confissões

Por uns anos toda a família da minha mãe morou no litoral capixaba. Por causa do conforto, a gente sempre ficava na casa dos meus avós, o que me incomodava um pouco porque (apesar das ótimas refeições proporcionadas) uma casa onde vivem apenas pessoas idosas nunca parecia a melhor opção de férias para uma criança entediada ou um adolescente meio chato.

Então, eu sempre saía de lá depois do almoço e atravessava sozinho umas ruas para chegar à casa dos meus primos. Escrevendo agora me veio uma certa saudade de ficar a tarde inteira por lá, sem ver a hora passar, me divertindo e me enchendo de açúcar – e voltar pra casa meio emburrado por minha mãe ter ido me buscar cedo demais.
Eles tinham videogame, internet, jogos de tabuleiro, acesso livre a uma locadora de dvds e uma mãe que cozinhava besteiras e fornecia biscoitos, sorvetes e outras coisas industrializadas as quais nunca tive muito acesso em casa. Não lembro se eu tinha um ranking para tias preferidas na época, mas, se eu tivesse, ela estaria muito bem posicionada nele.

O tempo passou e essa família (esses primos, essa tia) se mudaram para a cidade onde eu morava. Isso poderia ter feito nosso contato aumentar, mas curiosamente a gente acabou se afastando. Nunca fui à casa nova deles e lembro de uma única visita deles à minha. Eram meses sem notícia, até que a gente se esbarrava em algum almoço de família, nos atualizávamos sobre nossas vidas e tudo seguia em frente. A cada encontro, um choque: meus primos cada vez maiores, minha tia cada vez mais abatida.


Esta é a segunda vez que eu volto para a cidade onde eu nasci por causa de uma morte. Apesar de que, desta vez, vim por uma quase morte (ou pelo aviso de que ela não iria demorar a chegar).
Essa tia, que há meses convivia com uma doença e sofria com dores físicas e com depressão, ou viria a óbito por causa do câncer ou pela cirurgia que precisava fazer.
A família já estava avisada. Ela já estava avisada.
Eu voltei para a cidade com a intenção e a angústia de esperar – e imagino o quanto a espera e angústia dela era ainda maior.


“Nunca é cedo demais para começar a pensar na própria morte e na morte das pessoas que você ama.
Não quero dizer pensar na morte em ciclos obsessivos, com medo do seu marido ter sofrido um acidente horrível de carro ou do seu avião pegar fogo e despencar do céu. Mas uma interação racional, que termina com você percebendo que vai sobreviver ao pior, seja lá qual for o pior.”


confissoes

Fitar a morte nos olhos não é uma tarefa fácil. Incomoda e pode ser uma tragédia horrível. Ser humano é ter consciência da nossa mortalidade, por mais que a todo momento procuremos negar isto e desviar o olhar. Perceber que você é mortal e que as pessoas que te cercam podem te deixar a qualquer momento traz uma sensação inquietante.
Para alguns, isto funciona como um motor. Para outros, soa fatalista e provoca um desespero por mudar de assunto.

Esta segunda reação é provavelmente um sintoma de uma cultura que evitar o tempo todo pensar nisso. Enquanto para alguns povos envelhecer significa adquirir experiência, para uma cultura moderna ocidental isto é algo feio. Fios brancos no cabelo, marcas de expressão, rugas, tudo precisa ser escondido, refeito, cirurgicamente removido. Até mesmo nossos mortos são embalsamados, disfarçados e maquiados para parecerem mais vivos. A gente tem um pavor de se aproximar do fim da vida.
A gente não encara a morte como deveria, como algo natural.

É essa a questão que Caitlin Doughty discute e aprofunda em seu livro de memórias, Confissões do Crematório. Com um tom leve e honesto, ela reflete sobre a visão da morte em diversas culturas do mundo, tanto no passado quanto no presente, procurando afirmar o quanto ela ainda precisa ser naturalizada e vista como algo inerente a nós.

