a fábula da última guerra

Miguel é um adolescente perdido num mundo apocalíptico – um apocalipse provocado pelos homens, uma guerra na qual perdeu toda a sua família para a destruição. Quando se vê solitário, ele corre pelo jardim, tenta pedir socorro, desce e sobe a rua e, a princípio, não encontra ninguém que pudesse o ajudar. Até que esbarra num velho que recolhe objetos pela rua.

Primeiro, vem a desconfiança. Depois, o encontro acaba se mostrando como a única forma de acabar com o arrasamento do mundo. Mas, para isso, Miguel precisa resolver não somente o conflito externo, armado. Há uma guerra dentro dele que precisa ser vencida. Ele precisa aniquilar todas as suas dúvidas. É necessário uma decisão.


“Desde que minha casa foi destruída, vivo nas ruas, sem amigos, escondido de todos. E já faz tempo que ando a esmo.
Ora durmo aqui, ora ali, quase sempre sob os escombros.
Ontem, por exemplo, dormi na sala de aula de uma escola abandonada. Me alimento com o que me dão pra comer ou com o que consigo roubar.
Agora sou só eu e esta mochila, que achei por aí. Tudo que tenho na vida está dentro dela.”

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O clima em A Última Guerra é de tensão. O livro caminha o tempo todo, rapidamente, como uma contagem regressiva. A cada página, novas questões precisam ser exploradas e segredos são revelados para que o mundo não acabe ali. É interessante notar também que tudo acontece focando ações e pensamentos – não há espaço para grandes descrições, contudo a rapidez com que tudo acontece já deixa clara a urgência com que a temática precisa ser tratada.

Miguel conhece o personagem que segue as páginas ao lado dele no meio da história. Existe desconfiança e preconceito, porém juntos eles tem a oportunidade de mudar o mundo e acabar com a guerra. Miguel, então, precisa ser mais corajoso e confiar nesse desconhecido. Uma mensagem interessante sobre não se render às aparências e procurar mais profundidade nas pessoas com quem você convive.

Sem muitas explicações convincentes, com um pano de fundo raso e uma quantidade de diálogos enorme, o livro pode deixar a desejar.
Porém, funciona bem como uma fábula. O ar é fantasioso e a violência e a destruição levam tudo às últimas consequências. O “exagero” aqui é uma ferramenta dos autores, Luis Braz e Tereza Yamashita, para deixarem em claro um posicionamento antibélico – ou, mais do que isso, a possibilidade e a responsabilidade que todos temos para construir um mundo diferente, novo, mais tolerante e respeitoso.
O fim da guerra precisa partir da gente.


465555_231107557005250_1356611430_oa última guerra – luiz bras e tereza yamashita – 112 páginas – editora biruta
em 140 caracteres… uma história sobre guerra diferente e inusitada, que levanta um bom ponto mas deixa alguns furos.
um livro para… ler de uma única vez, vivendo a mesma emergência dos personagens.
combina com… barriga feliz, indecisões e esconderijos.

A Biruta é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Você pode conhecer todo o catálogo da editora aqui e acompanhá-los no blog Biruta Gaivota, no Facebook e no Instagram.

Andre é um felizardo.

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grito, delírio e certeza

Fausto é um ator nato. É essa uma das primeiras descrições que a gente recebe desse rapaz em Grito, livro de Godofredo de Oliveira Neto. Porém, ele ainda não recebeu grandes oportunidades em sua carreira e vive passando de um emprego aqui para um bico ali, atendendo num cinema inferninho, numa agência de turismo ou no caixa de uma loja inglesa de sanduíches.

E então Fausto conhece Eugênia, uma ex atriz, famosa, que já passou por diversos personagens, roteiros e montagens em toda sua vida. Eugênia logo se encanta com este jovem, orgulhosa de conhecer alguém como ele, tão talentoso quanto determinado a viver do teatro e fazer da arte um sentido para sua vida. Disposta a ajudá-lo com suas dicas de veterana, os dois se inspiram na vida de Fausto para escrever juntos peças onde Fausto interprete os personagens, baseando-se nas cenas que ele mesmo viveu. Os dois trocam ideias, criam narrativas, discutem cenários, trilhas e figurinos… E fundam juntos, no conjugado onde vive, uma sala de teatro privada, batizada em homenagem à irmã gêmea do jovem que nunca nasceu.

Quando Fausto é iluminado pelo holofote da sala Ifigênia de Sá Sintra, sua pele escura ganha tons ainda mais belos. Quando Fausto brada sua voz, extraordinária para o teatro, qualquer exclamação ganha uma dramaticidade impressionante. E quando Fausto recita a resposta de Iago, de Otelo, de Shakespeare, a Rodrigo (“O amor é mera lascívia do sangue e simples complacência do desejo”) o espaço do apartamento trezentos e oito se preenche de poesia.

