em algum lugar nas estrelas

Quando o pai de Jack saiu para servir no exército durante a guerra, Jack tinha nove anos e sonhava com o dia em que ele voltaria, daria um beijo forte em sua mãe, bagunçaria seu cabelo e tomariam um sorvete feito em casa.
Quando o pai voltou, entretanto, foi para o funeral da mãe. Não houve beijo, nem bagunça, nem sorvete. Os dois, estranhos um para o outro, encheram a casa de silêncio e se separaram aí, quando Jack, com treze anos de idade, foi deixado num colégio interno só para garotos.

É desse ponto que parte a viagem de Em Algum Lugar nas Estrelas.
Entre garotos adolescentes, caixas, quadros de aviso, aulas de latim e competições de regatas: era ali que Jack precisaria superar o luto e lidar com a morte da mãe. Distante do interior do Kansas e da segurança e firmeza de tudo que ele conhecia como mundo e perto de toda a ondulação do mar e areia fofa do Maine.


” – Está passando para a parte da navegação cedo demais.
Talvez deva se concentrar na beleza daquelas estrelas lá em cima, em vez de só pensar na função delas. Olhe para elas, admire-as, deixe que o fascinem, antes de esperar que elas o guiem.”

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Dentre todos os garotos que Jack conhece, um acaba saltando aos seus olhos. Early Auden. Um garoto pequeno para sua idade, introvertido, que acredita que existem cascavéis no norte, perdeu o irmão mais velho para a guerra, acalma as pessoas com o ruído branco das vitrolas e tem toda uma dinâmica própria para ouvir música. Mozart para os domingos, Louis Armstrong às segundas, Frank Sinatra às quartas e Glenn Miller às sextas. Terças, quintas e sábados são dias sem música. A não ser que esteja chovendo. Se está chovendo, independente do dia, é dia de Billie Holiday.

Earl também tem uma habilidade especial. A dádiva de ver números com cores, formas, tamanhos e texturas diferentes. Com sua mente operando de uma maneira diferente, ele consegue enxergar o número pi como uma história. O número 1 é Pi e os outros números são a história dele. Começando pelo número 3, sua mãe, bonita e bondosa, e o 4, seu pai, forte e bom. Nos outros números, Earl enxerga o mar, ondas, vulcões, estrelas, amigos, vilões e um infinito de outras alegorias.


“Enquanto olhava pela janela para o céu sem lua, revia mentalmente os eventos do dia. (…)
Mas, principalmente, lembrava a sensação de estar perdido, incapaz de determinar em que direção seguir. Olhar pela janela era como encarar um oceano profundo, e eu me imaginei flutuando, boiando à deriva sob um céu sem estrelas.”

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A história de Pi acontece em outro tempo, antes das estrelas terem nomes, de os homens saberem como usá-las para traçar caminhos, antes das grandes aventuras e navegações. Intrigado, Pi olhava fascinado para as estrelas, as admirava e, sobretudo, se perguntava “por quê?”. Com essa pergunta (ou todas as perguntas do mundo) ardendo no peito, ele resolve sair de casa, seguir a Ursa Maior e procurar por um motivo para tudo, descobrir seu lugar no mundo, conquistar seu próprio nome.

Em sua viagem, Pi vai precisar enfrentar diversos perigos, como um labirinto, marés cheias e violentas e um rio de lava incandescente. Contudo, todos estes obstáculos são apresentados como parte de uma jornada de auto-descobrimento. Pi está disposto a tudo para se tornar alguém mais sábio e que possa responder as perguntas que o despertaram.
Lotada de poesia, a história de Pi poderia ser uma quebra na narrativa (como acontece em alguns livros que optam por múltiplos pontos-de-vista), não fosse por todos os símbolos que completam a trama de Jack e Earl inseridos ali. Enquanto os capítulos se intercalam, a gente vai percebendo as pequenas metáforas que a autora, Clare Vanderpool, criou. Ao ligar os pontos, como estrelas em constelações, é impossível não se encantar com toda a expressividade que a imagem formada carrega – esta história dentro da história é como uma forma de resguardar Earl do mundo real ao mesmo tempo em que o encoraja.


“Chovia,
por isso eu sabia que o disco de Billie Holiday estava rodando na vitrola.
Sabia que a oficina de Early era quente e convidativa. Sabia que tinha sanduíches de pasta de amendoim prontos.
E sabia que Early estava lá.
Eu não estava sozinho.”

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Isso porque a história de Pi é aquilo que guia Earl, de certa maneira. Quando um professor suscita em Jack a dúvida de que o número pi não é infinito, Earl se coloca em um barco com o amigo para provar para ele que a história não pode ter um fim.
Em vários pontos fica claro que Em Algum Lugar nas Estrelas é um livro sobre amizade, companheirismo, lealdade, amor, confiança… Já, para mim, esta relação bonita de Earl com a narrativa (ou com a ficção, os romances, a literatura…)  é o que mais me chamou a atenção e me fez gostar tanto.

