a fábula da última guerra

Miguel é um adolescente perdido num mundo apocalíptico – um apocalipse provocado pelos homens, uma guerra na qual perdeu toda a sua família para a destruição. Quando se vê solitário, ele corre pelo jardim, tenta pedir socorro, desce e sobe a rua e, a princípio, não encontra ninguém que pudesse o ajudar. Até que esbarra num velho que recolhe objetos pela rua.

Primeiro, vem a desconfiança. Depois, o encontro acaba se mostrando como a única forma de acabar com o arrasamento do mundo. Mas, para isso, Miguel precisa resolver não somente o conflito externo, armado. Há uma guerra dentro dele que precisa ser vencida. Ele precisa aniquilar todas as suas dúvidas. É necessário uma decisão.


“Desde que minha casa foi destruída, vivo nas ruas, sem amigos, escondido de todos. E já faz tempo que ando a esmo.
Ora durmo aqui, ora ali, quase sempre sob os escombros.
Ontem, por exemplo, dormi na sala de aula de uma escola abandonada. Me alimento com o que me dão pra comer ou com o que consigo roubar.
Agora sou só eu e esta mochila, que achei por aí. Tudo que tenho na vida está dentro dela.”

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O clima em A Última Guerra é de tensão. O livro caminha o tempo todo, rapidamente, como uma contagem regressiva. A cada página, novas questões precisam ser exploradas e segredos são revelados para que o mundo não acabe ali. É interessante notar também que tudo acontece focando ações e pensamentos – não há espaço para grandes descrições, contudo a rapidez com que tudo acontece já deixa clara a urgência com que a temática precisa ser tratada.

Miguel conhece o personagem que segue as páginas ao lado dele no meio da história. Existe desconfiança e preconceito, porém juntos eles tem a oportunidade de mudar o mundo e acabar com a guerra. Miguel, então, precisa ser mais corajoso e confiar nesse desconhecido. Uma mensagem interessante sobre não se render às aparências e procurar mais profundidade nas pessoas com quem você convive.

Sem muitas explicações convincentes, com um pano de fundo raso e uma quantidade de diálogos enorme, o livro pode deixar a desejar.
Porém, funciona bem como uma fábula. O ar é fantasioso e a violência e a destruição levam tudo às últimas consequências. O “exagero” aqui é uma ferramenta dos autores, Luis Braz e Tereza Yamashita, para deixarem em claro um posicionamento antibélico – ou, mais do que isso, a possibilidade e a responsabilidade que todos temos para construir um mundo diferente, novo, mais tolerante e respeitoso.
O fim da guerra precisa partir da gente.


465555_231107557005250_1356611430_oa última guerra – luiz bras e tereza yamashita – 112 páginas – editora biruta
em 140 caracteres… uma história sobre guerra diferente e inusitada, que levanta um bom ponto mas deixa alguns furos.
um livro para… ler de uma única vez, vivendo a mesma emergência dos personagens.
combina com… barriga feliz, indecisões e esconderijos.

A Biruta é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Você pode conhecer todo o catálogo da editora aqui e acompanhá-los no blog Biruta Gaivota, no Facebook e no Instagram.

Andre é um felizardo.

a menina que não queria ser top model

{TW: Transtornos alimentares, bulimia}

Quando se fala em transtornos alimentares, como a anorexia, geralmente são colocados os exigentes padrões de beleza como principal culpado. Porém, como se trata de uma doença psíquica, que se relaciona com questões mentais, questões emocionais e outras tantas questões profundas, a razão dela existir nem sempre fica assim tão clara ou pode ser definida com tamanha facilidade. O desejo de emagrecer não deve ser encarado como a única resposta (além de que isto seria o resultado de um apagamento de outros transtornos alimentares, como a compulsão alimentar).

No caso do livro A menina que não queria ser top model, por exemplo, o relacionamento conturbado e cheio de cobranças de uma adolescente com sua mãe é o motivo principal para que a garota desenvolva bulimia.


“Aqui, da rocha onde estou sentada,
acompanhei o barco chegando e vejo agora os pescadores puxando a rede, cadenciadamente, como um balé.
Meus olhos ficam marejados, e uma sensação de plenitude me toma.
Mas dura pouco.
Minha mãe consegue me alcançar onde quer que eu esteja. Mesmo quando é só em pensamento, ela me invade, me perturba, me tira do sério, acaba com a minha paz.”


