o menino que desenhava monstros

Primeiro, veio uma mania por quadrinhos. Depois, uma paixão bem forte por jogos de tabuleiro. Apenas fases, que não se comparam em nada com o hábito quase obsessivo de Jack Peter desenhar. Ele desenha algumas coisas e pessoas que enxerga, o que não é nada preocupante para uma criança, mas tudo começa a se transformar quando o garoto de 11 anos começa a desenhar monstros.
Criaturas estranhas, imagens tensas, seres imaginários… Tudo pode ser estampado nos papéis de desenho de Jack. O que ele não esperava é que isto desencadeasse visões assustadoras no seu cotidiano. Jack começa a enxergar embaixo da sua cama os monstros que ele desenha.

Este plot sobrenatural poderia servir muito bem para um livro que misturasse o terror e a fantasia, mas esta claramente não foi a intenção de Keith Donohue ao escrever O Menino que Desenhava Monstros. Ao colocar no centro deste conflito uma criança com Síndrome de Asperger e que desenvolveu Agorafobia depois de um acidente onde quase de afogou, a história ganha tons mais dramáticos, abordando questões familiares nada simples, mas sem deixar o suspense de lado.

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“Apenas dê uma olhada, papai.
Ele está lá fora agora.”


O Menino que Desenhava Monstros começa quando Jack resolve alarmar os pais sobre o que ele tem visto, o que acaba trazendo duas reações opostas e alguns conflitos dentro de casa.

Tim, o pai, tem uma visão extremamente otimista da situação do filho. Ele acredita que o este estado do espectro autista de Jack Peter não está estagnando e que todas as complicações que esta condição pode trazer não devem evoluir. Com apoio, carinho e a criação de um ambiente seguro dentro de casa ele acredita é possível que o garoto não retroceda nos tratamentos. Por isso, o pai tem como reação a este aviso sobre os monstros embaixo da cama a intenção de criar um ambiente mais seguro e agradável para o filho.
Já Holly, a mãe, tem uma visão mais negativa sobre a condição do filho e acredita que estas visões de Jack podem ser enxergadas como um aviso de algo está errado e que novas medidas, mais enérgicas, precisam ser tomadas em relação a isso. Para ela, o melhor caminho é encaminhá-lo para um hospital especializado.


“”É uma fase”, cortou ele.
“Não é uma fase, Tim. Não é só mais um maldito capítulo, é todo o resto da história.””


Para mim, o autor tratou desta questão relacionada à neurodiversidade com bastante cautela e o resultado foi bem realista.
As passagens depois do desenvolvimento da Agorafobia no Jack onde o autor relata como é cansativo para os pais levar o filho para consultas médicas é muito angustiante e quase deve retratar como alguém com aflição de estar ao ar livre deve se sentir.
Em outra cena, quando acordado de surpresa pela mãe, Jack acaba a agredindo. Holly fica em choque e, ao procurar aconselhamento religioso, se descarrega com um sacerdote e diz que odeia o filho. Pode parecer exagerado ou cruel que uma mãe diga isso, contudo é possível sentir bastante empatia por ela quando a gente para pra pensar no quão angustiante deve ser tentar criar algum tipo de conexão emocional com seu filho e não receber nenhum grande retorno.

Ainda vale dizer que a presença do pai na história é fundamental para mostrar também o quanto estas questões são sérias e não devem ser encaradas somente com base em “achismos”. Afeto é fundamental em situações como esta, mas o tratamento médico e terapias comportamentais também precisam ser procuradas.

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O livro tem sempre uma narração em terceira pessoa, porém o foco vai mudando de uma personagem para outra em vários momentos. Porém, Keith Donohue, além de narrar cenas em lugares diferentes que acontecem ao mesmo tempo, também se preocupa em trazer as visões dos diferentes integrantes desta família, mesmo que tenham compartilhado um cômodo logo antes.
Isto pode se tornar repetitivo ou maçante para algumas pessoas, mas observar os vários pontos de vista é fundamental para a construção da visão do leitor sobre a dinâmica da família (e também torna o autor isento na questão das questões sobre saúde). E procurar padrões e repetições e notar como cada personagem observava as coisas de maneiras diferentes foi bem estimulante para mim.

A guinada maior na narrativa, quando o suspense se torna mais intenso em O Menino que Desenhava Monstros, vai acontecer mesmo somente quando os outros personagens ao redor de Jack começam a perceber coisas estranhas também. Um homem branco como o leite, alto e esguio aparece para Tim numa autoestrada. Holly começa a ter a sensação permanente de alguém está os vigiando e tentando invadir a moradia da família. E um outro personagem, Nick, o único amigo de Jack (e que esteve envolvido no incidente do afogamento), começa a sentir coisas estranhas também, o que o faz questionar ainda mais sua amizade com o “garoto estranho da escola”.


“Não tenha tanta certeza sobre as coisas que não pode ver. A mente conjura o mistério, mas é o espírito que fornece a chave.”


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Cada personagem de O Menino que Desenhava Monstros vai buscar em realidades diferentes suas respostas e soluções para a questão dos monstros que parecem passear pela cidade. Um busca reforço policial. Outro vai estudar as lendas que envolvem um rio perto da casa da família. Vão aparecer ainda explicações em mitos orientais e a busca por um entendimento por vias espirituais e religiosas.

O mais legal dessa leitura é que em nenhum momento Keith Donohue vai dizer em que você deve acreditar. Quem lê precisa criar suas próprias teorias: seria tudo isto imaginação ou realidade? A única coisa que posso afirmar é que a cada mudança de perspectiva, tudo pode se transformar.


cco menino que desenhava monstros – keith donohue – 256 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um suspense que envolve segredos familiares, acontecimentos estranhos e um limite não muito claro entre realidade e imaginação.
um livro para… ficar intrigado com os ocorridos, criar diversas teorias e poder acabar bem surpreso com as últimas linhas.
combina com… nevascas, pesadelos e lugares inóspitos.

* Foto do post via deathtostockphoto

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre quer encontrar a saída do quarto.

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4+1 | fábrica de vespas

 

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4 MOTIVOS PARA AMAR…

1) personagens loucos

Livro estranho com gente esquisita: todo personagem de Fábrica de Vespas tem suas particularidades e um pezinho na insanidade. Pra começar, o protagonista, Frank, tem vivido uma fase de cometer atrocidades com animais (depois da morte, ele pega seus corpos, enfia em estacas e coloca no litoral da ilha onde mora para que sirvam de aviso para estrangeiros). Antes disso, contudo, viveu uma fase de assassinatos, apenas pela curiosidade, procurando entender como funciona suas reações e emoções e como poderia manipulá-las. Frank tem hoje 16 anos.

