4+1 | fábrica de vespas

 

fv-03


4 MOTIVOS PARA AMAR…

1) personagens loucos

Livro estranho com gente esquisita: todo personagem de Fábrica de Vespas tem suas particularidades e um pezinho na insanidade. Pra começar, o protagonista, Frank, tem vivido uma fase de cometer atrocidades com animais (depois da morte, ele pega seus corpos, enfia em estacas e coloca no litoral da ilha onde mora para que sirvam de aviso para estrangeiros). Antes disso, contudo, viveu uma fase de assassinatos, apenas pela curiosidade, procurando entender como funciona suas reações e emoções e como poderia manipulá-las. Frank tem hoje 16 anos.

Enquanto isso, Eric, o irmão de Frank, parece ser louco no sentido patológico e diagnosticado da palavra, já tendo passado por tratamentos e vivendo numa casa de recuperação psiquiátrica.
E eles tem a quem puxar: O pai desses rapazes é uma figura bem contida e tem uma obsessão por saber as medidas exatas de todas as coisas ao seu redor (quanto mede cada um dos móveis, quantas libras tem cada objeto, qual a capacidade das tigelas de sopa da casa) e esconde com todo o cuidado o que guarda em seu escritório.
Conhecer o passado dessas pessoas, descobrir seus segredos e tentar prever seus próximos passos é uma das coisas mais intrigantes no livro.


2) a política

Frank, apesar de nos ser apresentado com esse nome, não foi registrado em lugar nenhum. Para a civilização, ele não tem identidade.
Essa é uma forma bem pertinente de Iain Banks deixar claro que o garoto não assinou nenhuma espécie de pacto social. Frank é sua própria ilha, numa alusão a Senhor das Moscas. Ele cria suas regras, tem um modo próprio de enxergar o mundo e técnicas bem estranhas de tentar controlá-lo. A Fábrica de Vespas, por exemplo, é uma dessas excentricidades que só fazem sentido para ele, mas que são afirmadas veementemente durante a narração em primeira pessoa.
Para exercer seu poder, Frank também “rebatiza” algumas coisas da nossa sociedade ou simplesmente cria nomes e seu próprio mapa da ilha. Entender os significados dos termos em letra maiúscula, como Destruidor Negro, Círculo das Bombas ou Campos de Coelho, é outra coisa interessante na experiência de ler Fábrica de Vespas.


“Sempre me pareceu que as pessoas não votam num novo governo porque elas realmente concordam com a sua política, mas só porque querem uma mudança. De alguma forma, elas acham que as coisas vão ser melhores com um pessoal novo.
Bom, as pessoas são estúpidas, mas essas coisas sempre parecem ter mais a ver com humores, caprichos e atmosfera social do que com argumentos bem-pensados.
Consigo sentir o mesmo tipo de situação se passando na minha cabeça.”
“Era como se as ideias que eu tinha, os cursos de ação que eu tomava, fossem que nem as diferentes medidas políticas que os países assumem.”


fv-02


3) a brutalidade

Nenhum animalzinho, por mais fofo ou dócil que pareça, está a salvo de Frank. O rapaz pega, destrói, estraçalha, explode e cria suas Estacas Sacrificiais, tudo com a maior naturalidade. Uma parte da mente de Frank até entende que o que eles faz é um absurdo, mas outra parte o encoraja a continuar com estes seus atos violentos. Porque isto o dá poder, faz parte de quem ele é e do que ele possui, faz ele se sentir bem.
Além das cenas de brutalidade com os animais da ilha, Frank também protagoniza três assassinatos curiosos, que acontecem de maneira tão planejada quanto espontânea. Tudo pode até ter sido calculado friamente na cabeça dele, mas sempre com o que está disponível por perto. Em um dos casos, por exemplo, como ainda era uma criança, uma pipa é utilizada como arma.

Mas Iain também fornece suas descrições cruas para os feitos de Eric também. O jovem foi acusado algumas vezes de atear fogo em cachorrinhos pela vizinhança e esse é o estopim para ele ser “exilado” da ilha onde moram e enviado para um hospital psiquiátrico. Antes disso, contudo, ele aparece no episódio mais perturbador para mim (para quem já leu, a passagem que se passa numa enfermaria). É chocante.

Tudo em Fábrica de Vespas é meio áspero e pode deixar alguém mais sensível aflito ou enojado. Então, fica o aviso de que Iain Banks não economiza na truculência durante sua criação e o que me fez gostar muito do livro pode fazer outras pessoas abandonarem.


“Eu acho que as represálias contra pessoas que tem ligações tênues ou muito distantes com aquelas que cometeram algum erro, na verdade, só servem para fazer com que o indivíduo que está se vingando se sinta bem. Tipo a pena de morte. Você quer pena de morte porque ela faz com que você se sinta melhor, não porque seja uma medida de restrição ou qualquer besteira assim.
Pelo menos os coelhos não vão saber que Frank Cauldhame fez o que fez a eles, do jeito que um grupo de pessoas sabe sobre o que os bandidos fizeram, com a vingança resultando no efeito contrário ao desejado, estimulando mais do que pondo fim à resistência. Pelo menos eu admito que fiz tudo para reforçar meu ego, recuperar meu orgulho e me dar prazer, não para salvar a nação, garantir justiça ou honrar os mortos.”