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Na história de Lia Zatz para a coleção Leituras Maduras, da Editora Biruta, Vitória sempre teve uma alimentação rigorosamente controlada pela mãe, Virgínia, baseada no que diziam especialistas da área da saúde em revistas femininas. Nada de açúcar, nada de óleo, nada de carne: uma dieta baseada em arroz integral, ameixa-preta, brotos de alfafa e espinafre.

Mais velha e cansada de tantas restrições, ela resolve sair dessa dieta sem sentido e descobrir outros sabores, aqueles que os amigos da escola aproveitavam nos intervalos do colégio. Contudo, começa assim um relacionamento conturbado da garota com a própria alimentação. Ela passa a tentar vomitar tudo que come, para que a mãe não perceba suas fugas. O resultado disso é um afastamento da família por um longo período, internada num hospital e, posteriormente, evitando a convivência com a mãe.

A Menina que Não Queria Ser Top Model começa depois de todos esses acontecimentos, quando mãe e filha estão tentando restabelecer contato, e vai mesclando cenas do passado com o presente, quando Vitória pede aos pais uma viagem com os amigos como presente de aniversário. Distante por um final de semana, ela consegue refletir sobre tudo que passou e sentir a liberdade de poder tomar decisões sem a intervenção de nenhum adulto. É visível o amadurecimento de Vitória nesses dias.


“A Vitória fica lutando contra mim, mas não percebe que está lutando contra ela mesma. E a psicóloga dá força para ela.
Me chamou para conversar três vezes e sempre pra me dar aula sobre o que é a adolescência, o que acontece na adolescência, as inseguranças da adolescência, o papel dos pais em relação aos filhos adolescentes.
Será que ela não percebe que eu também fui adolescente?”


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O mais interessante para mim, contudo, acabou sendo uma outra trama. Lia Zatz, quando narra as lembranças dos personagens, também tenta explicar porque a mãe de Vitória age desta maneira, sendo super protetora e exageradamente preocupada. É angustiante notar como os sonhos de Virgínia foram tolhidos pelo pai machista e autoritário. Estes capítulos de um passado mais distante não chegam a soar como uma tentativa de justificar a projeção dos sonhos da mãe na filha. Porém, a gente passar a entender outro lado dessa história é bem importante quando falamos de relacionamentos.

De leitura rápida, mas bem madura e cheia de reflexões e temáticas possíveis de serem discutidas, A Menina que Não Queria Ser Top Model é recomendado para pais que desejam entender um pouco mais seus filhos e para adolescentes que querem perceber de outra maneira a vida dos pais. Um livro tão sensível e delicado quanto são as relações em família.


A_MENINA_QUE_NAO_QUERIA_SER_TOP_MODEL_1325649674Ba menina que não queria ser top model – lia zatz – 156 páginas – editora biruta
em 140 caracteres… uma garota aprendendo a ser filha e uma filha aprendendo a ser mãe.
um livro para… repensar um pouco do nosso passado e nossas relações familiares.
combina com… pensamentos no passado e viagens com amigos!
para quem já leu… e está bem mais maduro, o livro e o filme “homens, mulheres & filhos” trazem novas reflexões sobre relações familiares na contemporaneidade.

 

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Andre nunca viajou para acampar.

o baú

Quando mais novo, Quim era exageradamente fascinado por histórias com piratas buscando por tesouros escondidos, lutando em alto mar, sendo enganados por sereias… Sempre ao descobrir novas tramas e caçadas ficava a vontade de partir, seguir sem rumo, enfrentar perigos, se tornar um herói, ser como um desses aventureiros.

Ao ficar mais velho, não conseguia se adaptar a nenhuma ideia de trabalho fixo, com horário marcado e um salário mínimo – enquanto isso seu irmão já se esforçava por horas num escritório para agradar aos pais. Cansado, Quim desiste de tentar uma vida “certinha”, definida por outras pessoas e convenções sociais, e sai de casa sem deixar nenhum aviso prévio.