A gente vive num mundo onde tudo precisa ser útil, produtivo, trazer um resultado, um lucro, e por isso acaba rejeitando bastante a arte. Literatura, cinema, música: é tudo perda de tempo. A gente para tudo enquanto poderia estar fazendo alguma coisa de verdade.
Mas aqui fica clara a função da arte nas nossas vidas. Ela pode nos guiar em nossa própria jornada.
As histórias de pessoas que vieram antes de nós ou daquelas pessoas que fizeram parte da imaginação de alguém podem nos motivar, nos ensinar, nos ajudar a nos entender, a entender o mundo, a conquistar nosso caminho e nosso próprio nome. E, mesmo que nunca tenha pensado em navegar ou descobrir constelações ou procurar grandes ursos, em livros como Em Algum Lugar nas Estrelas, a gente consegue apreender os porquês do nosso mundo.


capaem algum lugar das estrelas – clare vanderpool – 288 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma história sobre encontrar seu caminho, um amigo para te acompanhar e suspender sua descrença diante das histórias das outras pessoas.
um livro para… sentir vontade de estudar constelações, pegar um barquinho e seguir por uma longa extensão de água.
combina com… chuva, poesia, billie holiday e balinhas coloridas.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não tem mais mãos transparentes.

cine book club: um guia

Quem está participando do projeto #medo31 tem o último final de semana livre, sem temas, para fazer uma sessão com três filmes que se relacionam com a a editora DarkSide Books.
As sugestões oficiais da staff foram o polêmico Menina Má, o brutal O Massacre da Serra Elétrica e o misterioso Donnie Darko. Porém, se você já viu algum dos filmes ou não estiver com lá muita vontade de assistir nenhum dos três, pode substituir por qualquer outro do catálogo Cine Book Club.

Para facilitar essas escolhas, algumas informações básicas sobre o filme, o livro e o enredo foram todas reunidas aqui. Tudo organizadinho em ordem alfabética, com datas e trailers para experimentar!


amityville

o livro: escrito por Jay Anson. (resenha em breve)
o filme: dirigido por Stuart Rosenberg, em 1979. Ganhou remake em 2005, por Andrew Douglas.
uma história para… quem não tem medo de histórias reais sobre presenças sombrias. Aqui, uma família passa a sofrer com fenômenos paranormais depois de se mudar para um casa onde terríveis assassinatos aconteceram.


a noite dos mortos-vivos + a volta dos mortos-vivos

o livro: escrito (baseado no filme) por John Russo, co-roteirista do filme.
o filme: dirigido por George Romero, em 1968.
uma história para… quem gosta de filmes com zumbis. A história é considerada fundamental para a criação do arquétipo de zumbis e do conceito de apocalipse zumbi na cultura pop.


de volta para o futuro

o livro: uma narrativa dos bastidores, por Caiseen Gaines. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Robert Zemeckis, em 1985 (com sequências em 1989 e 1990).
uma história para… toda a família! O humor é leve, o roteiro prende, as atuações empolgam e as questões debatidas fazem parte desse contexto.


donnie darko

o livro: composto pelo roteiro original de Richard Kelly, uma entrevista com o diretor e mais alguns extras. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Richard Kelly, em 2001.
uma história para… ficar pensando durante horas sobre o que essa história quer dizer, não chegar a conclusão nenhuma e sentir a necessidade de ver novamente.


evil dead – a morte do demônio

o livro: arquivos mortos reunidos por Bill Warren.
o filme: um clássico de 1981 de Sam Raimi (mas que ganhou um remake em 2013, pelo estreante Fede Alvarez).
uma história para… quem não se importa com uma premissa clichê: jovens que visitam uma cabana numa floresta e acabam invocando espíritos ao se envolverem com um livro encadernado em pele humana e escrito em sangue.
para quem já viu… está em exibição a 2ª temporada da série Ash vs Evil Dead, que se passa anos após o filme original, nos tempos atuais.


hellraiser – renascido do inferno

o livro e o filme: ambas são obras clássicas de Clive Barker, escritor e diretor. A novela é de 1986 e o filme de 1987. (confira a resenha)
uma história para… quem gosta de cenas fortes, estilo gore, e temas como sadomasoquismo, busca pelo prazer e moralidade.


labirinto

o livro: um romance de A.C.H. Smith, baseado no filme. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Jim Henson, em 1986.
uma história para… quem quer sentir um medo mais leve, numa obra meio tensa, cheia de enigmas e personagens esquisitos. É uma história de aventura e fantasia, com David Bowie no papel do vilão.


menina má

o livro: escrito por William March. (confira a resenha)
o filme: de 1956, dirigido por Mervyn LeRoy. No Brasil, recebeu o estranho título de “A Tara Maldita”.
uma história para… discutir de onde vem a maldade humana: ela é inerente ao ser humano ou é desenvolvida pelo convívio em sociedade? Para isso, nossa protagonista é Rhoda, uma garotinha que esconde muito bem a violência que pratica.


o exterminador do futuro

o livro: escrito em parceria pelo diretor James Cameron, o roteirista Bill Wisher e o escritor Randall Frakes.
o filme: dirigido por James Cameron, em 1984.
uma história para… quem gosta da clássica história de viagem ao passado para mudar o futuro. Aqui, porém, com uma dose a mais de tiro, explosões e corridas contra o tempo.