Caitlin observava a morte de perto diariamente quando trabalhou numa empresa funerária e esclarece no livro vários conceitos desta indústria.
Em uma das passagens do livro, por exemplo, ela apresenta a tribo dos Wari’, que pratica canibalismo com seus mortos por acreditarem na destruição total do corpo, e os monges tibetanos, que entregam seus corpos a abutres por crerem que a carne pode alimentar outros seres depois que a alma já os deixou. Então, ao comparar estes costumes com o nosso ato de perfurar os intestinos de alguém com um longo trocarte prateado, para embalsamar o corpo e adiar a decomposição do corpo, a gente percebe que esta é uma prática vazia de significado e crença. Ela não traz consolo. Ela apenas parece estar roubando a morte de nós.

E Confissões do Crematório segue assim, utilizando uma linguagem sincera, descrições realistas, uma pesquisa profunda e, acima de tudo, histórias reais – são relatos, segredos e curiosidades dispostos de uma maneira muito cuidadosa e delicada, expostos não para chocar, mas para levantar reflexões e trazer lições sobre o tema.

Pra ajudar a compreender nossos rituais e tirar o caráter sombrio da morte. 


“Aceitar a morte não quer dizer que você não vai ficar arrasado quando alguém que você ama morrer.
Quer dizer que você vai ser capaz de se concentrar na sua dor, sem o peso de questões existenciais maiores como “Por que as pessoas morrem?” e “Por que isso está acontecendo comigo?”.
A morte não está acontecendo com você.
Está acontecendo com todo mundo.”


A sensação de esperar a morte chegar, como vivi essa semana, é bastante aflitiva. Eu fiquei triste, mas tentava internalizar que era o melhor a acontecer nesse momento, que ela interromperia o sofrimento de alguém especial e era a ordem natural das coisas. Ainda assim, fiquei abalado e comovido quando recebi a notícia de que ela havia acontecido.

Porque fitar a morte nos olhos não é mesmo nada fácil.
Mas proclamar que o fim é parte da existência faz você se lembrar que a vida não pode ser banalizada.


capaconfissões do crematório – caitlin doughty – 257 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um livro de memórias marcante e sensível, sobre um assunto universal: a morte.
um livro para… entender a morte em diversas culturas do mundo, conhecer a indústria funerária americana e apreender diversas lições em todo esse processo.
combina com… apertar botões, realizar rituais e deixar queimar.
para quem já leu… acompanhar o ask a mortician, o canal da autora no youtube, é uma forma de ficar pensando no assunto por mais tempo.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não colocou as vendas de volta.

em algum lugar nas estrelas

Quando o pai de Jack saiu para servir no exército durante a guerra, Jack tinha nove anos e sonhava com o dia em que ele voltaria, daria um beijo forte em sua mãe, bagunçaria seu cabelo e tomariam um sorvete feito em casa.
Quando o pai voltou, entretanto, foi para o funeral da mãe. Não houve beijo, nem bagunça, nem sorvete. Os dois, estranhos um para o outro, encheram a casa de silêncio e se separaram aí, quando Jack, com treze anos de idade, foi deixado num colégio interno só para garotos.

É desse ponto que parte a viagem de Em Algum Lugar nas Estrelas.
Entre garotos adolescentes, caixas, quadros de aviso, aulas de latim e competições de regatas: era ali que Jack precisaria superar o luto e lidar com a morte da mãe. Distante do interior do Kansas e da segurança e firmeza de tudo que ele conhecia como mundo e perto de toda a ondulação do mar e areia fofa do Maine.


” – Está passando para a parte da navegação cedo demais.
Talvez deva se concentrar na beleza daquelas estrelas lá em cima, em vez de só pensar na função delas. Olhe para elas, admire-as, deixe que o fascinem, antes de esperar que elas o guiem.”