Vez ou outra ainda chegavam postais, cartas e mensagens dos mais diversos pontos do mapa para a sua família. Mas Quim tanto imaginou que acabou também se tornando uma das lendas que o maravilhava…

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“Leandro ficava longos períodos sem notícias do irmão,
depois ele escrevia, sempre alegando que havia andando doente… ou se recuperando de ferimentos, de envenenamentos, de feitiços…
(…)
“Fazia então uns dezessete anos que ele havia partido, quando as notícias pararam de vez.””


 

A história de O Baú do Tio Quim, escrito por Luiz Antonio Aguiar, começa quando um baú antigo chega na casa da família de Leandro, o irmão centrado, com o nome de Quim no remetente. Porém (apesar de nunca terem encontrado seu corpo no oceano após o naufrágio de seu navio no lugar com a maior concentração de tubarões do mundo) todos acreditavam na morte de Quim. Mais de 10 anos se passaram sem nenhum contato – até que surge um baú enorme.

Quem acaba tendo mais contato com o objeto é Dedá, a filha adolescente de Leandro, que está vivendo a fase de descobrir o amor e os relacionamentos. Ela acaba se incomodando com o objeto ocupando espaço no seu quarto, mas ainda mantém certa curiosidade sobre o que ele guarda, principalmente porque conhece todas as histórias de bruxas e demônios que o tio perseguiu pelo mundo. Além disso, ela fica ainda mais atiçada quando alguns fatos estranhos começam a acontecer por ali.


 

“Três e trinta e três da madrugada.
Dedá viu a hora no relógio digital da cozinha e achou a combinação de número meio agourenta.
Sentiu um calafrio,
sem entender por que tinha acordado de olhos arregalados,
algo dizendo para ela se levantar e ir ver o que estava acontecendo
(Por quê? O que está acontecendo?)
Como não era a primeira vez…”


Ao mesmo tempo em que temos o suspense desenvolvido em torno do que guarda o baú, do desaparecimento de Quim e todos os mistérios que cercam o personagem, contudo, uma trama bem realista e com problemas atuais acontece. Como é de praxe na coleção Leituras Maduras, da parceira Editora Biruta, algumas reflexões mais sérias também são levantadas aqui. A escrita leve e os enigmas chamam a atenção do público e eles acabam recebendo também dramas familiares, conflitos de gerações e uma discussão sobre racismo.

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O Baú do Tio Quim foi indicado em 2012 para o Prêmio Jabuti na categoria infantojuvenil, um reconhecimento merecido por trazer questões importantes para o público enquanto distrai e entretém com uma fantasia muito bem escrita. É um livro sobre imaginação e sonhos, que encoraja o público a se desprender e seguir seus próprios caminhos.


 

01o baú do tio quim – luiz antonio aguiar – editora biruta – 157 páginas

em 140 caracteres… uma narrativa que alinha conflitos familiares, mitologia e aventuras de piratas.
um livro para… lembrar dos clássicos infanto-juvenis da Coleção Vaga-Lume e filmes de aventura da Sessão da Tarde.
combina com… jantar em família, piada sem graça e objetos desaparecidos!

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Andre não consegue colocar tudo seu numa única mochila.

a imagem de capa veio daqui. daqui a foto 1 e daqui a foto 2.

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No século passado, as coisas pareciam bem menos maleáveis. Os relacionamentos, empregos, comportamentos e espaços eram pré-formatados. As pessoas nasciam, cresciam e viviam sem muitas opções e com tudo muito bem definido, às vezes até antes mesmo do seu nascimento. É o que aconteceu com Luda, em A Última Carta, de David Labs.

Seu espaço na família – como a filha que casaria por conveniência, para ajudar a família financeiramente, e viveria na mesma cidade onde nasceu – já estava esclarecido desde sempre. Ela não enxergava perspectivas diferentes em seu futuro, até que começou a receber cartas de um corresponde anônimo.

Um corresponde que a ama, a admira e a encoraja a mudar o rumo da sua vida, criar seu próprio destino, fugir dos valores que ela desprezava e da sua cidade antiquada.

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Anos depois, nosso narrador encontra as cartas que este casal apaixonado trocou, além do diário de Luda e notícias de jornal da época. Contudo, mesmo cheio de registros palpáveis, são muitas as lacunas que ele precisa preencher. Para isso, ele vai usar um faro científico, situações que viveu com esta mulher e um tanto de sensibilidade – além de contar com o leitor para separar as informações das mentiras que podem ter sido criadas pelos personagens.


