confissões

Por uns anos toda a família da minha mãe morou no litoral capixaba. Por causa do conforto, a gente sempre ficava na casa dos meus avós, o que me incomodava um pouco porque (apesar das ótimas refeições proporcionadas) uma casa onde vivem apenas pessoas idosas nunca parecia a melhor opção de férias para uma criança entediada ou um adolescente meio chato.

Então, eu sempre saía de lá depois do almoço e atravessava sozinho umas ruas para chegar à casa dos meus primos. Escrevendo agora me veio uma certa saudade de ficar a tarde inteira por lá, sem ver a hora passar, me divertindo e me enchendo de açúcar – e voltar pra casa meio emburrado por minha mãe ter ido me buscar cedo demais.
Eles tinham videogame, internet, jogos de tabuleiro, acesso livre a uma locadora de dvds e uma mãe que cozinhava besteiras e fornecia biscoitos, sorvetes e outras coisas industrializadas as quais nunca tive muito acesso em casa. Não lembro se eu tinha um ranking para tias preferidas na época, mas, se eu tivesse, ela estaria muito bem posicionada nele.

O tempo passou e essa família (esses primos, essa tia) se mudaram para a cidade onde eu morava. Isso poderia ter feito nosso contato aumentar, mas curiosamente a gente acabou se afastando. Nunca fui à casa nova deles e lembro de uma única visita deles à minha. Eram meses sem notícia, até que a gente se esbarrava em algum almoço de família, nos atualizávamos sobre nossas vidas e tudo seguia em frente. A cada encontro, um choque: meus primos cada vez maiores, minha tia cada vez mais abatida.


Esta é a segunda vez que eu volto para a cidade onde eu nasci por causa de uma morte. Apesar de que, desta vez, vim por uma quase morte (ou pelo aviso de que ela não iria demorar a chegar).
Essa tia, que há meses convivia com uma doença e sofria com dores físicas e com depressão, ou viria a óbito por causa do câncer ou pela cirurgia que precisava fazer.
A família já estava avisada. Ela já estava avisada.
Eu voltei para a cidade com a intenção e a angústia de esperar – e imagino o quanto a espera e angústia dela era ainda maior.


“Nunca é cedo demais para começar a pensar na própria morte e na morte das pessoas que você ama.
Não quero dizer pensar na morte em ciclos obsessivos, com medo do seu marido ter sofrido um acidente horrível de carro ou do seu avião pegar fogo e despencar do céu. Mas uma interação racional, que termina com você percebendo que vai sobreviver ao pior, seja lá qual for o pior.”


confissoes

Fitar a morte nos olhos não é uma tarefa fácil. Incomoda e pode ser uma tragédia horrível. Ser humano é ter consciência da nossa mortalidade, por mais que a todo momento procuremos negar isto e desviar o olhar. Perceber que você é mortal e que as pessoas que te cercam podem te deixar a qualquer momento traz uma sensação inquietante.
Para alguns, isto funciona como um motor. Para outros, soa fatalista e provoca um desespero por mudar de assunto.

Esta segunda reação é provavelmente um sintoma de uma cultura que evitar o tempo todo pensar nisso. Enquanto para alguns povos envelhecer significa adquirir experiência, para uma cultura moderna ocidental isto é algo feio. Fios brancos no cabelo, marcas de expressão, rugas, tudo precisa ser escondido, refeito, cirurgicamente removido. Até mesmo nossos mortos são embalsamados, disfarçados e maquiados para parecerem mais vivos. A gente tem um pavor de se aproximar do fim da vida.
A gente não encara a morte como deveria, como algo natural.

É essa a questão que Caitlin Doughty discute e aprofunda em seu livro de memórias, Confissões do Crematório. Com um tom leve e honesto, ela reflete sobre a visão da morte em diversas culturas do mundo, tanto no passado quanto no presente, procurando afirmar o quanto ela ainda precisa ser naturalizada e vista como algo inerente a nós.

Caitlin observava a morte de perto diariamente quando trabalhou numa empresa funerária e esclarece no livro vários conceitos desta indústria.
Em uma das passagens do livro, por exemplo, ela apresenta a tribo dos Wari’, que pratica canibalismo com seus mortos por acreditarem na destruição total do corpo, e os monges tibetanos, que entregam seus corpos a abutres por crerem que a carne pode alimentar outros seres depois que a alma já os deixou. Então, ao comparar estes costumes com o nosso ato de perfurar os intestinos de alguém com um longo trocarte prateado, para embalsamar o corpo e adiar a decomposição do corpo, a gente percebe que esta é uma prática vazia de significado e crença. Ela não traz consolo. Ela apenas parece estar roubando a morte de nós.

E Confissões do Crematório segue assim, utilizando uma linguagem sincera, descrições realistas, uma pesquisa profunda e, acima de tudo, histórias reais – são relatos, segredos e curiosidades dispostos de uma maneira muito cuidadosa e delicada, expostos não para chocar, mas para levantar reflexões e trazer lições sobre o tema.

Pra ajudar a compreender nossos rituais e tirar o caráter sombrio da morte. 