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Dentre todos os garotos que Jack conhece, um acaba saltando aos seus olhos. Early Auden. Um garoto pequeno para sua idade, introvertido, que acredita que existem cascavéis no norte, perdeu o irmão mais velho para a guerra, acalma as pessoas com o ruído branco das vitrolas e tem toda uma dinâmica própria para ouvir música. Mozart para os domingos, Louis Armstrong às segundas, Frank Sinatra às quartas e Glenn Miller às sextas. Terças, quintas e sábados são dias sem música. A não ser que esteja chovendo. Se está chovendo, independente do dia, é dia de Billie Holiday.

Earl também tem uma habilidade especial. A dádiva de ver números com cores, formas, tamanhos e texturas diferentes. Com sua mente operando de uma maneira diferente, ele consegue enxergar o número pi como uma história. O número 1 é Pi e os outros números são a história dele. Começando pelo número 3, sua mãe, bonita e bondosa, e o 4, seu pai, forte e bom. Nos outros números, Earl enxerga o mar, ondas, vulcões, estrelas, amigos, vilões e um infinito de outras alegorias.


“Enquanto olhava pela janela para o céu sem lua, revia mentalmente os eventos do dia. (…)
Mas, principalmente, lembrava a sensação de estar perdido, incapaz de determinar em que direção seguir. Olhar pela janela era como encarar um oceano profundo, e eu me imaginei flutuando, boiando à deriva sob um céu sem estrelas.”

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A história de Pi acontece em outro tempo, antes das estrelas terem nomes, de os homens saberem como usá-las para traçar caminhos, antes das grandes aventuras e navegações. Intrigado, Pi olhava fascinado para as estrelas, as admirava e, sobretudo, se perguntava “por quê?”. Com essa pergunta (ou todas as perguntas do mundo) ardendo no peito, ele resolve sair de casa, seguir a Ursa Maior e procurar por um motivo para tudo, descobrir seu lugar no mundo, conquistar seu próprio nome.

Em sua viagem, Pi vai precisar enfrentar diversos perigos, como um labirinto, marés cheias e violentas e um rio de lava incandescente. Contudo, todos estes obstáculos são apresentados como parte de uma jornada de auto-descobrimento. Pi está disposto a tudo para se tornar alguém mais sábio e que possa responder as perguntas que o despertaram.
Lotada de poesia, a história de Pi poderia ser uma quebra na narrativa (como acontece em alguns livros que optam por múltiplos pontos-de-vista), não fosse por todos os símbolos que completam a trama de Jack e Earl inseridos ali. Enquanto os capítulos se intercalam, a gente vai percebendo as pequenas metáforas que a autora, Clare Vanderpool, criou. Ao ligar os pontos, como estrelas em constelações, é impossível não se encantar com toda a expressividade que a imagem formada carrega – esta história dentro da história é como uma forma de resguardar Earl do mundo real ao mesmo tempo em que o encoraja.


“Chovia,
por isso eu sabia que o disco de Billie Holiday estava rodando na vitrola.
Sabia que a oficina de Early era quente e convidativa. Sabia que tinha sanduíches de pasta de amendoim prontos.
E sabia que Early estava lá.
Eu não estava sozinho.”

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Isso porque a história de Pi é aquilo que guia Earl, de certa maneira. Quando um professor suscita em Jack a dúvida de que o número pi não é infinito, Earl se coloca em um barco com o amigo para provar para ele que a história não pode ter um fim.
Em vários pontos fica claro que Em Algum Lugar nas Estrelas é um livro sobre amizade, companheirismo, lealdade, amor, confiança… Já, para mim, esta relação bonita de Earl com a narrativa (ou com a ficção, os romances, a literatura…)  é o que mais me chamou a atenção e me fez gostar tanto.