 

“Não duvido do talento de Luda para forjar uma convincente crise de nervos. Tornou-se dissimulada com as experiências, atriz.
Inúmeras vezes, desde o início deste livro, me perguntei quando escrevia a verdade e quanto a manipulava em nossas conversas na Rua da Brisa.
E, admito, quando mais acreditei em seus relatos foi nos momentos em que tinha certeza de que mentia.”


 

O projeto gráfico da editora Biruta para este livro (e toda a coleção Leituras Maduras), com ilustrações da premiada Casa Rex, mistura traços e objetos, o que pode demonstrar a confusão que o leitor pode sentir no meio de todos os narradores e formatos da escrita, estes que aparecem em cores e fontes diferentes.

O tempo inteiro passado em A Última Carta começa com uma série de informações desconexas, mas que vão se perfazendo à medida em que as páginas se passam. Cada texto tem seu significado para o todo e para a construção da linha do tempo da história. Utilizando diversas ferramentas e formatos diferentes de escrita, David Labs conseguiu criar uma teia convincente e intrigante para o livro.

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Ainda assim, são deixados alguns espaços em branco para serem completados pelo leitor: mesmo sendo um exemplar da literatura juvenil, é um livro indicado para aqueles com mais maturidade e intimidade com a leitura. Intrigante, A última Carta questiona não somente os costumes dos anos 20, mas também o leitor.

É de ficar confuso, ler, reler, refletir, questionar a intenção dos personagens e a percepção do narrador, ficar perturbado, perder o sono.


 

a_ultima_carta_1344362208ba última carta – david labs – editora biruta – 140 páginas

em 140 caracteres… registros, diários, cartas e uma série de outros textos aparentemente desconexos.
um livro para… ficar intrigado e tentar completar os espaços em branco.
combina com… noites sem dormir e olhos bem abertos!

 

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Andre não escreve um diário – mas gostaria.

 

 

Imagens da postagem pela Casa Rex.

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Enquanto algumas crianças não se preocupavam com nada, além de açúcar e aromatizantes, a nossa protagonista, judia, vivia em meio à Revolução Russa de 1917 e ao terror da Guerra Civil que se instaurou na Rússia.

Os judeus eram vistos como líderes ou aliados do Partido Bolchevique, que incentivava um mudança radical na política, e acabaram sofrendo vários pogrons durante este período da história. Vítimas de ataques cruéis e extremamente violentos, eles perdiam a própria vida, a família, suas casas, seus negócios, seus centro religiosos… Somente alguns poucos judeus não foram atacados: ou por serem ricos ou por terem fugido do país.

Este é o pano de fundo dos acontecimentos do livro Morada das Lembranças, de Daniella Bauer – uma história que começa quando a protagonista, ainda menina, perde o pai e precisa fugir dos massacres com a mãe e um irmão pequeno.


“O que meu pai havia feito de errado?
Ser judeu,
homem de ideias próprias,
um defensor do povo?”


O local escolhido para a nova casa da família é o Brasil. Antes, a protagonista narra o que aconteceu na travessia do oceano, à navio (superlotação, medo, doenças…), e se encanta com todas as cores do Rio de Janeiro (as casas, as músicas, as roupas das mulheres…). Aqui, eles precisam mudar de nome e se adaptar com o novo idioma, novos costumes e a uma avó manipuladora.

É impressionante saber da dificuldades que os estrangeiros passam ao mudar de país, ainda mais como a protagonista e sua família. A mudança de nome (o antigo era difícil de ser pronunciado pelos brasileiros) sugere a perda da identidade dos imigrantes por aqui. É necessário paciência para se acostumar.

Além disso, a tolerância é uma coisa que parece faltar ao ser humano. Todo o caos que move a trama da autora é real, muito real. Apesar de ter um pouco de poesia e reflexões adicionadas, os pogrons realmente aconteceram, realmente mataram milhares de pessoas que não tinham feito nada de errado. O que há de errado em ser judeu? O que há de errado em ter fé?

Do mesmo modo (ou com a mesma intolerância), a menina sofreu com os colegas de escola. Cor dos cabelos, cor da pele, os traços diferentes, o idioma difícil, os costumes (que ela tentava manter no Brasil), as idas à sinagogas… Tudo era motivo para ser desconsiderada ou sofrer desprezo pelos outros.