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“A voz do amor.
O desejo trazido pela linguagem, a linguagem que exprime o desejo.
Amor e paz. É o que aprendi na minha religião.
E você é só violência.”


De início, a relação dos dois é bastante profissional. Juntos, estes vizinhos se encontram diariamente e debruçam-se sobre suas vidas para criar as peças que a gente encontra no livro, em forma de roteiro de peça teatral mesmo. Além disso, as encenações e apresentações numa sala tão restrita evoca intimidade e a relação dos dois começa a tangenciar o afeto. É quando a gente percebe que Eugênia, que narra em primeira pessoa as passagens corridas do romance, parece começar a se empolgar demais com a situação.

Eugênia é viúva. Idosa, sem muitos amigos vivos, poucos restaram do Retiro dos Artistas. Sem filho ou familiares. Tudo que restou para ela são sua memória artística e a capacidade de repetir tiradas inteiras dos espetáculos em que atuou. Logo, toda essa atenção que recebe de Fausto, utilizada tanto como companhia no presente quanto como um resgate de seu passado quando jovem nos palcos, era bem capaz de se tornar mesmo algo maior e exagerado. Um sentimento de platonismo e possessividade começa a ganhar a narrativa.


“Fausto me disse ter lido depois o argumento com uma amiga, Leila Mara. Ela fazia o papel da Alice, a protagonista. A amiga adorou a peça, segundo ele. Na minha opinião é mentira dele.
Para Fausto de Sá Cintra eu sozinha preencho todo o seu afeto e toda a sua arte.”

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Grito é um livro sobre obsessões. É feito de uma mulher obcecada pelo teatro, por um rapaz e pelo seu passado. E de um jovem tão obcecado pela arte que a projeta na própria vida e nas próprias experiências. Narrado de uma forma apaixonada, com os desejos muito bem expostos e transmitidos, mesmo que a estrutura do produto final seja atípica, destinada a um interlocutor além do leitor.
Godofredo de Oliveira Neto mistura na escrita o formato de peça teatral com o romance, a vida real dividida com a arte, diversas ficções dentro da ficção. Isso sem falar nas frases completas, citações e referências a outros textos clássicos do teatro. Um jogo que mistura certezas e delírios se desenrola a cada novo ato.

Essa escolha confunde e desorienta, mas também deixa o leitor ainda mais instigado, prestando atenção nos detalhes e tentando compreender as ações dos personagens, enquanto caminha para um desfecho dramático e inesperado. Ao final, acaba sendo impossível não desejar que as cortinas fiquem abertas por mais tempo para se contemplar a potência da arte.


livro_yaghehgrito – godofredo de oliveira neto – 160 páginas – editora record
em 140 caracteres… a arte imitando a vida e a vida imitando a arte, tudo ao mesmo tempo, entrelaçadas nas páginas.
um livro para… ser lido num único fôlego, como se assistindo a uma espetáculo.
combina com… confissões, tragédias, memória e solidão.

* Ilustrações do post por Clari Esborraz.

Este livro foi enviado como cortesia pela agência Oasys Cultural para que esta resenha acontecesse (independente disso, o texto reflete a opinião do autor).

Andre não tem um ator favorito.

o menino que desenhava monstros

Primeiro, veio uma mania por quadrinhos. Depois, uma paixão bem forte por jogos de tabuleiro. Apenas fases, que não se comparam em nada com o hábito quase obsessivo de Jack Peter desenhar. Ele desenha algumas coisas e pessoas que enxerga, o que não é nada preocupante para uma criança, mas tudo começa a se transformar quando o garoto de 11 anos começa a desenhar monstros.
Criaturas estranhas, imagens tensas, seres imaginários… Tudo pode ser estampado nos papéis de desenho de Jack. O que ele não esperava é que isto desencadeasse visões assustadoras no seu cotidiano. Jack começa a enxergar embaixo da sua cama os monstros que ele desenha.

Este plot sobrenatural poderia servir muito bem para um livro que misturasse o terror e a fantasia, mas esta claramente não foi a intenção de Keith Donohue ao escrever O Menino que Desenhava Monstros. Ao colocar no centro deste conflito uma criança com Síndrome de Asperger e que desenvolveu Agorafobia depois de um acidente onde quase de afogou, a história ganha tons mais dramáticos, abordando questões familiares nada simples, mas sem deixar o suspense de lado.

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“Apenas dê uma olhada, papai.
Ele está lá fora agora.”


O Menino que Desenhava Monstros começa quando Jack resolve alarmar os pais sobre o que ele tem visto, o que acaba trazendo duas reações opostas e alguns conflitos dentro de casa.