Enquanto isso, Eric, o irmão de Frank, parece ser louco no sentido patológico e diagnosticado da palavra, já tendo passado por tratamentos e vivendo numa casa de recuperação psiquiátrica.
E eles tem a quem puxar: O pai desses rapazes é uma figura bem contida e tem uma obsessão por saber as medidas exatas de todas as coisas ao seu redor (quanto mede cada um dos móveis, quantas libras tem cada objeto, qual a capacidade das tigelas de sopa da casa) e esconde com todo o cuidado o que guarda em seu escritório.
Conhecer o passado dessas pessoas, descobrir seus segredos e tentar prever seus próximos passos é uma das coisas mais intrigantes no livro.


2) a política

Frank, apesar de nos ser apresentado com esse nome, não foi registrado em lugar nenhum. Para a civilização, ele não tem identidade.
Essa é uma forma bem pertinente de Iain Banks deixar claro que o garoto não assinou nenhuma espécie de pacto social. Frank é sua própria ilha, numa alusão a Senhor das Moscas. Ele cria suas regras, tem um modo próprio de enxergar o mundo e técnicas bem estranhas de tentar controlá-lo. A Fábrica de Vespas, por exemplo, é uma dessas excentricidades que só fazem sentido para ele, mas que são afirmadas veementemente durante a narração em primeira pessoa.
Para exercer seu poder, Frank também “rebatiza” algumas coisas da nossa sociedade ou simplesmente cria nomes e seu próprio mapa da ilha. Entender os significados dos termos em letra maiúscula, como Destruidor Negro, Círculo das Bombas ou Campos de Coelho, é outra coisa interessante na experiência de ler Fábrica de Vespas.


“Sempre me pareceu que as pessoas não votam num novo governo porque elas realmente concordam com a sua política, mas só porque querem uma mudança. De alguma forma, elas acham que as coisas vão ser melhores com um pessoal novo.
Bom, as pessoas são estúpidas, mas essas coisas sempre parecem ter mais a ver com humores, caprichos e atmosfera social do que com argumentos bem-pensados.
Consigo sentir o mesmo tipo de situação se passando na minha cabeça.”
“Era como se as ideias que eu tinha, os cursos de ação que eu tomava, fossem que nem as diferentes medidas políticas que os países assumem.”


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3) a brutalidade

Nenhum animalzinho, por mais fofo ou dócil que pareça, está a salvo de Frank. O rapaz pega, destrói, estraçalha, explode e cria suas Estacas Sacrificiais, tudo com a maior naturalidade. Uma parte da mente de Frank até entende que o que eles faz é um absurdo, mas outra parte o encoraja a continuar com estes seus atos violentos. Porque isto o dá poder, faz parte de quem ele é e do que ele possui, faz ele se sentir bem.
Além das cenas de brutalidade com os animais da ilha, Frank também protagoniza três assassinatos curiosos, que acontecem de maneira tão planejada quanto espontânea. Tudo pode até ter sido calculado friamente na cabeça dele, mas sempre com o que está disponível por perto. Em um dos casos, por exemplo, como ainda era uma criança, uma pipa é utilizada como arma.

Mas Iain também fornece suas descrições cruas para os feitos de Eric também. O jovem foi acusado algumas vezes de atear fogo em cachorrinhos pela vizinhança e esse é o estopim para ele ser “exilado” da ilha onde moram e enviado para um hospital psiquiátrico. Antes disso, contudo, ele aparece no episódio mais perturbador para mim (para quem já leu, a passagem que se passa numa enfermaria). É chocante.

Tudo em Fábrica de Vespas é meio áspero e pode deixar alguém mais sensível aflito ou enojado. Então, fica o aviso de que Iain Banks não economiza na truculência durante sua criação e o que me fez gostar muito do livro pode fazer outras pessoas abandonarem.


“Eu acho que as represálias contra pessoas que tem ligações tênues ou muito distantes com aquelas que cometeram algum erro, na verdade, só servem para fazer com que o indivíduo que está se vingando se sinta bem. Tipo a pena de morte. Você quer pena de morte porque ela faz com que você se sinta melhor, não porque seja uma medida de restrição ou qualquer besteira assim.
Pelo menos os coelhos não vão saber que Frank Cauldhame fez o que fez a eles, do jeito que um grupo de pessoas sabe sobre o que os bandidos fizeram, com a vingança resultando no efeito contrário ao desejado, estimulando mais do que pondo fim à resistência. Pelo menos eu admito que fiz tudo para reforçar meu ego, recuperar meu orgulho e me dar prazer, não para salvar a nação, garantir justiça ou honrar os mortos.”


4) a narrativa

A narrativa de Fábrica de Vespas vai e volta no tempo. A gente acompanha o que Frank está vivendo enquanto descobre aos poucos o que ele guarda em seu passado: seus assassinatos em segredo, suas questões com a Fábrica, como chegou até onde está… Essa mistura de duas narrativas no que diz respeito à vida de Frank seria suficiente para manter o leitor preso e figurar aqui como um bom motivo para amar o livro.

Entretanto, Iain ainda adiciona uma carga a mais de tensão com a narrativa de Eric. O irmão de Frank fugiu do lugar onde estava internado e faz algumas ligações para ele durante a história. Os diálogos entre os dois são marcados uma sensação mista de estranheza e familiaridade. Ambos se buscam um no outro, mas conseguem perceber que o tempo passou e as coisas estão diferentes. E o resultado disso, desse encontro quando o retorno real de Eric finalmente acontecer, pode ser desastroso.


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…E UM PARA NEM TANTO

O desfecho: ele chega de repente, sem aviso. Você pode até criar diversas teorias, mas eu acredito que suas chances de adivinhá-lo são realmente mínimas. Iain Banks conseguiu me pegar de surpresa e eu gostei disso, porém, precisei de bastante reflexão para entender a proposta dele para o final, que carrega um grande segredo. Dica: o “discurso” de Frank na última página e, principalmente, o prefácio da edição, escrito pelo próprio autor, foram partes fundamentais nesse processo.
Entendi o que ele quis transmitir, mas ainda não fiquei totalmente decidido se gostei ou não. E é a certeza de que o desfecho divide opiniões (ou te deixa sem qualquer opinião também, como aconteceu comigo, e tá tudo bem) é que deixa ele figurando como um motivo para você talvez não gostar tanto assim dessa obra.