 

“Acumulamos palavras,
cismas, pensamentos, dores e aprendizados que nos deformam e,
ao mesmo tempo, também formam nosso caráter
e aquilo que podemos que podemos oferecer
a nós mesmos e aos que estão conosco.”


A menina vai, aos poucos, acumulando lembranças e tecendo histórias. Cheia de perguntas sobre a vida e os momentos que ela viveu, ela enche as páginas do livro, narrado em primeira pessoa, deixando para o leitor a busca de algumas respostas. Em seu livro de estreia, Daniella Bauer consegue provocar e atiçar o pensamento do leitor de modo ímpar. Impossível fechar o livro e não ficar refletindo sobre alguma cena ou sobre algum questionamento escrito.

Publicado pela parceira Editora Biruta, Morada das Lembranças traz um pouquinho de História e um monte de indagações sobre nós e sobre o mundo. Com uma diagramação e um pacote gráfico incríveis (confira um pouquinho aqui), um livro cheio de sensibilidade. Emocionante.


 

Morada-das-lembrançasmorada das lembranças – daniela bauer – editora biruta – 200 páginas

em 140 caracteres… uma visão íntima da guerra e da perda de identidade de um estrangeiro.
um livro para… se sensibilizar, perceber e entender a questão de imigrantes no brasil.
combina com… colcha de retalhos e o balançar de navios.

a biruta é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. conheça todo o catálogo da editora aqui e acompanhe-a no facebook, no instagram e no blog biruta gaivota.

 

Andre faz de si uma morada de boas histórias.

ode ao livro infantil

Como nos tornamos leitores? Essa é a pergunta que foi respondida pelas mulheres dos canais JotaPluftz e Vamos Falar de Livros por estes dias, no YouTube. A ideia é justamente essa: mostrar o que se lia antes de começar a expor sua vida literária na internet.

Uma coisa em mim que se assemelha a elas é a presença de muuuitos livros infantis e juvenis na sua formação. Ziraldo, Marçal Aquino, Ruth Rocha… Histórias criadas e escritas para crianças.


 

“Crescer é assim:
a gente quer e quer,
contra tudo e contra todos,
mas quando rompemos o casulo e sentimos o vento frio lá fora,
dá vontade de correr de volta!
Tudo contraditório mesmo,
em meio à vontade de ser independente, encher a menina mais bonita do mundo de beijos e galopar pelo mato ao lado de um amigo com o coração batendo mais forte que o Big Bang.
A gente não cresce de uma vez, mas, que nem cabelo com franja,
que fica desigual e descabelado por um bom tempo.”


 

Também foi assim comigo. Os primeiros livros que li foram histórias curtas, com narrativas engraçadas ou cheias de aventuras, sempre tentando falar um pouco sobre amizade e moral ou colocando eu, leitor, como protagonista, escolhendo a minha própria aventura ou desvendando um mistério.

Entre os primeiros livros da minha vida como leitor, destacaria Os Karas, a coleção clássica de Pedro Bandeira e melhor leitura obrigatória de todos os tempos, Alice no País dos Números, de Carlo Frabetti, que ensinava noções de lógica e matemática no País das Maravilhas, e a extensa coleção de fantasia juvenil Deltora Quest, de Emily Rodda.

(Não, não fiz parte da Geração Harry Potter.)


 

Então, há um tempinho atrás, o MEC e o MinC resolveram financiar o lançamento de uma série de histórias clássicas da Literatura Brasileira adaptadas para jovens e crianças. A principal justificativa era que o texto original era complicado demais e não chama a atenção desse segmento de potenciais leitores.

Um receio vem do fato de que, quando se trata desse assunto, não vejo alguém mais novo pegando um texto original depois de já conhecer a história “mais a fundo”, além da sinopse mais acessível. O filme costuma ser suficiente, até mesmo quando se trata de um ya de capa bonita e escrita clara. Aprofundar-se é algo incomum no cotidiano dessa geração acostumada a saber de coisas demais e não saber algumas coisas em demasia.


 

“A gente tem que tomar muito cuidado com o que é visto como normal nesta vida;
ademais, assim é mais bonito e menos óbvio, mais próximo da verdade:
faz pensar, também sentir.”