Tim, o pai, tem uma visão extremamente otimista da situação do filho. Ele acredita que o este estado do espectro autista de Jack Peter não está estagnando e que todas as complicações que esta condição pode trazer não devem evoluir. Com apoio, carinho e a criação de um ambiente seguro dentro de casa ele acredita é possível que o garoto não retroceda nos tratamentos. Por isso, o pai tem como reação a este aviso sobre os monstros embaixo da cama a intenção de criar um ambiente mais seguro e agradável para o filho.
Já Holly, a mãe, tem uma visão mais negativa sobre a condição do filho e acredita que estas visões de Jack podem ser enxergadas como um aviso de algo está errado e que novas medidas, mais enérgicas, precisam ser tomadas em relação a isso. Para ela, o melhor caminho é encaminhá-lo para um hospital especializado.


“”É uma fase”, cortou ele.
“Não é uma fase, Tim. Não é só mais um maldito capítulo, é todo o resto da história.””


Para mim, o autor tratou desta questão relacionada à neurodiversidade com bastante cautela e o resultado foi bem realista.
As passagens depois do desenvolvimento da Agorafobia no Jack onde o autor relata como é cansativo para os pais levar o filho para consultas médicas é muito angustiante e quase deve retratar como alguém com aflição de estar ao ar livre deve se sentir.
Em outra cena, quando acordado de surpresa pela mãe, Jack acaba a agredindo. Holly fica em choque e, ao procurar aconselhamento religioso, se descarrega com um sacerdote e diz que odeia o filho. Pode parecer exagerado ou cruel que uma mãe diga isso, contudo é possível sentir bastante empatia por ela quando a gente para pra pensar no quão angustiante deve ser tentar criar algum tipo de conexão emocional com seu filho e não receber nenhum grande retorno.

Ainda vale dizer que a presença do pai na história é fundamental para mostrar também o quanto estas questões são sérias e não devem ser encaradas somente com base em “achismos”. Afeto é fundamental em situações como esta, mas o tratamento médico e terapias comportamentais também precisam ser procuradas.

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O livro tem sempre uma narração em terceira pessoa, porém o foco vai mudando de uma personagem para outra em vários momentos. Porém, Keith Donohue, além de narrar cenas em lugares diferentes que acontecem ao mesmo tempo, também se preocupa em trazer as visões dos diferentes integrantes desta família, mesmo que tenham compartilhado um cômodo logo antes.
Isto pode se tornar repetitivo ou maçante para algumas pessoas, mas observar os vários pontos de vista é fundamental para a construção da visão do leitor sobre a dinâmica da família (e também torna o autor isento na questão das questões sobre saúde). E procurar padrões e repetições e notar como cada personagem observava as coisas de maneiras diferentes foi bem estimulante para mim.

A guinada maior na narrativa, quando o suspense se torna mais intenso em O Menino que Desenhava Monstros, vai acontecer mesmo somente quando os outros personagens ao redor de Jack começam a perceber coisas estranhas também. Um homem branco como o leite, alto e esguio aparece para Tim numa autoestrada. Holly começa a ter a sensação permanente de alguém está os vigiando e tentando invadir a moradia da família. E um outro personagem, Nick, o único amigo de Jack (e que esteve envolvido no incidente do afogamento), começa a sentir coisas estranhas também, o que o faz questionar ainda mais sua amizade com o “garoto estranho da escola”.


“Não tenha tanta certeza sobre as coisas que não pode ver. A mente conjura o mistério, mas é o espírito que fornece a chave.”


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Cada personagem de O Menino que Desenhava Monstros vai buscar em realidades diferentes suas respostas e soluções para a questão dos monstros que parecem passear pela cidade. Um busca reforço policial. Outro vai estudar as lendas que envolvem um rio perto da casa da família. Vão aparecer ainda explicações em mitos orientais e a busca por um entendimento por vias espirituais e religiosas.

O mais legal dessa leitura é que em nenhum momento Keith Donohue vai dizer em que você deve acreditar. Quem lê precisa criar suas próprias teorias: seria tudo isto imaginação ou realidade? A única coisa que posso afirmar é que a cada mudança de perspectiva, tudo pode se transformar.


cco menino que desenhava monstros – keith donohue – 256 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um suspense que envolve segredos familiares, acontecimentos estranhos e um limite não muito claro entre realidade e imaginação.
um livro para… ficar intrigado com os ocorridos, criar diversas teorias e poder acabar bem surpreso com as últimas linhas.
combina com… nevascas, pesadelos e lugares inóspitos.

* Foto do post via deathtostockphoto

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre quer encontrar a saída do quarto.

4+1 | fábrica de vespas

 

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4 MOTIVOS PARA AMAR…

1) personagens loucos

Livro estranho com gente esquisita: todo personagem de Fábrica de Vespas tem suas particularidades e um pezinho na insanidade. Pra começar, o protagonista, Frank, tem vivido uma fase de cometer atrocidades com animais (depois da morte, ele pega seus corpos, enfia em estacas e coloca no litoral da ilha onde mora para que sirvam de aviso para estrangeiros). Antes disso, contudo, viveu uma fase de assassinatos, apenas pela curiosidade, procurando entender como funciona suas reações e emoções e como poderia manipulá-las. Frank tem hoje 16 anos.