Claro, vale lembrar que o fim é parte de um todo maior e o medo de não gostar do final não deveria fazer ninguém desistir da leitura de Fábrica de Vespas. Essa foi uma das experiências mais legais e notáveis de leitura que tive este ano e recomendo para todo mundo que quer experimentar algo no mínimo inusitado. Todo mundo que tem um pouco de estômago forte e aguenta algumas torturas com bichinhos, claro.


fv-04fábrica de vespas – iain banks – 240 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um livro que evidencia a existência de diversas pessoas estranhas pelo ponto de vista de alguém meio animalesco e frio.
um livro para… ficar perturbado com todas as cenas violentas, lancinantes e desagradáveis.
combina com… diques arrebentando, bombas explodindo e vespas fritando (ttssss!).

* Ilustração do post via xi’an’s.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre nem suspeitou.

the game: post definitivo

Este texto traz informações graduais sobre os três volumes da trilogia The Game, de Anders de la Motte. Por causa deste caráter fragmentado do post, ele também funciona como um diário de leitura. É possível ler somente os pedaços correspondentes aos livros que você já leu, se guiando pelas cores dos títulos. Amarelo para [O Jogo] (e os não-iniciados), azul para [Ruído] e verde para [A Bolha]
avançar pelas fases que você ainda não passou pode te trazer alguns spoilers e revelações indesejadas. Cuidado.

 

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[O JOGO]

A história começa em [O Jogo], primeiro volume da série, quando Henrik Petterson (ou HP) encontra um celular perdido num metrô e recebe uma mensagem o convidando para participar de um Jogo. Missão após missão, a trama ágil de Anders de la Motte não abre espaço para respirar. Isto porque há um grande número de reviravoltas, descobertas e segredos pelas páginas desse primeiro livro.
Outra característica interessante do autor é o fato dele conseguir, mesmo sem descrições prolixas ou exageradas, criar cenas cinematográficas e muito visuais.

Anders de la Motte é sueco e escreve uma trama de suspense policial, semelhanças o bastante para ser comparado com Stieg Larsson. Porém, ele afirma que já existiam bons autores nórdicos do gênero antes do autor da Trilogia Millenium aparecer. Para ele, a Suécia é um país pequeno, exótico, gélido, perdido no Norte e que desperta curiosidade. Por isso, combinar essas características com um crime, atentado político ou teorias da conspiração cria uma dinâmica interessante.


OS PERSONAGENS

Henrik Pettersson é um homem jovem, sem uma família estruturada, sem estabilidade no emprego e cheio de pequenas frustrações com a vida. Tudo isso o faz ser bastante ambicioso e aceitar participar de um jogo em troca não só de dinheiro, mas da atenção de centenas de seguidores empolgados. Já Rebecca Normen, que tem um passado nebuloso e não cria vínculos emocionais, é a única mulher de um importante grupo de segurança do governo. Por isso, acaba se revestindo com uma aparência mais dura e seca, para parecer mais forte.

Personagens assim, complexos e com características anti-heroicas, enriquecem a história e a presença de tantas camadas colabora com a imprevisibilidade da história e das tomadas de decisão dos protagonistas. Com certeza, o maior destaque do livro, para mim.


teorias da conspiração

A primeira missão que o Mestre do Jogo entrega a HP é a de roubar um guarda chuva. Porém, a cada nova fase o Jogo fica mais desafiador e complexo. E este jogo instalado num celular estranho começa a se relacionar com uma série de acontecimentos históricos, como o atentado às Torres Gêmeas e a morte do primeiro ministro sueco em 1986.

Além disso, a gente percebe, aos poucos, que a escolha por Henrik Pettersson como um participante não foi nada acidental. Aqui o autor começa a desenvolver um texto político, explorando teorias da conspiração, segredos de Estado, as espirais presentes nas grandes empresas de mídia, vazamentos de informações… São muitos os temas que podem ser analisados a partir dessa história.
Vale dizer que o autor trabalhou como diretor de segurança da informação em uma das maiores empresas de TI do mundo, além de ser um ex-policial. Assim, fica claro entender porque ele domina tão bem as temáticas propostas na trilogia.


“PISCAR
É SUPOSTAMENTE O MOVIMENTO MAIS RÁPIDO QUE O CORPO HUMANO É CAPAZ DE FAZER.”


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[RUÍDO]

Henrik Pettersen terminou o livro anterior com dois milhões de dólares na sua conta. Com esse dinheiro ele conseguiu ajudar algumas pessoas que ele prejudicou com sua participação nO Jogo, pagar a hipoteca do apartamento da sua irmã, contratar advogados para fazerem todas as transferências legalmente e apagar alguns rastros que deixou no banco. Ao final, ainda sobrava mais de 1 milhão de dólares, mais que o suficiente para uma vida confortável.

HP passa a viajar pelo mundo, sempre amparado por disfarces, identidades e documentos falsos. Sua companheira em todo divertimento, porém, passa a ser uma espécie de paranoia, uma desconfiança enorme de que o Mestre do Jogo poderia descobrir onde estava a qualquer momento. Celulares, pessoas, ocorrências estranhas: tudo passa a ser observado severamente pelo protagonista.

Em [Ruído], segundo volume da trilogia The Game, depois de alguns acontecimentos desfortunados, passagens pelo continente africano e a instituição de novas relações e personagens intrigantes, Henrik Pettersen acaba abrindo mão do conforto para ganhar um emprego estável e entrar numa nova fase de investigações sobre O Jogo.


“PEÇA A PEÇA, TUDO COMEÇAVA A SE ENCAIXAR, COMO AS LINHAS QUE UNEM OS PONTOS COMEÇAM A SE TRANSFORMAR EM UMA IMAGEM.
UMA IMAGEM INQUIETANTE DO CARALHO.”


SINAL E INFLUÊNCIA

Para a Comunicação, principalmente no que diz respeito à Teoria Matemática da Informação, ruído é qualquer disfunção que atrapalhe uma mensagem de ser difundida ou passada da maneira ideal. Uma escolha bastante inteligente para o título da tradução, já que a ArgosEye, cenário principal deste segundo volume, tem uma participação muito forte na eliminação e no combate destes “sinais indesejáveis” na internet – apesar do ambiente virtual contribuir justamente para a afirmação de teorias mais modernas, que atestam que não é possível prever ou suprimir problemas diante do alto e constante fluxo de informação.