o homem que caiu na terra

o livro: uma ficção científica escrita por Walter Tevis. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Nicolas Roeg, em 1976.
uma história para… quem quer fugir do óbvio em matéria de extraterrestres. Na história, um antheano (interpretado por David Bowie no filme) é enviado à Terra motivado pela ausência de combustíveis em seu planeta de origem, porém precisará lidar com alguns conflitos da sociedade humana, como o alcoolismo, a ambição e a desconfiança.


o massacre da serra elétrica

o livro: escrito por Stefan Jaworzyn, dissecando o filme.
o filme: dirigido por Tobe Hopper, em 1974.
uma história para… quem gosta de narrativa viscerais, questões controversas e aquele terror puro e simples.


os goonies

o livro: escrito por James Kahn, baseado no filme. (confira a resenha)
o filme: criado por Steven Spielberg e dirigido por Richard Donner, em 1985.
uma história para… sentir a vibe do anos 80, se divertir com um dos grupos de protagonistas mais legais de todos os tempos e celebrar o poder de uma amizade. Um clássico filme de sessão da tarde.


os pássaros

o livro: escrito originalmente por Frank Baker, em 1936 – a edição brasileira é a tradução da versão revisada de 1964. (resenha em breve)
o filme: dirigido por Alfred Hitchcock, em 1963. Nos créditos, Hitchcock diz ter se inspirado em um conto de Daphne Du Maurier, porém ambos foram processados por plágio por Baker.
uma história para… observar os detalhes e se questionar sobre as intenções e motivações dos pássaros: uma força da natureza ou uma manifestação do sobrenatural?


psicose

o livro: escrito por Robert Bloch, em 1959.
o filme: um clássico de 1960 do diretor Alfred Hitchcock.
uma história para… ficar tenso com uma das cenas mais icônicas do cinema de todos os tempos, perceber as minúcias do enredo e tentar descobrir o final antes da hora.


sexta-feira 13

o livro: arquivos de Crystal Lake reunidos por David Grove, com prefácio de Tom Savini, responsável pela maquiagem e os efeitos especiais do filme.
o filme: dirigido por Sean S. Cunningham, em 1980.
uma história para… contar as mortes, sequência por sequência, até chegar em 146.


star wars: a trilogia

o livro: é a reunião dos três volumes de romances inspirados nos três primeiros filmes lançados nos cinemas: o Episódio IV: Uma Nova Esperança, escrito por George Lucas, o Episódio V: O Império Contra-Ataca, escrito por Donald F. Glut, e o Episódio VI: O Retorno de Jedi, escrito por James Khan.
o filme: dirigidos por Goerge Lucas, os três filmes da trilogia clássica foram lançados em 1977, 1980 e 1983, respectivamente.
uma história para… entrar de cabeça, torcer pelo seu lado favorito e sacar todas as referências dispostas em outros filmes, séries, músicas e elementos da cultura pop (e são muitas!).


tubarão

o livro: escrito por Peter Benchley. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Steven Spielberg, em 1975, com roteiro do autor do livro.
uma história para… refletir sobre algumas questões da sociedade (como o papel da segurança pública e do jornalismo), no caso do livro, ou ficar tenso e com medo da música clássica que prenuncia a chegada do tubarão, no caso do filme.


warriors – os selvagens da noite

o livro: escrito por Sol Yurick. (confira a resenha)
o filme: de 1979, dirigido por Walter Hill. Um clássico das sessões da madrugada da Rede Globo.
uma história para… ficar com medo de sair de casa e andar pelas ruas da cidade à noite, com medo de encontrar gangues dispostas a ser violentas sem motivo aparente. Com trama rápida e acelerada, tudo acontece no ritmo intenso e no clima sombrio de uma madrugada qualquer.


M.E.D.O. – Movie Everyday in October
é um projeto criado por mim e pelo Márcio Reis, do leitor97,
com o apoio da editora Darkside Books e dos canais Encrenca em Dobro, Pipoca Musical, Redatora de Merda, Tabatha Belzareno e Zona de Conspiração,
e um monte de participantes lindos no grupo no facebook.


Andre assiste o filme antes de ler o livro.

labirinto – a magia do tempo

Todo mundo que tem um irmão já deve ter se perguntado alguma vez sobre como sua vida seria diferente se fosse um filho único. Às vezes, incomoda ter por perto alguém com quem se é facilmente comparado, ou com quem se é preciso dividir todas as coisas, ou ter alguém para tomar conta quando, na verdade, você não se vê com responsabilidade o bastante para cuidar nem de você mesmo.

Sarah, cansada de precisar cuidar do irmão pequeno sempre que o pai e a madrasta saem de casa, se sente injustiçada e resolve apelar para um livro de couro avermelhado e letras douradas (te lembra alguma edição da DarkSide Books?). No livro, encontra as palavras que precisava – “Rei dos Duendes! Quero que seja assim: Venha e leve esta criança para bem longe de mim!” – ou algo do tipo. E o que ela mais desejava acontece.

Jareth, o Rei dos Duendes, já velho, cansado de estar cercado somente por duendes desorganizados e desatentos e preocupado com quem dará sequência ao seu reinado, leva Toby, o irmão de Sarah, para seu mundo disposto a criar o garoto a vida inteira já com essa missão em mente.