A gente vive num mundo onde tudo precisa ser útil, produtivo, trazer um resultado, um lucro, e por isso acaba rejeitando bastante a arte. Literatura, cinema, música: é tudo perda de tempo. A gente para tudo enquanto poderia estar fazendo alguma coisa de verdade.
Mas aqui fica clara a função da arte nas nossas vidas. Ela pode nos guiar em nossa própria jornada.
As histórias de pessoas que vieram antes de nós ou daquelas pessoas que fizeram parte da imaginação de alguém podem nos motivar, nos ensinar, nos ajudar a nos entender, a entender o mundo, a conquistar nosso caminho e nosso próprio nome. E, mesmo que nunca tenha pensado em navegar ou descobrir constelações ou procurar grandes ursos, em livros como Em Algum Lugar nas Estrelas, a gente consegue apreender os porquês do nosso mundo.


capaem algum lugar das estrelas – clare vanderpool – 288 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma história sobre encontrar seu caminho, um amigo para te acompanhar e suspender sua descrença diante das histórias das outras pessoas.
um livro para… sentir vontade de estudar constelações, pegar um barquinho e seguir por uma longa extensão de água.
combina com… chuva, poesia, billie holiday e balinhas coloridas.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não tem mais mãos transparentes.

o último adeus e a depressão do outro

O Último Adeus

Escrever esse livro não foi ideia da nossa protagonista. Foi ideia do seu terapeuta, que queria que ela começasse a se abrir mais sobre como foi conviver com o irmão, na esperança de que isso a ajudasse a superar a perda dele. Ty, o irmão, cometeu suicídio em dezembro e agora, em fevereiro, Lex começa a registrar num caderno moleskine alguns momentos que partilhou com ele. O dia em que ela descobriu que ganharia um irmão, quando eles precisaram passar juntos pela separação dos pais, o modo como ele a encorajou a ir ao baile de formatura do colégio, a última vez que o lembra de ter visto…

Algumas lembranças são felizes, outras são tristes, mas todas elas, quando transformadas em realidade no papel, acabam, de alguma maneira, ajudando Lex a organizar melhor seus sentimentos e a vivenciar o luto.

Mas a vida da jovem não parou depois da morte do irmão. Tudo precisava continuar, então a história de Lex também se passa fora do diário, onde ela narra o que tem acontecido por esses dias e como as coisas estão diferentes depois do que aconteceu. A relação com os pais, a vida no colégio, as consultas com seu terapeuta, os amigos, os professores, o ex-namorado e todas as outras pessoas que não sabem mais como agir perto dela (que ou tentam fingir que nada aconteceu ou escolheram se afastar da garota) e também a relação consigo mesma e com a imagem que havia criado do irmão. Lex tenta ligar os pontos que sabia sobre o irmão para descobrir por quais problemas Ty passava, porque ele achara que o suicídio era a melhor solução e como ela se encaixa nisso tudo (ela tem, afinal, alguma culpa do que aconteceu?).

É assim que O Último Adeus vai se desenrolando, alternando os estilos de narração no tempo, e tratando do sentimento da dor e da superação do luto de uma maneira bem honesta. Não há uma romantização do sofrimento ou da melancolia. Cynthia Hand, a autora, deixa bem claro o quanto é difícil encarar um lugar vazio na mesa de jantar, visitar um painel de fotos, notar as marcas de sangue no chão da garagem. Enquanto a maior preocupação das outras pessoas de sua idade é sobre para qual faculdade aplicar suas notas, ela precisa saber como lidar com uma mãe que se rendeu ao alcoolismo para escapar da dor de ter um filho morto. E Lex se pergunta porque ela precisa passar por isso.


“Sinto saudade sinto saudade sinto saudade.
O buraco no meu peito explode. Não consigo respirar não consigo respirar.”


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foto por Anna Schermak
Desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio.