Porém, o título original, Buzz (algo que viraliza ou cria empolgação, principalmente online), faz ainda mais sentido durante o decorrer da narrativa – e se conecta diretamente também com o plot que Rebecca Normen ganha no segundo livro, onde passa a ser vítima de um desconhecido num polêmico fórum de internet.

Anders de la Motte se distancia um pouco das conspirações sobre acidentes e atentados mundiais que levantou no livro anterior e coloca em questão aqui o lançamento de publicidade disfarçada de opinião na rede, o compartilhamento de “informações pessoais de outras pessoas”, a liberdade e o anonimato que as redes sociais nos dão, a intenção de marcas e empresas com o controle da informação e até mesmo a construção de um novo estilo de vida por personalidades da internet, como as blogueiras e youtubers.

“É como uma massa crítica, um ponto em que muitas pessoas começam a dizer a mesma coisa até que aquela opinião se torna uma verdade aceita. E espalhadas por aí há milhares e milhares de pessoas que estão tão desesperadas para viver uma vida diferente das que tem que eles só podem ficar felizes em absorver o que as pessoas certas podem lhe oferecer. Fragmentos da vida dos outros, que eles inconscientemente encaixam em suas próprias vidas. Produtos, tendências de alimentação, marcas registradas, opiniões – tudo!” Este trecho do livro te lembra alguma coisa?

Para desenvolver todos esses temas (e deixar o leitor com ainda mais perguntas), o autor, que foi diretor de uma das maiores companhias de TI do mundo e entende bem do assunto, abre mão da ação do primeiro livro – e também diminui, de certa forma, o número de reviravoltas na história.


A MALDIÇÃO DO SEGUNDO LIVRO

A diferença entre os dois volumes é bastante clara. Mas [Ruído] não chega a ficar lento ou desinteressante por causa disso (ao menos para mim, que gostei das questões levantadas e não me importei com a quantidade menor de perseguições e socos na cara). A quantidade de diálogos é maior, o que acelera a narrativa, e o clima de suspense e tensão aqui aumenta.

Esses fatores contribuem, então, para o principal ponto do livro: Anders de la Motte não parece estar enrolando o leitor, como costuma acontecer em “segundos livros de trilogias”. Algumas respostas sobre O Jogo e o primeiro livro já são oferecidas aqui para o leitor, que pode enriquecer e transformar suas teorias sobre o desfecho da história de HP e Rebecca.

[Ruído] entretém, enquanto provoca reflexões sobre temas relevantes e atuais e te deixa ainda mais apreensivo e curioso com os segredos que o Mestre do Jogo pode guardar – reafirmando o autor como uma das minhas melhores descobertas literárias dos últimos tempos.


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[A BOLHA]

Imagine que você conseguiu sair ileso de um Jogo que diz que não aceita desistências e conseguiu descobrir segredos e expôr uma grande empresa de tecnologia e marketing digital. Você acha que conseguiria algum momento de paz? Sua cabeça não deixaria de o alertar sobre os perigos que ele corre a todo momento – é o que acontece com Henrik Petterson e a situação em que ele se encontra no início do último livro da trilogia. Afinal, só existe um motivo para que ele esteja quieto e não tenha sofrido grandes represálias até agora: o Jogo ainda tem mais uma rodada.

Em [A Bolha], a gente acompanha HP procurando lidar diretamente com o Mestre do Jogo. Agora que ele reuniu informações sobre as empresas que guardam os controles do Jogo, ele precisa traçar um plano, invadir o local e tentar acabar com os servidores deste sistema.
Novamente, a trama ganha os ares de ação do primeiro livro, porém, HP precisa tomar decisões sem receber o controle de um aplicativo de celular. E, considerando que este protagonista da série não está muito aí para licitude e cuidado, as decisões que ele toma às vezes são ilegais, às vezes não muito inteligentes. Justamente por isso, nada mais do que a gente esperava deste personagem muito bem construído pelo autor.


“Esse era o problema com as teorias da conspiração.
Uma vez que você passava a aceitar a sua existência, era impossível dizer onde elas realmente terminavam.
Só porque você está paranoico, não significa que eles não estão realmente atrás de você…”


PASSADO

O que eu não esperava de jeito nenhum quando a série começou é que, para desmantelar o Jogo e ajudar o informação a entender porque foi escolhido para estar ali, Rebecca Normen precisaria revirar o próprio passado e o passado de sua família. Na sua trama, ela está mais madura do que nunca, duvidando das pessoas antes de confiar e questionando as informações que recebe.

Ela sempre foi acostumado a trabalhar sozinha, já que empresas de segurança pessoal não são os lugares mais amigáveis do mundo com mulheres, mas aqui ela atinge seu ápice. Seu raciocínio está firme, suas decisões são certeiras e as poucas reviravoltas de sua trama são feitas não por erros, mas por novas descobertas que ela faz: sobre o pai, sobre tio Tage, sobre si mesma. Uma personagem carismática sem exageros e séria sem ser fria, Rebecca é outra cria de Anders de la Motte que vai deixar saudade.


FILTRO

Quanto aos conceitos que Anders de la Motte explorou aqui, temos a questão da bolha como aquilo que protege algo ou alguém do mundo exterior. Isto porque a narrativa de Rebecca começa quando ela é informada de que precisa ir até um grande banco sueco para retirar um cofre no nome do seu pai. Lá, encontra uma arma e alguns passaportes, as primeiras pistas que a despertam para a caçada sobre quem foi seu pai de verdade. O que ele teria feito de verdade durante a guerra?

Mas, o conceito vai se expandindo e a gente percebe que quem está numa bolha não é apenas este objeto, mas toda a sociedade. O Jogo dissimula, esconde informações, manipula. A maioria das pessoas não faz a menor ideia do que está acontecendo de verdade fora de sua casa – e, se tem uma ideia, é provável que ela esteja um pouco deturpada.

Este conceito, chamado de Filtro Bolha, é extremamente atual quando a gente fala dos grandes serviços personalizados de hoje em dia. Você recebe dicas, sugestões e informações apenas de coisas que você provavelmente vai gostar, baseado em serviços de geolocalização e nas avaliações que você já fez anteriormente nos aplicativos. Ou ainda, fica imerso em opiniões que reforçam e apoiam a sua própria ideologia, não tendo contato com o diferente, o criativo ou o novo. O seu passado determina imediatamente o seu futuro, percebe?
Pensando no Filtro e pensando no Jogo, faz ainda mais sentido agora entender que Anders de la Motte tenha escondido algumas fases num “mapa anterior”.