Quando percebe a força de suas palavras, Sarah cai em si, se arrepende e diz a Jareth que ela nem queria tanto assim que o irmãozinho desaparecesse. Tarde demais, ele informa. Porém, generoso (e bem ciente de que ela jamais conseguiria realizar tal feito) oferece que ela busque o garoto em seu grande castelo, depois de atravessar um labirinto tenebroso, em até treze horas. Se este tempo acabar, suas palavras serão seladas como um acordo sem volta e o garoto virará um duende para sempre.


foto-1-labirinto

“Sarah sentiu as lágrimas subindo aos olhos, mas se livrou delas piscando várias vezes. Ela conseguiria.
Não havia limites para o que era capaz de fazer, dada sua determinação (coisa que ela certamente tinha) e sua esperteza (algo que nunca lhe havia faltado até ali, embora admitisse que em apuros mais comuns), e talvez um pouco de sorte (que ela merecia, não é?).
Ela conseguiria, jurou ali, sentada na encosta escura, sem a menor ideia de como dar o próximo passo.


Labirinto é uma daquelas histórias que dá gosto de ler, sempre na expectativa de que algo mais maluco e divertido aconteça. Isto porque o cenário é bastante mutável e sofre várias transformações o tempo inteiro. Dependendo das esquinas que Sarah escolhe virar ou das paredes que ela resolve atravessar, ela pode encontrar tanto um abismo fedorento quanto um jardim onde está acontecendo uma grande festa. Em cada lugar, novos amigos, inimigos, enigmas e desafios a serem resolvidos para que ela continue sua viagem em busca do castelo de Jareth.

O Labirinto também guarda uma série de personagens bem característicos de livros infantis, todos com adjetivos interessantes, aparecendo e desaparecendo ao longo da jornada de Sarah. Batedores que falam, um guarda da ponte que só permite atravessar quem responde seus enigmas, os aloprados Foguentos, as cabeças voadoras dos aloprados Foguentos, um senhor peludo de aparência cavalheiresca, um animal gigante que procura por apego emocional…
É legal ver também como foi criada a versão destes seres no que se diz respeito ao filme. Para isso, a gente pode ver os esboços e ilustrações de Brian Froud. A edição de Labirinto traz algumas páginas com uma galeria de imagens conceituais utilizadas na produção do longa e criação dos bonecos.

Esta edição do livro também traz rascunhos de Jim Henson, o criador dessa coisa toda. O diretor associou seu interesse por mitologia e folclore e seu gosto por jornadas encantadas (como a de Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz) para criar seu segundo filme de fantasia, o sucessor de O Cristal Encantado, também uma parceria com Brian Froud.
Em várias páginas que reproduzem o Diário de Criação de Henson, a gente pode notar que, em seus rabiscos, mesmo tendo consciência de que uma boa história era o que mais importava em um filme, ele preferiu optar por começar criando fichas e descrições de personagens, cenários e dos perigos que apareceriam no meio do caminho de Sarah. Para quem gosta de descobrir sobre métodos de criação e criatividade ou é um fã de Labirinto e quer saber mais sobre como ele foi criado, essas páginas são um grande presente.


foto-2-labirinto

“Sarah tentava descobrir em que ponto deveria ter feito uma escolha diferente.
Era impossível.”


Enquanto Jim Henson e Brian Froud conseguiram criar uma narrativa divertida através de músicas, cores, bonecos e cenários, A.C.H. Smith conseguiu dar uma roupagem gostosa e leve para a história somente através de suas palavras, embarcando no psicológico dos personagens e transmitindo muito bem a essência do universo já criado.
Indicado tanto para aqueles que já são fãs do filme quanto para aqueles que nunca tiveram contato, Labirinto é uma história sobre como nossas escolhas influenciam nosso futuro e como devemos tomar cuidado com o que desejamos, com quem encontramos no nosso caminho e, principalmente, com seres que tem as cabeças soltas do pescoço.


labitintelabirinto – a.c.h. smith (romance), brian froud (galeria de ilustrações) e jim henson (diário de criação) – 272 páginas – darkside books

em 140 caracteres… uma história de aventura e fantasia sobre o poder dos nossos sonhos e sobre ter responsabilidade por nossas decisões.
um livro para… ficar preso e angustiado com a jornada da protagonista, mas também rir com os tiques e características dos personagens ao seu redor.
combina com… corridas contra o tempo, chá e anões.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não fica aloprado quando o chamam de aloprado.

a visita da solidão

o antheano

Anthea é um planeta comumente confundido com Marte, mas que não é Marte. Ele talvez esteja ali, na mesma direção que Marte, e também faz parte do sistema solar (ou você já ouviu falar de algum outro sistema?), mas são coisas diferentes.
Hoje, Anthea sofre com uma ausência drástica de combustíveis – não há mais gasolina, diesel ou qualquer coisa do tipo – mas houve um tempo em que eles tiveram combustível o suficiente para enviar apenas um antheano para a Terra: Thomas Jerome Newton.

Depois de um treinamento pesado, Newton deixou sua esposa, as pessoas com quem ele se relacionava e seu planeta para trás para embarcar numa missão: construir uma nave espacial na Terra e voltar para buscar os de sua espécie que ficaram em Anthea.

O Homem que Caiu na Terra começa assim que este ser estranho pousa na Terra. Disfarçado de humano, ele precisará enriquecer, conseguir o material e a mão-de-obra necessários para sua empreitada. E isso não será difícil já que Newton trouxe grandes ideias e conhecimento do seu planeta, além de ter naturalmente uma inteligência mais aguçada que a dos humanos.