Depois do divórcio dos pais, enxergando a família ruir, Ty tentou se matar pela primeira vez, mas seu plano acabou não se concretizando. Impedido, sua vida seguiu sem muitas considerações sobre o assunto, ele passou a se dedicar mais aos esportes, se encontrava semanalmente com o pai… Ty tentou ignorar tudo que havia de errado e lidar sozinho com todo o peso daquela situação. Tudo parecia bem, mas não estava.

Depois de pregar um post-it num espelho, Ty seguiu para a garagem da casa e atirou no próprio peito. A única mensagem que deixou, “desculpa, mãe, mas eu estava muito vazio”, é de uma crueza impressionante e traz à tona a depressão como um tema do livro.

A sensação de vazio talvez seja uma das mais particulares quando se trata do diagnóstico da depressão. Esta é uma doença que desequilibra as químicas do cérebro e leva a pessoa a uma situação onde toda a energia, toda a alegria, todos os motivos válidos para se fazer qualquer coisa que comumente teríamos vontade (como sair de casa, sair da cama, se alimentar…) acabam sendo sugados por algo como “um buraco negro”. A pessoa se sente realmente esvaziada, tomada apenas por uma tristeza profunda.

Para saber mais sobre depressão: como identificar, combater e buscar ajuda, no especial O Último Adeus, no blog da Anna Costa.


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foto por Anna Costa
A depressão do outro

Durante o livro, Lex se culpa pelo que havia dentro do irmão e pelos rumos que essa situação tomou — e a escrita da Cynthia Hand é tão boa que deixa esta situação bem crível e conseguimos sentir a sensação de impotência da protagonista.

Porém, é preciso deixar claro que quando falamos de depressão, ela não é culpa da própria pessoa e nem de nenhuma das pessoas por perto. Não é uma simples situação onde a pessoa está chateada com algo que foi feito e ninguém ficará deprimido apenas porque houve uma discussão, uma briga. O que acontece é resultado de um conjunto de fatores e a propensão da pessoa a desenvolver a depressão.

Em vez de se sentir culpada pela situação, o ideal é pensar em como pode ajudar: ofereça um ombro para que a pessoa possa desabafar e procure ouvir os sentimentos de quem está passando por este problema, sem julgamentos; não tente reduzir a gravidade da doença dizendo “não fica assim” nem procure forçar a pessoa a fazer coisas que ela não tem vontade de fazer nem que normalmente faria; esteja por perto para um programa calmo, como uma tarde vendo um filme, sem muita conversa ou expressões físicas de afeto; mostre que se importa mesmo que a pessoa se afaste de você nesse período e lembre-se que isto nem sempre é uma escolha consciente, pois tudo está bem bagunçado na cabeça do outro.

Além de não se culpar, também lembre-se que a cura também não deve vir somente de você. Quando há um envolvimento maior com a pessoa com depressão, pode ser difícil reconhecer nossos limites no processo porque a vontade de se doar ao outro é enorme. O amor nos encoraja a carregar o peso da dor do outro. Contudo, de maneira geral, a pessoa com depressão precisa de tratamento e acompanhamento profissional especializado. Encoraje a pessoa a procurar esta ajuda externa e converse com outras pessoas próximas quando observar sinais de que alguém pode estar com depressão. Você é apenas uma parte da recuperação, apesar de seu apoio poder ser fundamental para que ela aconteça mais rapidamente.


ultimoo último adeus – cynthia hand – 352 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma narrativa sensível e emocionante sobre dor, luto, depressão e o cuidado com o outro.
um livro para… repensar algumas atitudes no trato com as pessoas que vivem perto da gente.
combina com… desabafo, memória e músicas tristes.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

* Ilustração de capa por Ana Teixeira.

Andre abraça a saudade.

noiva fantasma

Quem esbarra num livro da Darkside pode esperar um pouco de terror, suspense ou ação. Porém, a coleção Darklove mostra que a editora também tem um lado sentimental e emotivo. Em A Noiva Fantasma, por exemplo, minha segunda experiência com a coleção (a primeira, O Circo Mecânico, já apareceu aqui), até encontramos alguns espíritos e assombrações, mas a trama central é uma busca por liberdade e amadurecimento.