GAME OVER

Quanto ao desfecho: as últimas cenas são eletrizantes e eu fiquei tenso até a última páginas. Tudo foi muito bem construído neste último volume e eu caí feio nas pegadinhas que Anders de la Motte deixou ao longo da narrativa, ficando bem surpreso com as revelações finais. Ser um leitor burrinho às vezes é bem divertido, rs

A trilogia inteira vale muito a pena, pelos personagens, pelas discussões, pelo suspense… Muito recomendada para quem gosta de thrillers de ação, quer leituras rápidas e profundas e se interessa por teorias da conspiração e outras questões sobre este mundo pós-Snowden.


 

trilogia the game – anders de la motte – 272 páginas (cada) – darkside books
uma trilogia para… duvidar de todos os personagens e questionar os grandes eventos de sua própria realidade.
combina com… paranoias, empresas de tecnologia e câmeras de vigilância!
avaliação final: vale 5 celulares perdidos!

A Darkside Books é parceira do blog e enviou os três volumes desta série como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre desinstalou o aplicativo.

em algum lugar nas estrelas

Quando o pai de Jack saiu para servir no exército durante a guerra, Jack tinha nove anos e sonhava com o dia em que ele voltaria, daria um beijo forte em sua mãe, bagunçaria seu cabelo e tomariam um sorvete feito em casa.
Quando o pai voltou, entretanto, foi para o funeral da mãe. Não houve beijo, nem bagunça, nem sorvete. Os dois, estranhos um para o outro, encheram a casa de silêncio e se separaram aí, quando Jack, com treze anos de idade, foi deixado num colégio interno só para garotos.

É desse ponto que parte a viagem de Em Algum Lugar nas Estrelas.
Entre garotos adolescentes, caixas, quadros de aviso, aulas de latim e competições de regatas: era ali que Jack precisaria superar o luto e lidar com a morte da mãe. Distante do interior do Kansas e da segurança e firmeza de tudo que ele conhecia como mundo e perto de toda a ondulação do mar e areia fofa do Maine.


” – Está passando para a parte da navegação cedo demais.
Talvez deva se concentrar na beleza daquelas estrelas lá em cima, em vez de só pensar na função delas. Olhe para elas, admire-as, deixe que o fascinem, antes de esperar que elas o guiem.”

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Dentre todos os garotos que Jack conhece, um acaba saltando aos seus olhos. Early Auden. Um garoto pequeno para sua idade, introvertido, que acredita que existem cascavéis no norte, perdeu o irmão mais velho para a guerra, acalma as pessoas com o ruído branco das vitrolas e tem toda uma dinâmica própria para ouvir música. Mozart para os domingos, Louis Armstrong às segundas, Frank Sinatra às quartas e Glenn Miller às sextas. Terças, quintas e sábados são dias sem música. A não ser que esteja chovendo. Se está chovendo, independente do dia, é dia de Billie Holiday.

Earl também tem uma habilidade especial. A dádiva de ver números com cores, formas, tamanhos e texturas diferentes. Com sua mente operando de uma maneira diferente, ele consegue enxergar o número pi como uma história. O número 1 é Pi e os outros números são a história dele. Começando pelo número 3, sua mãe, bonita e bondosa, e o 4, seu pai, forte e bom. Nos outros números, Earl enxerga o mar, ondas, vulcões, estrelas, amigos, vilões e um infinito de outras alegorias.


“Enquanto olhava pela janela para o céu sem lua, revia mentalmente os eventos do dia. (…)
Mas, principalmente, lembrava a sensação de estar perdido, incapaz de determinar em que direção seguir. Olhar pela janela era como encarar um oceano profundo, e eu me imaginei flutuando, boiando à deriva sob um céu sem estrelas.”

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A história de Pi acontece em outro tempo, antes das estrelas terem nomes, de os homens saberem como usá-las para traçar caminhos, antes das grandes aventuras e navegações. Intrigado, Pi olhava fascinado para as estrelas, as admirava e, sobretudo, se perguntava “por quê?”. Com essa pergunta (ou todas as perguntas do mundo) ardendo no peito, ele resolve sair de casa, seguir a Ursa Maior e procurar por um motivo para tudo, descobrir seu lugar no mundo, conquistar seu próprio nome.

Em sua viagem, Pi vai precisar enfrentar diversos perigos, como um labirinto, marés cheias e violentas e um rio de lava incandescente. Contudo, todos estes obstáculos são apresentados como parte de uma jornada de auto-descobrimento. Pi está disposto a tudo para se tornar alguém mais sábio e que possa responder as perguntas que o despertaram.
Lotada de poesia, a história de Pi poderia ser uma quebra na narrativa (como acontece em alguns livros que optam por múltiplos pontos-de-vista), não fosse por todos os símbolos que completam a trama de Jack e Earl inseridos ali. Enquanto os capítulos se intercalam, a gente vai percebendo as pequenas metáforas que a autora, Clare Vanderpool, criou. Ao ligar os pontos, como estrelas em constelações, é impossível não se encantar com toda a expressividade que a imagem formada carrega – esta história dentro da história é como uma forma de resguardar Earl do mundo real ao mesmo tempo em que o encoraja.


“Chovia,
por isso eu sabia que o disco de Billie Holiday estava rodando na vitrola.
Sabia que a oficina de Early era quente e convidativa. Sabia que tinha sanduíches de pasta de amendoim prontos.
E sabia que Early estava lá.
Eu não estava sozinho.”

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Isso porque a história de Pi é aquilo que guia Earl, de certa maneira. Quando um professor suscita em Jack a dúvida de que o número pi não é infinito, Earl se coloca em um barco com o amigo para provar para ele que a história não pode ter um fim.
Em vários pontos fica claro que Em Algum Lugar nas Estrelas é um livro sobre amizade, companheirismo, lealdade, amor, confiança… Já, para mim, esta relação bonita de Earl com a narrativa (ou com a ficção, os romances, a literatura…)  é o que mais me chamou a atenção e me fez gostar tanto.