No livro, mais do que acompanhar esta jornada, narrada de uma maneira tão tensa quanto poética, também vemos o que acontece quando um antheano encontra a cumplicidade de uma mulher e desperta a desconfiança de um cientista  – relações que ganham traços melancólicos pelo olhar pessimista do autor, que escreveu esta obra em meio à Guerra Fria e à eminência do fim do mundo.


“Uma espaçonave erguida em uma pastagem do Kentucky, cercada por montanhas outonais e cujo dono era um homem que escolhera viver em uma mansão com uma empregada bêbada, um secretário francês, papagaios, quadros e gatos.
Entre a nave e a casa ficavam a água, as montanhas, o próprio Bryce e o céu.”


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o humano

Por ser um livro de ficção científica e centrado num ser extraterrestre, pode ficar a impressão de que O Homem que Caiu na Terra é um livro sobre a conquista de outro planeta, a busca por recursos naturais e a tentativa de construção de relações interplanetárias. Se formos olhar por um lado, sim, a verdade é que O Homem que Caiu na Terra realmente é isso. Porém, Walter Tevis vai além.

No meio de algumas frases técnicas e jargões científicos típicas deste gênero, entram reflexões sobre do que é feita a nossa identidade e o que nos torna humanos.


““(…) Às vezes, vocês nos parecem macacos soltos em um museu, correndo com facas, rasgando os quadros e quebrando as estátuas com martelos.”
Bryce não conseguiu falar imediatamente. “Mas foram os humanos que pintaram os quadros e fizeram as estátuas.”
“Apenas alguns humanos”, respondeu Newton. “Apenas alguns.””


Primeiro, pela questão aparência. Thomas Jerome Newton precisa esconder seus olhos de gato, se vestir de outra maneira e se portar de uma maneira diferenciada. Mesmo assim, permanece andrógino, impúbere, alto, magro e delicado demais para os padrões de nossa espécie.

Depois, vem a convivência. O alienígena, ainda em Anthea, assistia diversos programas de televisão do nosso planeta, tentando copiar gestos, idioma, sotaque, trejeitos e qualquer pequeno detalhe de nossas linguagem e regras de etiqueta e socialização. Já na Terra, mesmo com uma inteligência bem superior à nossa, se rende a vícios humanos, como o álcool, e exagera na ambição.

Contudo, Newton ainda se sente deslocado. Ele tem um corpo, ele tem habilidades, ele consegue notoriedade pelo seu trabalho no campo científico, mas ainda é solitário.
Ali não existem semelhantes. Fingindo, ele se torna apenas uma cópia dos que estão ao seu redor. E isso não é o suficiente para se reconhecer quando se vê no espelho – nem mesmo quando tira suas lentes ele se enxerga.
Ter sua identidade apagada o torna cada vez mais infeliz.


““Se você fosse de Marte realmente estaria sozinho”, disse Bryce, observando os patos. Se ele fosse de lá, seria como um pato solitário no lago – um migrante cansado.
“Não é preciso.”
“O que não é preciso?”
“Ser de Marte para se sentir sozinho. Imagino que você já tenha se sentido sozinho muitas vezes, dr. Bryce. Se sentido alienado. Você veio de Marte?””


Walter Tevis construiu em O Homem que Caiu na Terra mais do que uma ficção científica sobre um ser de um planeta afastado nos visitando. Criou uma história sobre o que acontece quando nós nos afastamos da nossa essência. A visita da solidão e da tristeza profunda.


capao homem que caiu na terra – walter tevis – 224 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma ficção científica sobre nossos limites, ambições, arrogância e vícios como humanos.
um livro para… sentir umas bad vibes e uma melancolia aguda.
combina com… questões existenciais, respirar profundamente e sentir o ar nos pulmões.
para quem já leu… o documentário HUMAN, do fotógrafo e cineasta Yann Arthurs-Bertrand. em 3 anos, o francês entrevistou mais de 2 mil pessoas em 70 países e 63 idiomas, levantando questões e reflexões sobre nossa condição humana. assista e saiba mais aqui.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

* Ilustração do topo por Igor Frederico.

Andre volta quando se afasta.

mas você vai sozinha?

Não é de hoje (numa época em que youtubers gravam diversos vlogs em Orlando e programas de tv fazem listas de dez restaurantes imperdíveis em Paris) que a gente deseja passar nossa visão de viagens pelo mundo para outras pessoas. Lá nos tempos de navegações e descobrimentos (e antes disso) já se escreviam longas cartas e tratados sobre as impressões de alguém sobre um lugar novo a ser explorado e colonizado.
É comum nesses relatos termos um escritor presente, atuante, protagonista, que caminha pelas ruas de uma cidade e descreve o que vê e o que sente quando vê. Contam sobre pessoas, cenários, comidas, cheiros, costumes como quem vive aquela rotina diariamente – dando dicas fundamentais para quem deseja viajar para o mesmo lugar – mas trazendo um certo encantamento com o diferente no olhar.