4) a narrativa

A narrativa de Fábrica de Vespas vai e volta no tempo. A gente acompanha o que Frank está vivendo enquanto descobre aos poucos o que ele guarda em seu passado: seus assassinatos em segredo, suas questões com a Fábrica, como chegou até onde está… Essa mistura de duas narrativas no que diz respeito à vida de Frank seria suficiente para manter o leitor preso e figurar aqui como um bom motivo para amar o livro.

Entretanto, Iain ainda adiciona uma carga a mais de tensão com a narrativa de Eric. O irmão de Frank fugiu do lugar onde estava internado e faz algumas ligações para ele durante a história. Os diálogos entre os dois são marcados uma sensação mista de estranheza e familiaridade. Ambos se buscam um no outro, mas conseguem perceber que o tempo passou e as coisas estão diferentes. E o resultado disso, desse encontro quando o retorno real de Eric finalmente acontecer, pode ser desastroso.


01-fv


…E UM PARA NEM TANTO

O desfecho: ele chega de repente, sem aviso. Você pode até criar diversas teorias, mas eu acredito que suas chances de adivinhá-lo são realmente mínimas. Iain Banks conseguiu me pegar de surpresa e eu gostei disso, porém, precisei de bastante reflexão para entender a proposta dele para o final, que carrega um grande segredo. Dica: o “discurso” de Frank na última página e, principalmente, o prefácio da edição, escrito pelo próprio autor, foram partes fundamentais nesse processo.
Entendi o que ele quis transmitir, mas ainda não fiquei totalmente decidido se gostei ou não. E é a certeza de que o desfecho divide opiniões (ou te deixa sem qualquer opinião também, como aconteceu comigo, e tá tudo bem) é que deixa ele figurando como um motivo para você talvez não gostar tanto assim dessa obra.

Claro, vale lembrar que o fim é parte de um todo maior e o medo de não gostar do final não deveria fazer ninguém desistir da leitura de Fábrica de Vespas. Essa foi uma das experiências mais legais e notáveis de leitura que tive este ano e recomendo para todo mundo que quer experimentar algo no mínimo inusitado. Todo mundo que tem um pouco de estômago forte e aguenta algumas torturas com bichinhos, claro.


fv-04fábrica de vespas – iain banks – 240 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um livro que evidencia a existência de diversas pessoas estranhas pelo ponto de vista de alguém meio animalesco e frio.
um livro para… ficar perturbado com todas as cenas violentas, lancinantes e desagradáveis.
combina com… diques arrebentando, bombas explodindo e vespas fritando (ttssss!).

* Ilustração do post via xi’an’s.

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre nem suspeitou.

Anúncios

a literatura é perigosa

Este post é uma colaboração para o projeto da
Revista Pólen para a Banned Books Week.
Para saber mais e acompanhar outros posts temáticos, visite a Pólen ❤ 

 

Imagine que um grupo de crianças acaba perdida numa ilha e precisa aprender a lidar com a natureza e a vida em grupo sem nenhum adulto por perto. Quais problemas poderiam vir disso? William Goulding tentou imaginar essa situação em O Senhor das Moscas, publicado originalmente em 1954.

Num primeiro momento, todos os garotos tentam escolher um líder para si, usando a democracia e o voto direto como uma forma de definir os próximos rumos a serem seguidos. Um personagem significaria a liberdade e outro o autoritarismo. Contudo, novos dilemas aparecem e as crianças precisam aprender a colher, caçar, criar suas próprias instituições de fé ou religiosas e se render de certa forma a instintos violentos que não haviam sido desenvolvidos na antiga vida delas, na Inglaterra. Polêmico ao questionar de onde vem a maldade e a violência, O Senhor das Moscas figura ainda hoje na lista dos livros mais frequentemente contestados da Associação Americana de Bibliotecas.

2.jpg

Porém, este banimento não impediu o livro de ser bastante discutido e inspirar e se tornar referência para outras obras. No livro Fábrica de Vespas (1984), de Iain Banks, por exemplo, temos um garoto vivendo numa ilha remota e criando seu próprio estilo de vida. Apesar de ter um pai, irmão e outros membros da família presentes na história, o autor vai usar uma alegoria bem interessante para permitir que Frank se torne livre para criar seus próprios valores, leias e regras: ele não tem registro de identidade ou certidão de nascimento; ele não assinou nenhum contrato social e pode se manter alheio a ele.

Já em Nada (2000), de Janne Teller, novamente temos um grupo de crianças se tornando violentas e obsessivas devido às circunstâncias. A autora mostra que a inocência infantil não é como a maioria das pessoas parece pensar e que as crianças devem nutrir quase tantos pensamentos negativos quanto os adultos – entretanto, ainda não tem um quadro moral sofisticado para colocá-los. No livro, alguns garotos tentam provar para um colega niilista que há algum sentido na vida, confrontando suas próprias vidas e criando uma pilha de objetos que tem significados para pessoas da vizinhança.

É curioso perceber como mesmo um livro com uma narrativa brutal e crua e que carrega um selo de banido, como O Senhor das Moscas, continua reverberando na cultura pop e influenciando novos autores e histórias. A literatura amplifica opiniões, favorece a transmissão de ideias, cria relações entre as pessoas, edifica diálogos, alimenta polêmicas.

Então, imagine o quão perigoso pode ser usar esta ferramenta para dar voz a quem não tem e criar o consenso de que todas as pessoas, independente de qualquer coisa, merecem espaço, consideração e respeito?


 

Andre nunca foi banido de nenhuma biblioteca.