A gente vive num mundo onde tudo precisa ser útil, produtivo, trazer um resultado, um lucro, e por isso acaba rejeitando bastante a arte. Literatura, cinema, música: é tudo perda de tempo. A gente para tudo enquanto poderia estar fazendo alguma coisa de verdade.
Mas aqui fica clara a função da arte nas nossas vidas. Ela pode nos guiar em nossa própria jornada.
As histórias de pessoas que vieram antes de nós ou daquelas pessoas que fizeram parte da imaginação de alguém podem nos motivar, nos ensinar, nos ajudar a nos entender, a entender o mundo, a conquistar nosso caminho e nosso próprio nome. E, mesmo que nunca tenha pensado em navegar ou descobrir constelações ou procurar grandes ursos, em livros como Em Algum Lugar nas Estrelas, a gente consegue apreender os porquês do nosso mundo.


capaem algum lugar das estrelas – clare vanderpool – 288 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma história sobre encontrar seu caminho, um amigo para te acompanhar e suspender sua descrença diante das histórias das outras pessoas.
um livro para… sentir vontade de estudar constelações, pegar um barquinho e seguir por uma longa extensão de água.
combina com… chuva, poesia, billie holiday e balinhas coloridas.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não tem mais mãos transparentes.

cine book club: um guia

Quem está participando do projeto #medo31 tem o último final de semana livre, sem temas, para fazer uma sessão com três filmes que se relacionam com a a editora DarkSide Books.
As sugestões oficiais da staff foram o polêmico Menina Má, o brutal O Massacre da Serra Elétrica e o misterioso Donnie Darko. Porém, se você já viu algum dos filmes ou não estiver com lá muita vontade de assistir nenhum dos três, pode substituir por qualquer outro do catálogo Cine Book Club.

Para facilitar essas escolhas, algumas informações básicas sobre o filme, o livro e o enredo foram todas reunidas aqui. Tudo organizadinho em ordem alfabética, com datas e trailers para experimentar!


amityville

o livro: escrito por Jay Anson. (resenha em breve)
o filme: dirigido por Stuart Rosenberg, em 1979. Ganhou remake em 2005, por Andrew Douglas.
uma história para… quem não tem medo de histórias reais sobre presenças sombrias. Aqui, uma família passa a sofrer com fenômenos paranormais depois de se mudar para um casa onde terríveis assassinatos aconteceram.


a noite dos mortos-vivos + a volta dos mortos-vivos

o livro: escrito (baseado no filme) por John Russo, co-roteirista do filme.
o filme: dirigido por George Romero, em 1968.
uma história para… quem gosta de filmes com zumbis. A história é considerada fundamental para a criação do arquétipo de zumbis e do conceito de apocalipse zumbi na cultura pop.


de volta para o futuro

o livro: uma narrativa dos bastidores, por Caiseen Gaines. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Robert Zemeckis, em 1985 (com sequências em 1989 e 1990).
uma história para… toda a família! O humor é leve, o roteiro prende, as atuações empolgam e as questões debatidas fazem parte desse contexto.


donnie darko

o livro: composto pelo roteiro original de Richard Kelly, uma entrevista com o diretor e mais alguns extras. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Richard Kelly, em 2001.
uma história para… ficar pensando durante horas sobre o que essa história quer dizer, não chegar a conclusão nenhuma e sentir a necessidade de ver novamente.


evil dead – a morte do demônio

o livro: arquivos mortos reunidos por Bill Warren.
o filme: um clássico de 1981 de Sam Raimi (mas que ganhou um remake em 2013, pelo estreante Fede Alvarez).
uma história para… quem não se importa com uma premissa clichê: jovens que visitam uma cabana numa floresta e acabam invocando espíritos ao se envolverem com um livro encadernado em pele humana e escrito em sangue.
para quem já viu… está em exibição a 2ª temporada da série Ash vs Evil Dead, que se passa anos após o filme original, nos tempos atuais.


hellraiser – renascido do inferno

o livro e o filme: ambas são obras clássicas de Clive Barker, escritor e diretor. A novela é de 1986 e o filme de 1987. (confira a resenha)
uma história para… quem gosta de cenas fortes, estilo gore, e temas como sadomasoquismo, busca pelo prazer e moralidade.


labirinto

o livro: um romance de A.C.H. Smith, baseado no filme. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Jim Henson, em 1986.
uma história para… quem quer sentir um medo mais leve, numa obra meio tensa, cheia de enigmas e personagens esquisitos. É uma história de aventura e fantasia, com David Bowie no papel do vilão.


menina má

o livro: escrito por William March. (confira a resenha)
o filme: de 1956, dirigido por Mervyn LeRoy. No Brasil, recebeu o estranho título de “A Tara Maldita”.
uma história para… discutir de onde vem a maldade humana: ela é inerente ao ser humano ou é desenvolvida pelo convívio em sociedade? Para isso, nossa protagonista é Rhoda, uma garotinha que esconde muito bem a violência que pratica.


o exterminador do futuro

o livro: escrito em parceria pelo diretor James Cameron, o roteirista Bill Wisher e o escritor Randall Frakes.
o filme: dirigido por James Cameron, em 1984.
uma história para… quem gosta da clássica história de viagem ao passado para mudar o futuro. Aqui, porém, com uma dose a mais de tiro, explosões e corridas contra o tempo.


o homem que caiu na terra

o livro: uma ficção científica escrita por Walter Tevis. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Nicolas Roeg, em 1976.
uma história para… quem quer fugir do óbvio em matéria de extraterrestres. Na história, um antheano (interpretado por David Bowie no filme) é enviado à Terra motivado pela ausência de combustíveis em seu planeta de origem, porém precisará lidar com alguns conflitos da sociedade humana, como o alcoolismo, a ambição e a desconfiança.


o massacre da serra elétrica

o livro: escrito por Stefan Jaworzyn, dissecando o filme.
o filme: dirigido por Tobe Hopper, em 1974.
uma história para… quem gosta de narrativa viscerais, questões controversas e aquele terror puro e simples.


os goonies

o livro: escrito por James Kahn, baseado no filme. (confira a resenha)
o filme: criado por Steven Spielberg e dirigido por Richard Donner, em 1985.
uma história para… sentir a vibe do anos 80, se divertir com um dos grupos de protagonistas mais legais de todos os tempos e celebrar o poder de uma amizade. Um clássico filme de sessão da tarde.


os pássaros

o livro: escrito originalmente por Frank Baker, em 1936 – a edição brasileira é a tradução da versão revisada de 1964. (resenha em breve)
o filme: dirigido por Alfred Hitchcock, em 1963. Nos créditos, Hitchcock diz ter se inspirado em um conto de Daphne Du Maurier, porém ambos foram processados por plágio por Baker.
uma história para… observar os detalhes e se questionar sobre as intenções e motivações dos pássaros: uma força da natureza ou uma manifestação do sobrenatural?


psicose

o livro: escrito por Robert Bloch, em 1959.
o filme: um clássico de 1960 do diretor Alfred Hitchcock.
uma história para… ficar tenso com uma das cenas mais icônicas do cinema de todos os tempos, perceber as minúcias do enredo e tentar descobrir o final antes da hora.