Enquanto isso, Eric, o irmão de Frank, parece ser louco no sentido patológico e diagnosticado da palavra, já tendo passado por tratamentos e vivendo numa casa de recuperação psiquiátrica.
E eles tem a quem puxar: O pai desses rapazes é uma figura bem contida e tem uma obsessão por saber as medidas exatas de todas as coisas ao seu redor (quanto mede cada um dos móveis, quantas libras tem cada objeto, qual a capacidade das tigelas de sopa da casa) e esconde com todo o cuidado o que guarda em seu escritório.
Conhecer o passado dessas pessoas, descobrir seus segredos e tentar prever seus próximos passos é uma das coisas mais intrigantes no livro.


2) a política

Frank, apesar de nos ser apresentado com esse nome, não foi registrado em lugar nenhum. Para a civilização, ele não tem identidade.
Essa é uma forma bem pertinente de Iain Banks deixar claro que o garoto não assinou nenhuma espécie de pacto social. Frank é sua própria ilha, numa alusão a Senhor das Moscas. Ele cria suas regras, tem um modo próprio de enxergar o mundo e técnicas bem estranhas de tentar controlá-lo. A Fábrica de Vespas, por exemplo, é uma dessas excentricidades que só fazem sentido para ele, mas que são afirmadas veementemente durante a narração em primeira pessoa.
Para exercer seu poder, Frank também “rebatiza” algumas coisas da nossa sociedade ou simplesmente cria nomes e seu próprio mapa da ilha. Entender os significados dos termos em letra maiúscula, como Destruidor Negro, Círculo das Bombas ou Campos de Coelho, é outra coisa interessante na experiência de ler Fábrica de Vespas.


“Sempre me pareceu que as pessoas não votam num novo governo porque elas realmente concordam com a sua política, mas só porque querem uma mudança. De alguma forma, elas acham que as coisas vão ser melhores com um pessoal novo.
Bom, as pessoas são estúpidas, mas essas coisas sempre parecem ter mais a ver com humores, caprichos e atmosfera social do que com argumentos bem-pensados.
Consigo sentir o mesmo tipo de situação se passando na minha cabeça.”
“Era como se as ideias que eu tinha, os cursos de ação que eu tomava, fossem que nem as diferentes medidas políticas que os países assumem.”


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3) a brutalidade

Nenhum animalzinho, por mais fofo ou dócil que pareça, está a salvo de Frank. O rapaz pega, destrói, estraçalha, explode e cria suas Estacas Sacrificiais, tudo com a maior naturalidade. Uma parte da mente de Frank até entende que o que eles faz é um absurdo, mas outra parte o encoraja a continuar com estes seus atos violentos. Porque isto o dá poder, faz parte de quem ele é e do que ele possui, faz ele se sentir bem.
Além das cenas de brutalidade com os animais da ilha, Frank também protagoniza três assassinatos curiosos, que acontecem de maneira tão planejada quanto espontânea. Tudo pode até ter sido calculado friamente na cabeça dele, mas sempre com o que está disponível por perto. Em um dos casos, por exemplo, como ainda era uma criança, uma pipa é utilizada como arma.

Mas Iain também fornece suas descrições cruas para os feitos de Eric também. O jovem foi acusado algumas vezes de atear fogo em cachorrinhos pela vizinhança e esse é o estopim para ele ser “exilado” da ilha onde moram e enviado para um hospital psiquiátrico. Antes disso, contudo, ele aparece no episódio mais perturbador para mim (para quem já leu, a passagem que se passa numa enfermaria). É chocante.

Tudo em Fábrica de Vespas é meio áspero e pode deixar alguém mais sensível aflito ou enojado. Então, fica o aviso de que Iain Banks não economiza na truculência durante sua criação e o que me fez gostar muito do livro pode fazer outras pessoas abandonarem.


“Eu acho que as represálias contra pessoas que tem ligações tênues ou muito distantes com aquelas que cometeram algum erro, na verdade, só servem para fazer com que o indivíduo que está se vingando se sinta bem. Tipo a pena de morte. Você quer pena de morte porque ela faz com que você se sinta melhor, não porque seja uma medida de restrição ou qualquer besteira assim.
Pelo menos os coelhos não vão saber que Frank Cauldhame fez o que fez a eles, do jeito que um grupo de pessoas sabe sobre o que os bandidos fizeram, com a vingança resultando no efeito contrário ao desejado, estimulando mais do que pondo fim à resistência. Pelo menos eu admito que fiz tudo para reforçar meu ego, recuperar meu orgulho e me dar prazer, não para salvar a nação, garantir justiça ou honrar os mortos.”