 

Temos de concordar que, realmente, os textos de autores como Machado de Assis e Aluisio Azevedo não costumam ser os mais simples ou atrativos, mas, até que ponto essa adaptação é boa ou ruim? Simplificar o trabalho de uma pessoa, retirando parte da originalidade e mantendo somente o básico, um enredo, é mesmo o melhor caminho para chamar a atenção?

Proponho essa discussão agora porque hoje é o Dia Nacional do Livro Infantil. E foi um livro infanto-juvenil com uma proposta bem interessante que me provocou essa indagações sobre o quão ruim pode ser empobrecer a escrita de um autor.


 

 

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a autora de “antônio descobre veredas”

Antônio Descobre Veredas (o título já deve deixar claro para você onde ele pretende chegar) apresenta um garoto que tem Grande Sertão: Veredas como leitura obrigatória na escola. Correndo o risco de ser reprovado, ele precisa ler todas as páginas deste clássico de Guimarães Rosa para fazer o melhor trabalho possível. Não, ele não pode se ater a uma versão adaptada.

Então, decide investir tempo e se dedica nessa leitura cheia de neologismos e regionalismos. Para isso, ele receberá o apoio de um grupo de personagens muito interessante: Diadorim, Nhorinhá, Riobaldo e todas as outras criações que aparecem na história.


 

“Na parede, montou uma espécie de painel
com os marcos na vida dos personagens do Livro.
Para não se esquecer de nenhum,
colou os nomes dos principais em bonequinhos Playmobil
e organizou-os em cima de seu tabuleiro de damas

Riobaldo, Joca Ramiro, Reinaldo, Nhorinhá, Titão Passos, Hermógenes, etc.
Criou também um sistema de cores
para distinguir qual bando de jagunços cada um pertencia,
e canetas coloridas para anotar as características de cada líder e seus objetivos.”


 

O texto de Antonio Descobre Veredas é rápido e fluido. Em pouco menos de 80 páginas, a autora consegue desenvolver bem seus personagens e amadurecer Antônio através da leitura do original de Grande Serão: Veredas (é disso que eu estou falando!).  Apesar de atrativa, a escrita de Deborah Kietzmann Goldemberg não é lá das mais simples. Podem, sim, aparecer algumas palavras um pouco mais complicadas, dependendo do vocabulário adquirido de quem lê.

Lançamento recente da Editora Biruta, o objeto-livro ainda chama a atenção pelo projeto gráfico. Mesmo não dividido em capítulos, sendo uma trama direta em pequenos blocos de texto, eles conseguiram criar uma diagramação interessante para o texto, com boa fonte e tamanho agradável para as letras. Todas as páginas ainda são emolduradas por essa planta de uma cidade, tal como na capa do livro.

A história é bem leve e cumpre muito bem o papel de apresentar Guimarães Rosa para uma galera mais nova. Por não revelar demais do enredo original e pelo protagonista ter um contato tão direto e honesto com a história, acabou me seduzindo e instigando muito mais do que uma adaptação. Acredito que livros a essa maneira são uma boa aposta para fugir das mudanças de valores que alguns pretendem.


 

Observando minha trajetória, consigo perceber claramente, que não me tornei um leitor por causa de história clássicas da literatura brasileira, mas por causa de bons livros infantis. Foram eles que me fizeram apaixonar por personagens, narrativas e páginas amareladas. Foram eles que me abriram para mundos diferentes, sejam estes mundos fantásticos ou mais parecidos com o nosso.

Vamos ler e incentivar a literatura infantil. É ela que tem dramas voltados para idades menores, gera mais identificação do leitor com os personagens e melhor pode comunicar-se com uma criança. 


 

tumblr_inline_nmz7g5kthx1rzaxsl_540antônio descobre veredas – deborah kietzmann goldemberg – editora biruta – 76 páginas

em 140 caracteres… um convite a se enveredar por um dos maiores clássicos da literatura brasileira.
um livro para… apreciar rapidinho e ficar com muita vontade de viver uma aventura também!
combina com… acampamento, palavras inventadas e galope de cavalo.
para quem já leu… o infanto-juvenil “duas vezes na floresta escura”, de caio riter, que apresenta contos clássicos de machado de assis, enquanto uma trama policial se desenrola.

 

o livro “antonio descobre veredas” foi cortesia da editora biruta, por uma parceria com o blog. acompanhe as novidades no blog biruta gaivota ou pelo facebook e acesse o site para conhecer melhor.