sexta-feira 13

o livro: arquivos de Crystal Lake reunidos por David Grove, com prefácio de Tom Savini, responsável pela maquiagem e os efeitos especiais do filme.
o filme: dirigido por Sean S. Cunningham, em 1980.
uma história para… contar as mortes, sequência por sequência, até chegar em 146.


star wars: a trilogia

o livro: é a reunião dos três volumes de romances inspirados nos três primeiros filmes lançados nos cinemas: o Episódio IV: Uma Nova Esperança, escrito por George Lucas, o Episódio V: O Império Contra-Ataca, escrito por Donald F. Glut, e o Episódio VI: O Retorno de Jedi, escrito por James Khan.
o filme: dirigidos por Goerge Lucas, os três filmes da trilogia clássica foram lançados em 1977, 1980 e 1983, respectivamente.
uma história para… entrar de cabeça, torcer pelo seu lado favorito e sacar todas as referências dispostas em outros filmes, séries, músicas e elementos da cultura pop (e são muitas!).


tubarão

o livro: escrito por Peter Benchley. (confira a resenha)
o filme: dirigido por Steven Spielberg, em 1975, com roteiro do autor do livro.
uma história para… refletir sobre algumas questões da sociedade (como o papel da segurança pública e do jornalismo), no caso do livro, ou ficar tenso e com medo da música clássica que prenuncia a chegada do tubarão, no caso do filme.


warriors – os selvagens da noite

o livro: escrito por Sol Yurick. (confira a resenha)
o filme: de 1979, dirigido por Walter Hill. Um clássico das sessões da madrugada da Rede Globo.
uma história para… ficar com medo de sair de casa e andar pelas ruas da cidade à noite, com medo de encontrar gangues dispostas a ser violentas sem motivo aparente. Com trama rápida e acelerada, tudo acontece no ritmo intenso e no clima sombrio de uma madrugada qualquer.


M.E.D.O. – Movie Everyday in October
é um projeto criado por mim e pelo Márcio Reis, do leitor97,
com o apoio da editora Darkside Books e dos canais Encrenca em Dobro, Pipoca Musical, Redatora de Merda, Tabatha Belzareno e Zona de Conspiração,
e um monte de participantes lindos no grupo no facebook.


Andre assiste o filme antes de ler o livro.

labirinto – a magia do tempo

Todo mundo que tem um irmão já deve ter se perguntado alguma vez sobre como sua vida seria diferente se fosse um filho único. Às vezes, incomoda ter por perto alguém com quem se é facilmente comparado, ou com quem se é preciso dividir todas as coisas, ou ter alguém para tomar conta quando, na verdade, você não se vê com responsabilidade o bastante para cuidar nem de você mesmo.

Sarah, cansada de precisar cuidar do irmão pequeno sempre que o pai e a madrasta saem de casa, se sente injustiçada e resolve apelar para um livro de couro avermelhado e letras douradas (te lembra alguma edição da DarkSide Books?). No livro, encontra as palavras que precisava – “Rei dos Duendes! Quero que seja assim: Venha e leve esta criança para bem longe de mim!” – ou algo do tipo. E o que ela mais desejava acontece.

Jareth, o Rei dos Duendes, já velho, cansado de estar cercado somente por duendes desorganizados e desatentos e preocupado com quem dará sequência ao seu reinado, leva Toby, o irmão de Sarah, para seu mundo disposto a criar o garoto a vida inteira já com essa missão em mente.

Quando percebe a força de suas palavras, Sarah cai em si, se arrepende e diz a Jareth que ela nem queria tanto assim que o irmãozinho desaparecesse. Tarde demais, ele informa. Porém, generoso (e bem ciente de que ela jamais conseguiria realizar tal feito) oferece que ela busque o garoto em seu grande castelo, depois de atravessar um labirinto tenebroso, em até treze horas. Se este tempo acabar, suas palavras serão seladas como um acordo sem volta e o garoto virará um duende para sempre.


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“Sarah sentiu as lágrimas subindo aos olhos, mas se livrou delas piscando várias vezes. Ela conseguiria.
Não havia limites para o que era capaz de fazer, dada sua determinação (coisa que ela certamente tinha) e sua esperteza (algo que nunca lhe havia faltado até ali, embora admitisse que em apuros mais comuns), e talvez um pouco de sorte (que ela merecia, não é?).
Ela conseguiria, jurou ali, sentada na encosta escura, sem a menor ideia de como dar o próximo passo.


Labirinto é uma daquelas histórias que dá gosto de ler, sempre na expectativa de que algo mais maluco e divertido aconteça. Isto porque o cenário é bastante mutável e sofre várias transformações o tempo inteiro. Dependendo das esquinas que Sarah escolhe virar ou das paredes que ela resolve atravessar, ela pode encontrar tanto um abismo fedorento quanto um jardim onde está acontecendo uma grande festa. Em cada lugar, novos amigos, inimigos, enigmas e desafios a serem resolvidos para que ela continue sua viagem em busca do castelo de Jareth.

O Labirinto também guarda uma série de personagens bem característicos de livros infantis, todos com adjetivos interessantes, aparecendo e desaparecendo ao longo da jornada de Sarah. Batedores que falam, um guarda da ponte que só permite atravessar quem responde seus enigmas, os aloprados Foguentos, as cabeças voadoras dos aloprados Foguentos, um senhor peludo de aparência cavalheiresca, um animal gigante que procura por apego emocional…
É legal ver também como foi criada a versão destes seres no que se diz respeito ao filme. Para isso, a gente pode ver os esboços e ilustrações de Brian Froud. A edição de Labirinto traz algumas páginas com uma galeria de imagens conceituais utilizadas na produção do longa e criação dos bonecos.

Esta edição do livro também traz rascunhos de Jim Henson, o criador dessa coisa toda. O diretor associou seu interesse por mitologia e folclore e seu gosto por jornadas encantadas (como a de Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz) para criar seu segundo filme de fantasia, o sucessor de O Cristal Encantado, também uma parceria com Brian Froud.
Em várias páginas que reproduzem o Diário de Criação de Henson, a gente pode notar que, em seus rabiscos, mesmo tendo consciência de que uma boa história era o que mais importava em um filme, ele preferiu optar por começar criando fichas e descrições de personagens, cenários e dos perigos que apareceriam no meio do caminho de Sarah. Para quem gosta de descobrir sobre métodos de criação e criatividade ou é um fã de Labirinto e quer saber mais sobre como ele foi criado, essas páginas são um grande presente.