“Aceitar a morte não quer dizer que você não vai ficar arrasado quando alguém que você ama morrer.
Quer dizer que você vai ser capaz de se concentrar na sua dor, sem o peso de questões existenciais maiores como “Por que as pessoas morrem?” e “Por que isso está acontecendo comigo?”.
A morte não está acontecendo com você.
Está acontecendo com todo mundo.”


A sensação de esperar a morte chegar, como vivi essa semana, é bastante aflitiva. Eu fiquei triste, mas tentava internalizar que era o melhor a acontecer nesse momento, que ela interromperia o sofrimento de alguém especial e era a ordem natural das coisas. Ainda assim, fiquei abalado e comovido quando recebi a notícia de que ela havia acontecido.

Porque fitar a morte nos olhos não é mesmo nada fácil.
Mas proclamar que o fim é parte da existência faz você se lembrar que a vida não pode ser banalizada.


capaconfissões do crematório – caitlin doughty – 257 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um livro de memórias marcante e sensível, sobre um assunto universal: a morte.
um livro para… entender a morte em diversas culturas do mundo, conhecer a indústria funerária americana e apreender diversas lições em todo esse processo.
combina com… apertar botões, realizar rituais e deixar queimar.
para quem já leu… acompanhar o ask a mortician, o canal da autora no youtube, é uma forma de ficar pensando no assunto por mais tempo.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não colocou as vendas de volta.

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de amor & big bang

Não sou o maior fã de poesia do mundo, confesso. Consegui encontrar somente um livro de poemas na minha estante, além deste (o livro é O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra & Outras Histórias, de Tim Burton). Tenho uma certa dificuldade em ler coisas que adicionam palavras rebuscadas demais, acontecimentos antigos demais ou que se preocupam muito mais com a forma da coisa do que com o conteúdo. Talvez seja por enxergar o oposto disso em Ligue os Pontos – Poemas de Amor e Big Bang, de Gregorio Duviviver, que gostei tanto do livro.

Gregorio não parece estar fazendo poesia quando ele narra um diálogo, descreve uma rua do Rio de Janeiro ou conta sobre as pessoas que passam por aí. Ele parece conversar com a gente. Ou melhor, parece nos enumerar uma série de palavras sem muito sentido e dá ao leitor a chance de ligar os pontos e inventar as cenas de verdade.

Somos nós que inventamos sua poesia com a leitura, interpretando as cenas do nosso modo. Gregorio escreve em letras minúsculas, sem vírgulas. São poucos os travessões, finais ou outros tipos de pontuação para aumentar a compreensão. Uma leitura, sem dúvidas, diferente e que envolve o “sair da zona de conforto”.


 

“pensar na luz do fim do dia é bom
como acordar com o despertador às seis
da manhã e lembrar que é sábado.”


 

A primeira parte do livro é chamada de Cartografia Afetiva. Um núcleo de poesias com o mesmo tema central: Rio de Janeiro. O escritor fala sobre personagens icônicos que transitam por famosas avenidas, bairros e cartões-postais da capital do estado. Uma brincadeira sobre alguns preconceitos e lugares-comuns sobre pontos-turísticos (Copacabana e Urca, por exemplo). Porém, não é feito somente de ironias. Tem também um pouco de apego às localidades. A forma como tudo é construído reflete boas memórias do cara sobre a Cidade Maravilhosa.

Por não conhecer também o Rio de Janeiro, mas por conhecer o afeto, me identifiquei e gostei mais do segundo eixo de Ligue os Pontos, intitulado Aprender a Gostar Muito. O tema agora é o amor, o romance, a vida, o universo. São pequenas declarações de amor, questionamentos sobre a criação do mundo, diálogos entre casais,  jogos de palavras com expressões comuns e cenas cotidianas…


 

veja também:

o episódio do livrominuto sobre o livro de crônicas, roteiros e colunas do gregorio duvivier!


 

“antes de eu nascer o mundo era uma foto desbotada
dos meus pais mais magros à beira da piscina
esperando que algo fantástico acontecesse (eu).”


 

Gregorio Duvivier conquista pela surpresa. Seus poemas não passam batidos, sem uma piadinha ou um twist. Bom Humor. Escrevendo roteiros para o Porta dos Fundos ou suas poesias, ele sabe surpreender, nos fazer dar um risinho bobo. Não são poesias que farão gargalhar, como ele costuma fazer no canal do YouTube, mas provocam um sorriso e uma alegria agradáveis.

É impossível se sentir distante do livro. Em todos os momentos, lemos sobre algo comum e escrito de uma forma comum. Ligue os Pontos não é “erudito”. É corriqueiro, nada parnasiano. É cheio de beleza porque fala de nós, é pessoal. As palavras somente estão desorganizadas em versos, digamos assim.


 

13648_gg.jpgligue os pontos: poemas de amor e big bang – gregorio duvivier – companhia das letras – 88 páginas

em 140 caracteres… poesia engraçadinha.
um livro para… pensar de uma maneira mais emotiva sobre o cotidiano.
combina com… sorriso bobo.

 

Andre quer ligar os pontos sardentos de suas costas.