4) a narrativa

A narrativa de Fábrica de Vespas vai e volta no tempo. A gente acompanha o que Frank está vivendo enquanto descobre aos poucos o que ele guarda em seu passado: seus assassinatos em segredo, suas questões com a Fábrica, como chegou até onde está… Essa mistura de duas narrativas no que diz respeito à vida de Frank seria suficiente para manter o leitor preso e figurar aqui como um bom motivo para amar o livro.

Entretanto, Iain ainda adiciona uma carga a mais de tensão com a narrativa de Eric. O irmão de Frank fugiu do lugar onde estava internado e faz algumas ligações para ele durante a história. Os diálogos entre os dois são marcados uma sensação mista de estranheza e familiaridade. Ambos se buscam um no outro, mas conseguem perceber que o tempo passou e as coisas estão diferentes. E o resultado disso, desse encontro quando o retorno real de Eric finalmente acontecer, pode ser desastroso.


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…E UM PARA NEM TANTO

O desfecho: ele chega de repente, sem aviso. Você pode até criar diversas teorias, mas eu acredito que suas chances de adivinhá-lo são realmente mínimas. Iain Banks conseguiu me pegar de surpresa e eu gostei disso, porém, precisei de bastante reflexão para entender a proposta dele para o final, que carrega um grande segredo. Dica: o “discurso” de Frank na última página e, principalmente, o prefácio da edição, escrito pelo próprio autor, foram partes fundamentais nesse processo.
Entendi o que ele quis transmitir, mas ainda não fiquei totalmente decidido se gostei ou não. E é a certeza de que o desfecho divide opiniões (ou te deixa sem qualquer opinião também, como aconteceu comigo, e tá tudo bem) é que deixa ele figurando como um motivo para você talvez não gostar tanto assim dessa obra.

Claro, vale lembrar que o fim é parte de um todo maior e o medo de não gostar do final não deveria fazer ninguém desistir da leitura de Fábrica de Vespas. Essa foi uma das experiências mais legais e notáveis de leitura que tive este ano e recomendo para todo mundo que quer experimentar algo no mínimo inusitado. Todo mundo que tem um pouco de estômago forte e aguenta algumas torturas com bichinhos, claro.


fv-04fábrica de vespas – iain banks – 240 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um livro que evidencia a existência de diversas pessoas estranhas pelo ponto de vista de alguém meio animalesco e frio.
um livro para… ficar perturbado com todas as cenas violentas, lancinantes e desagradáveis.
combina com… diques arrebentando, bombas explodindo e vespas fritando (ttssss!).

* Ilustração do post via xi’an’s.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre nem suspeitou.

em algum lugar nas estrelas

Quando o pai de Jack saiu para servir no exército durante a guerra, Jack tinha nove anos e sonhava com o dia em que ele voltaria, daria um beijo forte em sua mãe, bagunçaria seu cabelo e tomariam um sorvete feito em casa.
Quando o pai voltou, entretanto, foi para o funeral da mãe. Não houve beijo, nem bagunça, nem sorvete. Os dois, estranhos um para o outro, encheram a casa de silêncio e se separaram aí, quando Jack, com treze anos de idade, foi deixado num colégio interno só para garotos.

É desse ponto que parte a viagem de Em Algum Lugar nas Estrelas.
Entre garotos adolescentes, caixas, quadros de aviso, aulas de latim e competições de regatas: era ali que Jack precisaria superar o luto e lidar com a morte da mãe. Distante do interior do Kansas e da segurança e firmeza de tudo que ele conhecia como mundo e perto de toda a ondulação do mar e areia fofa do Maine.


” – Está passando para a parte da navegação cedo demais.
Talvez deva se concentrar na beleza daquelas estrelas lá em cima, em vez de só pensar na função delas. Olhe para elas, admire-as, deixe que o fascinem, antes de esperar que elas o guiem.”

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Dentre todos os garotos que Jack conhece, um acaba saltando aos seus olhos. Early Auden. Um garoto pequeno para sua idade, introvertido, que acredita que existem cascavéis no norte, perdeu o irmão mais velho para a guerra, acalma as pessoas com o ruído branco das vitrolas e tem toda uma dinâmica própria para ouvir música. Mozart para os domingos, Louis Armstrong às segundas, Frank Sinatra às quartas e Glenn Miller às sextas. Terças, quintas e sábados são dias sem música. A não ser que esteja chovendo. Se está chovendo, independente do dia, é dia de Billie Holiday.

Earl também tem uma habilidade especial. A dádiva de ver números com cores, formas, tamanhos e texturas diferentes. Com sua mente operando de uma maneira diferente, ele consegue enxergar o número pi como uma história. O número 1 é Pi e os outros números são a história dele. Começando pelo número 3, sua mãe, bonita e bondosa, e o 4, seu pai, forte e bom. Nos outros números, Earl enxerga o mar, ondas, vulcões, estrelas, amigos, vilões e um infinito de outras alegorias.