O romance de estreia de Yangsze Choo apresenta Li Lan, uma jovem malaia que está observando de perto o dinheiro da família acabar, alguns bens serem vendidos, os empregados de sua casa serem demitidos… Contudo, esta situação está prestes a ser contornada quando ela recebe uma proposta de casamento com Lim Tian Ching, um rapaz de família rica e conceituada. Existe, porém, um detalhe que muda toda a história: o noivo está morto.


 

“Pensar no morto me trazia uma sensação opressiva,
como se o ar fosse arrancado de meus pulmões.”


 

A prática de arranjar o casamento para uma pessoa morta nos moldes do que acontece em A Noiva Fantasma era rara mesmo em 1893, quando se passa o livro, e costumava ser feita para aplacar um espírito – no caso de Lim Tian Ching, ele foi supostamente assassinado e ainda busca contatos com os vivos, principalmente a mãe, que sempre o mimou. Em troca, a noiva recebe um novo lar e estabilidade para toda a vida. Já viúva, as finanças são garantidas por uma herança ou um acordo anterior.


 

“Parecia absurdo e injusto que os espíritos sofressem daqueles tormentos da carne, não tendo nenhuma.
Mas, talvez nisso estivesse todo o sentido da vida após a morte.”


 

Pensar num casamento assim pode parecer o que há de mais diferente da nossa cultura, mas os relacionamentos orientais da época diferem em outros pontos. Yangsze Choo também vai falar da mistura do casamento por conveniência com uma noiva e por amor ou atração física com uma segunda ou até terceira mulheres. Os moldes familiares diferentes acabam criando teias diferentes e inusitados de parentescos numa mesma casa.

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“Eu chorara, antes, quando sentira tristeza por minha situação,
mas agora percebia estar chorando de puro terror.”


 

Li Lan não quer se casar com Lim Tian Ching e, por isso, passa a ser assombrada por ele. Esse incômodo é o que a faz procurar ajuda para tentar mudar sua situação, ingressando numa jornada bastante profunda onde se descobrirá, amadurecerá e encontrará o seu modelo de noivado ideal, aquele por amor.

A partir disso, o romance se torna algo diferente sempre: personagens, cenários e conflitos aparecem e desaparecem ao longo da trajetória da protagonista. (Inclusive, precisei de uma certa atenção para não me perder no meio de todos os nomes e sobrenomes chineses, com sonoridades parecidas.) A cultura chinesa, malaia e oriental, porém, é um ponto comum de todo o enredo.


 

“Malaia era cheia de fantasmas e superstições,
das muitas raças que a povoavam.”


 

O pai de Li Lan sempre foi bastante cético em relação às substâncias espirituais e, mesmo tendo contato com uma amah supersticiosa, a garota desconhecia boa parte do que estava por vir em seu caminho. Então, assim como Li Lan passa a descobrir as crenças do seu povo, nós somos levados para este mundo.

Estar imerso em concepções distintas de destino, sorte, corpo, espírito, vida, morte e o que há depois da morte é o que fez de A Noiva Fantasma algo tão rico para mim. Uma experiência tão curiosa quanto A Planície dos Mortos ou seres mágicos escamados.


 

a-noiva-fantasma-yangsze-chooa noiva fantasma – yangsze choo – darkside books – 360 páginas

em 140 caracteres… uma jornada sobrenatural em busca do amor e de auto conhecimento.
um livro para… conhecer mais da cultura oriental e das noções que eles tem de vida, morte e o que dá depois de tudo.
combina com… aquela melancolia que fotos do passado guardam.

A Darkside Books é parceira do blog – mas, independente disso, esta resenha exprime minha opinião sincera sobre o livro. Você pode ver todo o catálogo da editora aqui e acompanhá-la no facebook, no twitter e no Skoob.