Esses relatos, para mim, precisam brincar com os sentidos e esclarecer quem lê sobre os pontos altos e/ou baixos de um lugar, mesmo que indiretamente. São uma chance de convencer o leitor a comprar uma passagem para o mesmo destino na mesma hora ou desistir definitivamente de tentar encarar algumas experiências. Nesse sentido, o Mas você vai sozinha?, de Gaía Passarelli, consegue cumprir muito bem seu papel.

O livro de estreia da escritora de viagem a coloca no primeiro plano de jornadas para Índia, Colômbia, Peru, Escócia e outros destinos, mas também mostra um desejo e uma grande capacidade de observação.
Gaía narra o que acontece quando olha para o outro, se envolve com as pessoas e tenta perceber, compreender e respeitar seus hábitos.
Em Austin, ela cochilou num grande festival. Em Medellín, ela participou de uma cerimônia xamânica. No Parque Nacional do Itatiaia, ela se perdeu e se encontrou.
Ela viaja sozinha e sabe que existem riscos, mas não deixa a insegurança e o medo a dominarem, os perrengues a desanimarem. E vai seguindo por conta própria e se entregando a novas sensações e vivências…


“É uma sensação surreal estar na extremidade de um continente, sozinha, tão longe quanto jamais estive.
Sabia que não era a única pessoa ocidental no sangam, mas com certeza era a única mulher tatuada e de cabelo curto no espaço visível.”

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Quem procura por onde comer, onde se hospedar, quanto custa, as melhores rotas e uma quantidade imensas de roteiros detalhados e dicas específicas pode se decepcionar com o Mas você vai sozinha?, pois ele apresenta um espaço consideravelmente pequeno dedicado a isso. Somente uma ou duas páginas, ao final de cada capítulo.

Porém, o conteúdo deste espaço é muito bem feito e, justamente pelo tamanho reduzido, fornece informações tão gerais quanto importantes e dicas de lugares realmente que valem a pena visitar. Assim, fica até uma liberdade maior para o leitor explorar a cidade e/ou fazer buscas prévias sobre o que realmente o interessa.
Além disso, algumas vezes esta página traz uma playlist feita pela autora para você entrar no clima dos lugares visitados no capítulo. E vale a pena confiar numa ex-Vj da MTV Brasil para isso! As sugestões de músicas (todas disponíveis para ouvir no perfil da Globo Livros no Spotify) trazem de Lou Reed a Yeah Yeah Yeahs, passando por uma lista especial só com músicas do David Bowie.

O mais interessante e original aqui, contudo, são os boxes que encerram definitivamente cada capítulo e que carregam o mesmo nome do livro, “Mas você vai sozinha?”. São dicas particulares para mulheres que querem viajar sozinhas, dando informações sobre a violência, a liberdade individual e o comportamento social dos locais visitados e alguns comentários sobre os cuidados que a viajante deve ter. É uma forma de incentivar e encorajar mulheres a curtirem a própria companhia em qualquer lugar do mundo.
Inclusive, o livro todo tem certo tom de empoderamento feminino. Toda a equipe que trabalhou na produção do livro é de mulheres, algo que aconteceu espontaneamente. Em destaque: a artista Anália Moraes, que fez todas as ilustrações, Babi Souza (do Vamos Juntas?), que escreveu a orelha, e Jana Rosa (escritora) e Sofia Soter (uma das fundadoras da Capitolina), que escreveram os blurbs da quarta capa.


“Vão olhar para você.
O quanto antes você se acostumar à ideia e não deixar isso estragar sua viagem, melhor. Encarar de volta, aliás, é interpretado como um convite.(…)
O segredo é sempre lembrar que você não está em casa, mas numa parte do mundo onde os códigos de comportamento são diferentes dos seus.
O mundo não é o seu quintal.”


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“Nem sempre é preciso ir tão longe para ficar tranquilo com você mesmo, claro. Mas de cima de uma montanha cujo nome até agora não sei com certeza
(Ben Nevis? Glenn Nevis? Faz diferença?),
sem conseguir ver mais de dez centímetros à frente do nariz, por um momento percebia que eu nenhum lugar eu poderia me sentir tão bem.”


Mas você vai sozinha? é como um clássico livro de relatos de viagens, mas com uma voz afetiva, bem-humorada e original explorando o prazer de descobrir novos espaços, pessoas e culturas – e sobre ser descoberto por eles. Cada crônica inspira de uma forma diferente, mas todas deixam a sensação (ou a necessidade) de que é preciso seguir em frente e colocar o pé na estrada.

Viajar sozinho pode parecer deprimente, solitário, perigoso. Porém, essa superfície esconde uma oportunidade ótima de autoconhecimento e amadurecimento.
Pode ser meio desesperador parar pra pensar que não há ninguém conhecido por perto, mas o senso de que é você quem vai tomar todas as decisões, lidar com seus resultados e, por isso, se permitir errar é engrandecedor.
Há um lado positivo em se sentir vulnerável.


medium_1686mas você vai sozinha? – gaía passarelli – 176 páginas – globo livros
em 140 caracteres… um livro menos para dar dicas específicas e mais para contar boas histórias e deixar a vontade de criar sua própria rota.
um livro para… ficar com vontade de colocar o pé na estrada (ou ficar boas horas conversando com a autora, caso não seja desses.)
combina com… alces, lanternas, cervejas e david bowie.
para quem já leu… o livro (e sua adaptação para o cinema, com reese whiterspoon) “livre”, de cheryl strayed, uma outra jornada solitária de uma mulher.