“Enquanto olhava pela janela para o céu sem lua, revia mentalmente os eventos do dia. (…)
Mas, principalmente, lembrava a sensação de estar perdido, incapaz de determinar em que direção seguir. Olhar pela janela era como encarar um oceano profundo, e eu me imaginei flutuando, boiando à deriva sob um céu sem estrelas.”

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A história de Pi acontece em outro tempo, antes das estrelas terem nomes, de os homens saberem como usá-las para traçar caminhos, antes das grandes aventuras e navegações. Intrigado, Pi olhava fascinado para as estrelas, as admirava e, sobretudo, se perguntava “por quê?”. Com essa pergunta (ou todas as perguntas do mundo) ardendo no peito, ele resolve sair de casa, seguir a Ursa Maior e procurar por um motivo para tudo, descobrir seu lugar no mundo, conquistar seu próprio nome.

Em sua viagem, Pi vai precisar enfrentar diversos perigos, como um labirinto, marés cheias e violentas e um rio de lava incandescente. Contudo, todos estes obstáculos são apresentados como parte de uma jornada de auto-descobrimento. Pi está disposto a tudo para se tornar alguém mais sábio e que possa responder as perguntas que o despertaram.
Lotada de poesia, a história de Pi poderia ser uma quebra na narrativa (como acontece em alguns livros que optam por múltiplos pontos-de-vista), não fosse por todos os símbolos que completam a trama de Jack e Earl inseridos ali. Enquanto os capítulos se intercalam, a gente vai percebendo as pequenas metáforas que a autora, Clare Vanderpool, criou. Ao ligar os pontos, como estrelas em constelações, é impossível não se encantar com toda a expressividade que a imagem formada carrega – esta história dentro da história é como uma forma de resguardar Earl do mundo real ao mesmo tempo em que o encoraja.


“Chovia,
por isso eu sabia que o disco de Billie Holiday estava rodando na vitrola.
Sabia que a oficina de Early era quente e convidativa. Sabia que tinha sanduíches de pasta de amendoim prontos.
E sabia que Early estava lá.
Eu não estava sozinho.”

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Isso porque a história de Pi é aquilo que guia Earl, de certa maneira. Quando um professor suscita em Jack a dúvida de que o número pi não é infinito, Earl se coloca em um barco com o amigo para provar para ele que a história não pode ter um fim.
Em vários pontos fica claro que Em Algum Lugar nas Estrelas é um livro sobre amizade, companheirismo, lealdade, amor, confiança… Já, para mim, esta relação bonita de Earl com a narrativa (ou com a ficção, os romances, a literatura…)  é o que mais me chamou a atenção e me fez gostar tanto.

A gente vive num mundo onde tudo precisa ser útil, produtivo, trazer um resultado, um lucro, e por isso acaba rejeitando bastante a arte. Literatura, cinema, música: é tudo perda de tempo. A gente para tudo enquanto poderia estar fazendo alguma coisa de verdade.
Mas aqui fica clara a função da arte nas nossas vidas. Ela pode nos guiar em nossa própria jornada.
As histórias de pessoas que vieram antes de nós ou daquelas pessoas que fizeram parte da imaginação de alguém podem nos motivar, nos ensinar, nos ajudar a nos entender, a entender o mundo, a conquistar nosso caminho e nosso próprio nome. E, mesmo que nunca tenha pensado em navegar ou descobrir constelações ou procurar grandes ursos, em livros como Em Algum Lugar nas Estrelas, a gente consegue apreender os porquês do nosso mundo.


capaem algum lugar das estrelas – clare vanderpool – 288 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma história sobre encontrar seu caminho, um amigo para te acompanhar e suspender sua descrença diante das histórias das outras pessoas.
um livro para… sentir vontade de estudar constelações, pegar um barquinho e seguir por uma longa extensão de água.
combina com… chuva, poesia, billie holiday e balinhas coloridas.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não tem mais mãos transparentes.

labirinto – a magia do tempo

Todo mundo que tem um irmão já deve ter se perguntado alguma vez sobre como sua vida seria diferente se fosse um filho único. Às vezes, incomoda ter por perto alguém com quem se é facilmente comparado, ou com quem se é preciso dividir todas as coisas, ou ter alguém para tomar conta quando, na verdade, você não se vê com responsabilidade o bastante para cuidar nem de você mesmo.

Sarah, cansada de precisar cuidar do irmão pequeno sempre que o pai e a madrasta saem de casa, se sente injustiçada e resolve apelar para um livro de couro avermelhado e letras douradas (te lembra alguma edição da DarkSide Books?). No livro, encontra as palavras que precisava – “Rei dos Duendes! Quero que seja assim: Venha e leve esta criança para bem longe de mim!” – ou algo do tipo. E o que ela mais desejava acontece.

Jareth, o Rei dos Duendes, já velho, cansado de estar cercado somente por duendes desorganizados e desatentos e preocupado com quem dará sequência ao seu reinado, leva Toby, o irmão de Sarah, para seu mundo disposto a criar o garoto a vida inteira já com essa missão em mente.