 

Andre não conseguiu fazer o origami.

o que há por trás da pele

Corvos esvoaçam em torno de uma ovelha morta, aberta, desmembrada, com as vísceras para fora. Sua dona logo desconfia que as mutilações terríveis são culpa de alguns adolescentes que sempre estão cercando sua propriedade. Mas ela não consegue provar muita coisa. Assim, a narrativa segue e a gente começa a perceber que os verdadeiros segredos e mistérios de Onde Cantam os Pássaros não estão nessa trama que apenas aparenta ser o principal.

É no passado de Jake Whyte, uma fazendeira com medo de tecer relações com outras pessoas, que um drama mais profundo e aterrorizante se esconde. Uma protagonista bem construída e com características condizentes com sua realidade: muitos pensamentos, poucas palavras e nenhum amigo.


 

“A casa está tentando parecer normal,
mas sei que há algo às minhas costas que não consigo ver.”


 

O livro de Evie Wyld é mais um desses que não permite grandes sinopses. Um detalhe a mais do que há nesta pequena ilha na Inglaterra já pode estragar a história para alguém averso a spoilers. E autora também não parece muito preocupada em dar grandes informações. Várias lacunas são deixadas propositalmente, principalmente no desfecho que alguns podem considerar abrupto, raso ou mal escrito. Para mim, foi um desfecho interessante, que me provocou e me incentivou a criar minhas próprias respostas. E, bem, não há nada de errado em retornar algumas páginas, reler e se sentir um pouco sonso.

Densa e complexa, a trama de Onde Cantam os Pássaros nos envolve ao mesmo tempo em que nos tira do lugar. Algumas cenas soam como sussurros, outras gritam informações claras e ainda temos alguns momentos de silêncio que não sugerem coisa alguma. A atitude de preencher estes espaços é o que nos faz leitores.

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foto por pausa para um café.

As descrições da violência, do pessimismo ou dos pensamentos melancólicos e solitários que permeiam o texto são muito cruas e afastam o leitor da zona de conforto, despertando para um clima frio na história. Simultaneamente, atiçam a curiosidade e nos prende numa teia intrincada de acontecimentos no presente e no passado.

O tempo aqui funciona como um caleidoscópio, brincando com os sentidos e os verbos. Os capítulos ímpares caminham do presente para um futuro próximo, enquanto os capítulos pares vão de um passado antigo para um passado ainda mais antigo. Com ordens contrárias, movimentos distintos, como se fossem provocar um choque ou um trauma a qualquer momento.


 


 

“Eu sinto esperança aqui.
Mesmo nos momentos em que fico de olho no céu, procurando por aviões, penso que não tenho do que reclamar, porque
já foi pior, muito pior,
e nós dois rimos naquela noite, e bebemos cerveja, e Kelly ficou lá fora, sentada na terra e abocanhando suas moscas.
Tenho um último Holiday no maço escondido dentro do bolso do meu jeans, junto a uma caixinha de fósforos. Deixei-o escondido e penso nele constantemente, esperando pelo momento em que ele seja mais necessário.
Isso faz com que eu me sinta melhor, saber que ele está lá.”


 

Perturbadora, a leitura de Onde Cantam os Pássaros afronta o leitor – e isso é incrível. Uma experiência única e que, recomendo, deve ser experimentada por todos já que não dá para explicar e nem se deixar levar por uma resenha que tenta explicar como essa.


 

onde_cantam_os_passaros_1434922181440209sk1434922181bonde cantam os pássaros – evie wyld – 256 páginas – darkside books
em 140 caracteres… não é uma história perturbadora, mas uma experiência perturbadora.
um livro para… pensar, mastigar e digerir algumas pessoas!
combina com… aquele sentimento de que a releitura será totalmente diferente!

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Andre tem cicatrizes na mão.