A Globo Livros é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não saberia lidar com o alce.

algumas coisas que sei sobre michel laub

michel
diário da queda

Em uma das cerimônias de passagem da cultura judaica, os garotos adolescentes de treze anos de idade são recepcionados pela sociedade adulta sendo jogados treze vezes para o alto, um grupo o segurando nas quedas, como numa rede de bombeiros. Isto não aconteceu, porém, com João, o único gói numa escola de judeus: em sua décima terceira queda, a rede se abriu e ele caiu de costas no chão.

Mas imagine que não tivesse havido o antissemitismo e dezenas de milhares de judeus não tivessem sido mortos em campos de concentração? E se o ódio de judeus contra não-judeus não tivesse sido alimentado? João teria sido vítima de uma violência de forma sistemática no colégio em que estudava? Ele ainda assim teria ido ao chão em vez de aos braços dos colegas?
O quanto grandes tragédias mundiais podem influenciar o caminhar da vida de uma pessoa? Qual o nível de envolvimento com um acontecimento global você precisa ter para que ele te afete de fato? Essas são algumas perguntas evocadas através dos fragmentos escritos pelo narrador de Diário da Queda, de Michel Laub, que resgata este e outros acontecimentos de sua vida para discutir sobre o poder de uma escolha e tomar uma importante decisão ao final da história.

Os capítulos (ou grandes partes) de Diário da Queda começam com títulos curiosos. “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai”“Algumas coisas que sei sobre mim”. Porém, o conteúdo mostra algo que pode parecer não fazer tanto sentido assim com o título, pelo menos à princípio. Quando diz falar sobre o avô, o narrador fala sobre o pai. Quando diz falar sobre o pai, o narrador fala sobre o “acidente” com o colega de infância.
A vida de todos os personagens se intercalam e falar de um é falar do outro. Em notas numeradas aleatoriamente, mas organizadas numericamente em ordem crescente, o filho conta várias histórias que ouviu durante sua vida e tenta achar conexões e relações de causa e efeito entre elas. A história dessas três gerações é uma só – e ela é a história de Auschwitz.


“Eu imagino o que meu pai sentiu quando estava no hospital, a minha mãe em trabalho de parto, se para ele foi um momento diferente do que é para qualquer pai, se ele teve de fazer um esforço extra para cumprir esse papel, as falas e gestos, as emulações de presença e apoio, as demonstrações externas de carinho, os abraços externos, o sorriso externo para além do fato de que ele talvez pensasse no meu avô,
e acordasse diariamente com medo de repetir o meu avô,
e olhasse diariamente para mim pensando que eu poderia me tornar o que ele era caso ele se tornasse o que foi o meu avô.


laub

a maçã envenenada

Já em A Maçã Envenenada, temos um narrador que sofreu um acidente de carro, viajou para Londres, passou um tempo no serviço militar, viveu um relacionamento tão intenso quanto tóxico e teve uma banda – e consegue organizar tudo isso numa linha do tempo perfeita, observando onde cada decisão foi tomada e onde cada curva foi feita em sua vida. Hoje, é jornalista cultural (para ele, o único resultado possível depois de todas essas atividades do passado).

Em seu trabalho, acaba precisando entrevistar uma sobrevivente de um atentado horrendo, um genocídio em Ruanda. Immaculée Ilibagiza escapou da morte ao passar 90 dias escondida num banheiro com outras seis mulheres, mas perdeu todos os seus amigos, parentes e familiares, assassinados por uma tribo rival.
A entrevista é quase catártica para o narrador (sem nome explicitado, assim como em Diário da Queda), que logo o associa com a vida de Kurt Cobain, que fazia um grande show no Morumbi, em São Paulo, no mesmo dia em que Immaculée precisou se esconder.
Um ano depois, o líder do Nirvana se suicidou. Immaculée, perdida e sem nenhum laço interpessoal relevante, contudo, ainda palestra para beatas e religiosos sobre os dias terríveis que viveu, o poder do bem e a necessidade de mudar o mundo.

De certa maneira, talvez seja mais fácil observar estas relações de causa e efeito dentro de uma mesma vida. A cronologia é mais facilmente verificada e uma única fonte é necessária para confirmar ou negar qualquer informação.
O narrador, entretanto, se confunde e não chega a nenhum resultado quando tenta explicar porque Kurt Cobain (que não deixou mensagens tão claras em várias de suas canções e pode ser enxergado como um “desistente”) é considerado um ídolo até hoje, enquanto Immaculée (que pode ser considerada um exemplo de vida, otimismo e esperança) é creditada apenas por meia dúzia de freiras. Ou ainda, como alguém rico, com fama e uma criança pequena para cuidar pode ter acabado com a própria vida, se uma mulher que tinha todos os motivos para fazer isso não o fez?