Andre quer, cada vez mais, desamar-se das palavras.

na floresta escura

Caio Riter já havia me conquistado com Eu e o silêncio do meu pai, então imaginava que Duas Vezes na Floresta Escura, seu mais recente lançamento pela Editora Gaivota, seria uma leitura rápida e envolvente – mas não esperava tanto.

A escrita de Caio Riter flui naturalmente ao longo das páginas incrivelmente editadas pela Gaivota, cheias de ilustrações, cores e fontes diferentes. Mesclando diferentes narrações, ora em primeira pessoa ora em terceira pessoa, ele consegue ser tanto adolescente quanto um narrador observador e, mesmo que o lado thriller da história tenha falhado um pouco, os dramas e reflexões valem a pena. Fora o show de representatividade que a narrativa trouxe.

Duas Vezes na Floresta Escura é protagonizado por Susana, uma adolescente que acaba de ser mudar para uma cidade pequena (o pai foi transferido pelo banco onde trabalha) e sofre por não conhecer outros jovens no lugar, sofre por não ter acesso a internet, telefone, celular ou qualquer tipo de diversão e sofre ainda mais por estar distante da mãe e da melhor amiga. A mãe da garota resolveu fazer uma formação no exterior e ficará três longos anos estudando Machado de Assis em outro país.

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Desse estudo de Machado de Assis, sai uma das coisas mais legais da história de Caio Riter. Para conhecer melhor a mãe e ter algumas conversas com ela sobre o curso, a adolescente resolve ler alguns livros e contos do escritor. Ao longo da narrativa, então, várias vezes somos convidados a ler notas de rodapé que mostram temas semelhantes sendo abordados nas obras do realista, sempre acompanhadas de opiniões engraçadas e sinceras.

Me lembra um pouco a proposta de Odisseia de Homero (segundo João Vitor), de Gustavo Piqueira, publicado neste ano pela mesma editora (e na minha lista de desejos desde o lançamento!). Este é um incentivo a mais para o consumo de literatura clássica nacional entre adolescentes e um modo de recomendar outras boas histórias e prosseguir com o hábito da leitura entre jovens.


 

mais sobre o incentivo à leitura de clássicos entre adolescentes e crianças: 

Outra questão importante que o livro apresenta é a representatividade de diferentes formas de família. À medida que Susana vai conhecendo os jovens da sua nova cidade, percebe que eles também tem formações familiares diferentes, longe dos “padrões”. Tem filha de dois pais. Tem filhos de avós. Tem pais separados. Acredito que seja bem importante que um adolescente que faça parte destes núcleos familiares se enxergue nas páginas de uma livro. Sentir-se representado, importa.


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O livro promete na sinopse a apresentação não só de dramas adolescentes, mas também um crime que chocará a cidade. Contudo, o autor preparou tanto o caminho para os personagens e “demorou” com construções de personalidades que o crime aparece somente nas últimas páginas do livro, tendo uma resolução rápida e meio previsível para quem já quem leu alguns romances policiais. Deu um toque de ação para a trama, me deixou bastante ansioso para o que aconteceria na floresta, mas não é nada que nos deixe surpresos quando de fato acontece.

 

Duas Vezes na Floresta Escura consegue unir vários ingredientes que acho importantes num infanto-juvenil, como a necessidade do adolescente ou pré-adolescente se enxergar na história, nos medo, na insegurança, nos dramas… Caio Riter se afirma, para mim, novamente, como um grande entendedor de problemas e confusões da mente jovem e, o melhor, traz uma grande lição sobre coragem e seguir em frente. A prova de que os ya são importantes também.


duas_vezes_na_floresta_escura_1410791560bduas vezes na floresta escura – caio riter – editora gaivota – 164 páginas

em 140 caracteres…
 uma boa dose de drama adolescente, mas com um mistério não muito satisfatório.
um livro para… pegar boas dicas de contos do Machado de Assis!
combina com… sábado a tarde, férias ou momentos sozinho em casa.
para quem já leu… os contos de Machado de Assis listados no livro podem ser a próxima leitura.
A Gaivota é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Confira aqui o catálogo completo da editora e acompanhe-a no Blog Biruta Gaivota e no Facebook.

Andre sempre confere a fechadura duas vezes.