 

 

*ilustração do topo por hadley hooper, para a bostonglobe.

respeitável público…

Uma guerra acaba por devastar o planeta. Os únicos sobreviventes devem viver em um espaço precário, com mínimas condições de sobrevivência. Dispostos a sobreviver sob qualquer preço, várias pessoas buscam nO Circo Mecânico Tresaulti uma nova chance. A proposta do circo é passar por todos os lugares da Terra, conhecer mais espaços e levar algum entretenimento para os povos mais distantes, pelo menos aparentemente (ao longo da leitura, percebemos alguns segredos relacionados ao fato de não repetirem as cidades por longo tempo).

Os integrantes do circo se tornam pessoas quase invencíveis. Isto porque Boss, quem gerencia o grandioso Circo Tresaulti, modifica o corpo de todos que passam pela companhia. Seus ossos, articulações, membros… Tudo isto é substituído por peças de cobre, ferro, engrenagens, canos – na maioria das vezes, para encobrir os sinais de uma guerra nos corpos de combatentes. Depois de passar pela Oficina, uma dívida praticamente eterna acomete os novos integrantes do circo, que percebem que suas vidas estão diretamente ligadas ao Circo. Porém, devido aos integrantes bizarros, operações no corpo e grande movimento que a chegada da trupe sempre causa, a curiosidade de um homem capaz de tudo para ter o quer será despertada.


 

“A tecnologia naquela época era armas e sinais de rádio; as pessoas precisavam lembrar-se da arte da máquina.”


 

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Uma das coisas mais bacanas de O Circo Mecânico Tresaulti são os personagens. Todas as características mecânicas que eles ganham enriquecem a trama pela criatividade e inovação. Um homem que recebeu asas, um outro que recebeu um pulmão, trapezistas que flutuam por terem ossos vazios… Genevieve construiu um verdadeiro circo de atrações que nos cativam desde a primeira apresentação até a última.

A história mistura fatos do passado com os fatos do presente, onde as pontas vão se amarrando aos poucos. Porém, o livro acaba e você não descobre claramente o motivo do planeta estar como está. Uma guerra e ok. Não é algo que prejudique a experiência geral se você se sente confortável com o gênero fantasia, vale dizer. Até porque todos os traços de humanidade dos personagens e a ambientação completam bem esta lacuna.

A narração é feita por dois personagens, se alternando: em primeira pessoa, George, ajudante de Boss, nos mostra, em capítulos curtos, o que está acontecendo no Circo; Em outros momentos, a narração é dada para uma terceira pessoa, que coloca um pouco de seus pensamentos na história do passado, presente e futuro deste picadeiro. Nós também fazemos parte desta história, quando o personagem Você recebe ordens e executa ações próprias. Em tempo não-linear, a escrita de Genevieve pode parecer confundir, mas é algo que passa antes da primeira metade da história.

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Mais elogios: DarkSide Books! Não tem como deixar de observar o capricho que a editora tem, tanto na capa (que condiz com a história e nos apresenta um pouquinho da narrativa sem falar demais) quanto no restante do conteúdo (um monte de ilustrações belíssimas recheiam as páginas, contra-capas e outros espaços do livro). Mas isso vocês já imaginavam 😉

Falando sobre ambição, esperança e tudo o que nos faz humanos, O Circo Mecânico Tresaulti é uma obra original e criativa, recomendada para todos os públicos. Até porque todos nós gostamos de circo – mesmo que com alguns detalhes sombrios.


 

114023358szo circo mecânico tresaulti – genevieve valentine – 320 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um livro deslumbrante, que apresenta a arte num futuro desolador, através de personagens fantásticos e muito bem construídos.
um livro para… pensar nas nossas formas de entretenimento diante da miséria, mas de como o mundo consegue criar beleza sempre, em quaisquer circunstâncias.
combina com… chá quente e canções mambembes.

A Darkside Books é parceira do blog. Conheça todo o catálogo da editora aqui e os acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre já quis fugir com o circo.