“Era inevitável pensar que poderia mudar de endereço e de emprego e passar anos incógnito, e só voltariam a ouvir meu nome se eu morresse e encontrassem o passaporte e a embaixada localizasse a minha família.
Não há frase na agenda sobre a sensação quase absoluta, que às vezes me assustava porque é só estender a liberdade e de um instante para o outro você não tem mais passado, nem sente falta de nada porque é como se nada tivesse acontecido, ou só as coisas que você escolheu, as lembranças boas e inofensivas, e nada do que você disse ou fez a uma pessoa tem consequência porque nunca mais precisará encontrá-la, nem pensar nela, nem imaginar e confrontar o que foi feito dela em outro tempo e outro continente numa vida que às vezes nem parece ter sido a sua.”


michel-laub

michel laub

Os narradores de Michel Laub criam uma narrativa memorialística às vezes lírica, às vezes brutal, às vezes seca, às vezes detalhista. As mudanças de tons, certeiros para cada cena contada, podem dar a certeza de que é tudo real. Eles até se misturam com a vida do próprio autor e trazem figuras históricas e reais, todavia, ambos são amplamente ficção.

Nestes dois livros (e num terceiro, prometido pelo autor, mas ainda não lançado), Laub fala sobre como uma vida interfere na outra, como tragédias globais e tragédias locais estão sobrepostas e como é quase impossível delimitar onde começa uma coisa e termina a outra.
Porque a gente está o tempo todo decidindo e escolhendo e definindo rumos não somente nossos, mas também das pessoas à nossa volta e das pessoas que ainda nem existem. É desgraçante para nossa cabeça pensar nesse tipo de coisa – e é impossível dizer se ter ciência disso muda alguma coisa, nos torna mais ou menos responsáveis. Porque é possível memorar tanta coisa para explicar um acontecimento, um conflito, um desastre, que, às vezes, é mais simples resumir tudo na dúvida.


quedadiário da queda – michel laub – 152 páginas – companhia das letras
em 140 caracteres… uma história sobre grandes tragédias mundiais, pequenas tragédias pessoais e o modo como elas se sobrepõem.
um livro para… pensar em nossas relações familiares e sobre como somos feitos de diversas pessoas.
combina com… glossários, memórias e celebrações de bar mitzvah.

envenenadaa maçã envenenada – michel laub – 120 páginas – companhia das letras
em 140 caracteres… sobre como as noções e os motivos para valer a pena viver são diferentes de pessoa para pessoa.
um livro para… refletir sobre religião, idolatria, doenças físicas e doenças mentais.
combina com… o fruto do conhecimento do bem e mal.
para quem já leu… resta aguardar a adaptação de diário da queda para os cinemas.

 

Andre desconhece as causas e aguarda os efeitos.

*a primeira imagem vem da capa inglesa de diário da queda. 

a literatura é perigosa

Este post é uma colaboração para o projeto da
Revista Pólen para a Banned Books Week.
Para saber mais e acompanhar outros posts temáticos, visite a Pólen ❤ 

 

Imagine que um grupo de crianças acaba perdida numa ilha e precisa aprender a lidar com a natureza e a vida em grupo sem nenhum adulto por perto. Quais problemas poderiam vir disso? William Goulding tentou imaginar essa situação em O Senhor das Moscas, publicado originalmente em 1954.

Num primeiro momento, todos os garotos tentam escolher um líder para si, usando a democracia e o voto direto como uma forma de definir os próximos rumos a serem seguidos. Um personagem significaria a liberdade e outro o autoritarismo. Contudo, novos dilemas aparecem e as crianças precisam aprender a colher, caçar, criar suas próprias instituições de fé ou religiosas e se render de certa forma a instintos violentos que não haviam sido desenvolvidos na antiga vida delas, na Inglaterra. Polêmico ao questionar de onde vem a maldade e a violência, O Senhor das Moscas figura ainda hoje na lista dos livros mais frequentemente contestados da Associação Americana de Bibliotecas.

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Porém, este banimento não impediu o livro de ser bastante discutido e inspirar e se tornar referência para outras obras. No livro Fábrica de Vespas (1984), de Iain Banks, por exemplo, temos um garoto vivendo numa ilha remota e criando seu próprio estilo de vida. Apesar de ter um pai, irmão e outros membros da família presentes na história, o autor vai usar uma alegoria bem interessante para permitir que Frank se torne livre para criar seus próprios valores, leias e regras: ele não tem registro de identidade ou certidão de nascimento; ele não assinou nenhum contrato social e pode se manter alheio a ele.

Já em Nada (2000), de Janne Teller, novamente temos um grupo de crianças se tornando violentas e obsessivas devido às circunstâncias. A autora mostra que a inocência infantil não é como a maioria das pessoas parece pensar e que as crianças devem nutrir quase tantos pensamentos negativos quanto os adultos – entretanto, ainda não tem um quadro moral sofisticado para colocá-los. No livro, alguns garotos tentam provar para um colega niilista que há algum sentido na vida, confrontando suas próprias vidas e criando uma pilha de objetos que tem significados para pessoas da vizinhança.

É curioso perceber como mesmo um livro com uma narrativa brutal e crua e que carrega um selo de banido, como O Senhor das Moscas, continua reverberando na cultura pop e influenciando novos autores e histórias. A literatura amplifica opiniões, favorece a transmissão de ideias, cria relações entre as pessoas, edifica diálogos, alimenta polêmicas.

Então, imagine o quão perigoso pode ser usar esta ferramenta para dar voz a quem não tem e criar o consenso de que todas as pessoas, independente de qualquer coisa, merecem espaço, consideração e respeito?


 

Andre nunca foi banido de nenhuma biblioteca.