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“Sarah tentava descobrir em que ponto deveria ter feito uma escolha diferente.
Era impossível.”


Enquanto Jim Henson e Brian Froud conseguiram criar uma narrativa divertida através de músicas, cores, bonecos e cenários, A.C.H. Smith conseguiu dar uma roupagem gostosa e leve para a história somente através de suas palavras, embarcando no psicológico dos personagens e transmitindo muito bem a essência do universo já criado.
Indicado tanto para aqueles que já são fãs do filme quanto para aqueles que nunca tiveram contato, Labirinto é uma história sobre como nossas escolhas influenciam nosso futuro e como devemos tomar cuidado com o que desejamos, com quem encontramos no nosso caminho e, principalmente, com seres que tem as cabeças soltas do pescoço.


labitintelabirinto – a.c.h. smith (romance), brian froud (galeria de ilustrações) e jim henson (diário de criação) – 272 páginas – darkside books

em 140 caracteres… uma história de aventura e fantasia sobre o poder dos nossos sonhos e sobre ter responsabilidade por nossas decisões.
um livro para… ficar preso e angustiado com a jornada da protagonista, mas também rir com os tiques e características dos personagens ao seu redor.
combina com… corridas contra o tempo, chá e anões.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não fica aloprado quando o chamam de aloprado.

a visita da solidão

o antheano

Anthea é um planeta comumente confundido com Marte, mas que não é Marte. Ele talvez esteja ali, na mesma direção que Marte, e também faz parte do sistema solar (ou você já ouviu falar de algum outro sistema?), mas são coisas diferentes.
Hoje, Anthea sofre com uma ausência drástica de combustíveis – não há mais gasolina, diesel ou qualquer coisa do tipo – mas houve um tempo em que eles tiveram combustível o suficiente para enviar apenas um antheano para a Terra: Thomas Jerome Newton.

Depois de um treinamento pesado, Newton deixou sua esposa, as pessoas com quem ele se relacionava e seu planeta para trás para embarcar numa missão: construir uma nave espacial na Terra e voltar para buscar os de sua espécie que ficaram em Anthea.

O Homem que Caiu na Terra começa assim que este ser estranho pousa na Terra. Disfarçado de humano, ele precisará enriquecer, conseguir o material e a mão-de-obra necessários para sua empreitada. E isso não será difícil já que Newton trouxe grandes ideias e conhecimento do seu planeta, além de ter naturalmente uma inteligência mais aguçada que a dos humanos.

No livro, mais do que acompanhar esta jornada, narrada de uma maneira tão tensa quanto poética, também vemos o que acontece quando um antheano encontra a cumplicidade de uma mulher e desperta a desconfiança de um cientista  – relações que ganham traços melancólicos pelo olhar pessimista do autor, que escreveu esta obra em meio à Guerra Fria e à eminência do fim do mundo.


“Uma espaçonave erguida em uma pastagem do Kentucky, cercada por montanhas outonais e cujo dono era um homem que escolhera viver em uma mansão com uma empregada bêbada, um secretário francês, papagaios, quadros e gatos.
Entre a nave e a casa ficavam a água, as montanhas, o próprio Bryce e o céu.”


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o humano

Por ser um livro de ficção científica e centrado num ser extraterrestre, pode ficar a impressão de que O Homem que Caiu na Terra é um livro sobre a conquista de outro planeta, a busca por recursos naturais e a tentativa de construção de relações interplanetárias. Se formos olhar por um lado, sim, a verdade é que O Homem que Caiu na Terra realmente é isso. Porém, Walter Tevis vai além.

No meio de algumas frases técnicas e jargões científicos típicas deste gênero, entram reflexões sobre do que é feita a nossa identidade e o que nos torna humanos.


““(…) Às vezes, vocês nos parecem macacos soltos em um museu, correndo com facas, rasgando os quadros e quebrando as estátuas com martelos.”
Bryce não conseguiu falar imediatamente. “Mas foram os humanos que pintaram os quadros e fizeram as estátuas.”
“Apenas alguns humanos”, respondeu Newton. “Apenas alguns.””


Primeiro, pela questão aparência. Thomas Jerome Newton precisa esconder seus olhos de gato, se vestir de outra maneira e se portar de uma maneira diferenciada. Mesmo assim, permanece andrógino, impúbere, alto, magro e delicado demais para os padrões de nossa espécie.

Depois, vem a convivência. O alienígena, ainda em Anthea, assistia diversos programas de televisão do nosso planeta, tentando copiar gestos, idioma, sotaque, trejeitos e qualquer pequeno detalhe de nossas linguagem e regras de etiqueta e socialização. Já na Terra, mesmo com uma inteligência bem superior à nossa, se rende a vícios humanos, como o álcool, e exagera na ambição.

Contudo, Newton ainda se sente deslocado. Ele tem um corpo, ele tem habilidades, ele consegue notoriedade pelo seu trabalho no campo científico, mas ainda é solitário.
Ali não existem semelhantes. Fingindo, ele se torna apenas uma cópia dos que estão ao seu redor. E isso não é o suficiente para se reconhecer quando se vê no espelho – nem mesmo quando tira suas lentes ele se enxerga.
Ter sua identidade apagada o torna cada vez mais infeliz.


““Se você fosse de Marte realmente estaria sozinho”, disse Bryce, observando os patos. Se ele fosse de lá, seria como um pato solitário no lago – um migrante cansado.
“Não é preciso.”
“O que não é preciso?”
“Ser de Marte para se sentir sozinho. Imagino que você já tenha se sentido sozinho muitas vezes, dr. Bryce. Se sentido alienado. Você veio de Marte?””


Walter Tevis construiu em O Homem que Caiu na Terra mais do que uma ficção científica sobre um ser de um planeta afastado nos visitando. Criou uma história sobre o que acontece quando nós nos afastamos da nossa essência. A visita da solidão e da tristeza profunda.


capao homem que caiu na terra – walter tevis – 224 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma ficção científica sobre nossos limites, ambições, arrogância e vícios como humanos.
um livro para… sentir umas bad vibes e uma melancolia aguda.
combina com… questões existenciais, respirar profundamente e sentir o ar nos pulmões.
para quem já leu… o documentário HUMAN, do fotógrafo e cineasta Yann Arthurs-Bertrand. em 3 anos, o francês entrevistou mais de 2 mil pessoas em 70 países e 63 idiomas, levantando questões e reflexões sobre nossa condição humana. assista e saiba mais aqui.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

* Ilustração do topo por Igor Frederico.

Andre volta quando se afasta.