Quando percebe a força de suas palavras, Sarah cai em si, se arrepende e diz a Jareth que ela nem queria tanto assim que o irmãozinho desaparecesse. Tarde demais, ele informa. Porém, generoso (e bem ciente de que ela jamais conseguiria realizar tal feito) oferece que ela busque o garoto em seu grande castelo, depois de atravessar um labirinto tenebroso, em até treze horas. Se este tempo acabar, suas palavras serão seladas como um acordo sem volta e o garoto virará um duende para sempre.


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“Sarah sentiu as lágrimas subindo aos olhos, mas se livrou delas piscando várias vezes. Ela conseguiria.
Não havia limites para o que era capaz de fazer, dada sua determinação (coisa que ela certamente tinha) e sua esperteza (algo que nunca lhe havia faltado até ali, embora admitisse que em apuros mais comuns), e talvez um pouco de sorte (que ela merecia, não é?).
Ela conseguiria, jurou ali, sentada na encosta escura, sem a menor ideia de como dar o próximo passo.


Labirinto é uma daquelas histórias que dá gosto de ler, sempre na expectativa de que algo mais maluco e divertido aconteça. Isto porque o cenário é bastante mutável e sofre várias transformações o tempo inteiro. Dependendo das esquinas que Sarah escolhe virar ou das paredes que ela resolve atravessar, ela pode encontrar tanto um abismo fedorento quanto um jardim onde está acontecendo uma grande festa. Em cada lugar, novos amigos, inimigos, enigmas e desafios a serem resolvidos para que ela continue sua viagem em busca do castelo de Jareth.

O Labirinto também guarda uma série de personagens bem característicos de livros infantis, todos com adjetivos interessantes, aparecendo e desaparecendo ao longo da jornada de Sarah. Batedores que falam, um guarda da ponte que só permite atravessar quem responde seus enigmas, os aloprados Foguentos, as cabeças voadoras dos aloprados Foguentos, um senhor peludo de aparência cavalheiresca, um animal gigante que procura por apego emocional…
É legal ver também como foi criada a versão destes seres no que se diz respeito ao filme. Para isso, a gente pode ver os esboços e ilustrações de Brian Froud. A edição de Labirinto traz algumas páginas com uma galeria de imagens conceituais utilizadas na produção do longa e criação dos bonecos.

Esta edição do livro também traz rascunhos de Jim Henson, o criador dessa coisa toda. O diretor associou seu interesse por mitologia e folclore e seu gosto por jornadas encantadas (como a de Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz) para criar seu segundo filme de fantasia, o sucessor de O Cristal Encantado, também uma parceria com Brian Froud.
Em várias páginas que reproduzem o Diário de Criação de Henson, a gente pode notar que, em seus rabiscos, mesmo tendo consciência de que uma boa história era o que mais importava em um filme, ele preferiu optar por começar criando fichas e descrições de personagens, cenários e dos perigos que apareceriam no meio do caminho de Sarah. Para quem gosta de descobrir sobre métodos de criação e criatividade ou é um fã de Labirinto e quer saber mais sobre como ele foi criado, essas páginas são um grande presente.


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“Sarah tentava descobrir em que ponto deveria ter feito uma escolha diferente.
Era impossível.”


Enquanto Jim Henson e Brian Froud conseguiram criar uma narrativa divertida através de músicas, cores, bonecos e cenários, A.C.H. Smith conseguiu dar uma roupagem gostosa e leve para a história somente através de suas palavras, embarcando no psicológico dos personagens e transmitindo muito bem a essência do universo já criado.
Indicado tanto para aqueles que já são fãs do filme quanto para aqueles que nunca tiveram contato, Labirinto é uma história sobre como nossas escolhas influenciam nosso futuro e como devemos tomar cuidado com o que desejamos, com quem encontramos no nosso caminho e, principalmente, com seres que tem as cabeças soltas do pescoço.


labitintelabirinto – a.c.h. smith (romance), brian froud (galeria de ilustrações) e jim henson (diário de criação) – 272 páginas – darkside books

em 140 caracteres… uma história de aventura e fantasia sobre o poder dos nossos sonhos e sobre ter responsabilidade por nossas decisões.
um livro para… ficar preso e angustiado com a jornada da protagonista, mas também rir com os tiques e características dos personagens ao seu redor.
combina com… corridas contra o tempo, chá e anões.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não fica aloprado quando o chamam de aloprado.

a visita da solidão

o antheano

Anthea é um planeta comumente confundido com Marte, mas que não é Marte. Ele talvez esteja ali, na mesma direção que Marte, e também faz parte do sistema solar (ou você já ouviu falar de algum outro sistema?), mas são coisas diferentes.
Hoje, Anthea sofre com uma ausência drástica de combustíveis – não há mais gasolina, diesel ou qualquer coisa do tipo – mas houve um tempo em que eles tiveram combustível o suficiente para enviar apenas um antheano para a Terra: Thomas Jerome Newton.

