor.
Godofredo de Oliveira Neto mistura na escrita o formato de peça teatral com o romance, a vida real dividida com a arte, diversas ficções dentro da ficção. Isso sem falar nas frases completas, citações e referências a outros textos clássicos do teatro. Um jogo que mistura certezas e delírios se desenrola a cada novo ato.

Essa escolha confunde e desorienta, mas também deixa o leitor ainda mais instigado, prestando atenção nos detalhes e tentando compreender as ações dos personagens, enquanto caminha para um desfecho dramático e inesperado. Ao final, acaba sendo impossível não desejar que as cortinas fiquem abertas por mais tempo para se contemplar a potência da arte.


livro_yaghehgrito – godofredo de oliveira neto – 160 páginas – editora record
em 140 caracteres… a arte imitando a vida e a vida imitando a arte, tudo ao mesmo tempo, entrelaçadas nas páginas.
um livro para… ser lido num único fôlego, como se assistindo a uma espetáculo.
combina com… confissões, tragédias, memória e solidão.

* Ilustrações do post por Clari Esborraz.

Este livro foi enviado como cortesia pela agência Oasys Cultural para que esta resenha acontecesse (independente disso, o texto reflete a opinião do autor).

Andre não tem um ator favorito.

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