Depois de um treinamento pesado, Newton deixou sua esposa, as pessoas com quem ele se relacionava e seu planeta para trás para embarcar numa missão: construir uma nave espacial na Terra e voltar para buscar os de sua espécie que ficaram em Anthea.

O Homem que Caiu na Terra começa assim que este ser estranho pousa na Terra. Disfarçado de humano, ele precisará enriquecer, conseguir o material e a mão-de-obra necessários para sua empreitada. E isso não será difícil já que Newton trouxe grandes ideias e conhecimento do seu planeta, além de ter naturalmente uma inteligência mais aguçada que a dos humanos.

No livro, mais do que acompanhar esta jornada, narrada de uma maneira tão tensa quanto poética, também vemos o que acontece quando um antheano encontra a cumplicidade de uma mulher e desperta a desconfiança de um cientista  – relações que ganham traços melancólicos pelo olhar pessimista do autor, que escreveu esta obra em meio à Guerra Fria e à eminência do fim do mundo.


“Uma espaçonave erguida em uma pastagem do Kentucky, cercada por montanhas outonais e cujo dono era um homem que escolhera viver em uma mansão com uma empregada bêbada, um secretário francês, papagaios, quadros e gatos.
Entre a nave e a casa ficavam a água, as montanhas, o próprio Bryce e o céu.”


foto-caiu

o humano

Por ser um livro de ficção científica e centrado num ser extraterrestre, pode ficar a impressão de que O Homem que Caiu na Terra é um livro sobre a conquista de outro planeta, a busca por recursos naturais e a tentativa de construção de relações interplanetárias. Se formos olhar por um lado, sim, a verdade é que O Homem que Caiu na Terra realmente é isso. Porém, Walter Tevis vai além.

No meio de algumas frases técnicas e jargões científicos típicas deste gênero, entram reflexões sobre do que é feita a nossa identidade e o que nos torna humanos.


““(…) Às vezes, vocês nos parecem macacos soltos em um museu, correndo com facas, rasgando os quadros e quebrando as estátuas com martelos.”
Bryce não conseguiu falar imediatamente. “Mas foram os humanos que pintaram os quadros e fizeram as estátuas.”
“Apenas alguns humanos”, respondeu Newton. “Apenas alguns.””


Primeiro, pela questão aparência. Thomas Jerome Newton precisa esconder seus olhos de gato, se vestir de outra maneira e se portar de uma maneira diferenciada. Mesmo assim, permanece andrógino, impúbere, alto, magro e delicado demais para os padrões de nossa espécie.

Depois, vem a convivência. O alienígena, ainda em Anthea, assistia diversos programas de televisão do nosso planeta, tentando copiar gestos, idioma, sotaque, trejeitos e qualquer pequeno detalhe de nossas linguagem e regras de etiqueta e socialização. Já na Terra, mesmo com uma inteligência bem superior à nossa, se rende a vícios humanos, como o álcool, e exagera na ambição.

Contudo, Newton ainda se sente deslocado. Ele tem um corpo, ele tem habilidades, ele consegue notoriedade pelo seu trabalho no campo científico, mas ainda é solitário.
Ali não existem semelhantes. Fingindo, ele se torna apenas uma cópia dos que estão ao seu redor. E isso não é o suficiente para se reconhecer quando se vê no espelho – nem mesmo quando tira suas lentes ele se enxerga.
Ter sua identidade apagada o torna cada vez mais infeliz.


““Se você fosse de Marte realmente estaria sozinho”, disse Bryce, observando os patos. Se ele fosse de lá, seria como um pato solitário no lago – um migrante cansado.
“Não é preciso.”
“O que não é preciso?”
“Ser de Marte para se sentir sozinho. Imagino que você já tenha se sentido sozinho muitas vezes, dr. Bryce. Se sentido alienado. Você veio de Marte?””


Walter Tevis construiu em O Homem que Caiu na Terra mais do que uma ficção científica sobre um ser de um planeta afastado nos visitando. Criou uma história sobre o que acontece quando nós nos afastamos da nossa essência. A visita da solidão e da tristeza profunda.


capao homem que caiu na terra – walter tevis – 224 páginas – darkside books
em 140 caracteres… uma ficção científica sobre nossos limites, ambições, arrogância e vícios como humanos.
um livro para… sentir umas bad vibes e uma melancolia aguda.
combina com… questões existenciais, respirar profundamente e sentir o ar nos pulmões.
para quem já leu… o documentário HUMAN, do fotógrafo e cineasta Yann Arthurs-Bertrand. em 3 anos, o francês entrevistou mais de 2 mil pessoas em 70 países e 63 idiomas, levantando questões e reflexões sobre nossa condição humana. assista e saiba mais aqui.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

* Ilustração do topo por Igor Frederico.

Andre volta quando se afasta.