o menino que desenhava monstros

Primeiro, veio uma mania por quadrinhos. Depois, uma paixão bem forte por jogos de tabuleiro. Apenas fases, que não se comparam em nada com o hábito quase obsessivo de Jack Peter desenhar. Ele desenha algumas coisas e pessoas que enxerga, o que não é nada preocupante para uma criança, mas tudo começa a se transformar quando o garoto de 11 anos começa a desenhar monstros.
Criaturas estranhas, imagens tensas, seres imaginários… Tudo pode ser estampado nos papéis de desenho de Jack. O que ele não esperava é que isto desencadeasse visões assustadoras no seu cotidiano. Jack começa a enxergar embaixo da sua cama os monstros que ele desenha.

Este plot sobrenatural poderia servir muito bem para um livro que misturasse o terror e a fantasia, mas esta claramente não foi a intenção de Keith Donohue ao escrever O Menino que Desenhava Monstros. Ao colocar no centro deste conflito uma criança com Síndrome de Asperger e que desenvolveu Agorafobia depois de um acidente onde quase de afogou, a história ganha tons mais dramáticos, abordando questões familiares nada simples, mas sem deixar o suspense de lado.

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“Apenas dê uma olhada, papai.
Ele está lá fora agora.”


O Menino que Desenhava Monstros começa quando Jack resolve alarmar os pais sobre o que ele tem visto, o que acaba trazendo duas reações opostas e alguns conflitos dentro de casa.

Tim, o pai, tem uma visão extremamente otimista da situação do filho. Ele acredita que o este estado do espectro autista de Jack Peter não está estagnando e que todas as complicações que esta condição pode trazer não devem evoluir. Com apoio, carinho e a criação de um ambiente seguro dentro de casa ele acredita é possível que o garoto não retroceda nos tratamentos. Por isso, o pai tem como reação a este aviso sobre os monstros embaixo da cama a intenção de criar um ambiente mais seguro e agradável para o filho.
Já Holly, a mãe, tem uma visão mais negativa sobre a condição do filho e acredita que estas visões de Jack podem ser enxergadas como um aviso de algo está errado e que novas medidas, mais enérgicas, precisam ser tomadas em relação a isso. Para ela, o melhor caminho é encaminhá-lo para um hospital especializado.


“”É uma fase”, cortou ele.
“Não é uma fase, Tim. Não é só mais um maldito capítulo, é todo o resto da história.””


Para mim, o autor tratou desta questão relacionada à neurodiversidade com bastante cautela e o resultado foi bem realista.
As passagens depois do desenvolvimento da Agorafobia no Jack onde o autor relata como é cansativo para os pais levar o filho para consultas médicas é muito angustiante e quase deve retratar como alguém com aflição de estar ao ar livre deve se sentir.
Em outra cena, quando acordado de surpresa pela mãe, Jack acaba a agredindo. Holly fica em choque e, ao procurar aconselhamento religioso, se descarrega com um sacerdote e diz que odeia o filho. Pode parecer exagerado ou cruel que uma mãe diga isso, contudo é possível sentir bastante empatia por ela quando a gente para pra pensar no quão angustiante deve ser tentar criar algum tipo de conexão emocional com seu filho e não receber nenhum grande retorno.

Ainda vale dizer que a presença do pai na história é fundamental para mostrar também o quanto estas questões são sérias e não devem ser encaradas somente com base em “achismos”. Afeto é fundamental em situações como esta, mas o tratamento médico e terapias comportamentais também precisam ser procuradas.

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O livro tem sempre uma narração em terceira pessoa, porém o foco vai mudando de uma personagem para outra em vários momentos. Porém, Keith Donohue, além de narrar cenas em lugares diferentes que acontecem ao mesmo tempo, também se preocupa em trazer as visões dos diferentes integrantes desta família, mesmo que tenham compartilhado um cômodo logo antes.
Isto pode se tornar repetitivo ou maçante para algumas pessoas, mas observar os vários pontos de vista é fundamental para a construção da visão do leitor sobre a dinâmica da família (e também torna o autor isento na questão das questões sobre saúde). E procurar padrões e repetições e notar como cada personagem observava as coisas de maneiras diferentes foi bem estimulante para mim.

A guinada maior na narrativa, quando o suspense se torna mais intenso em O Menino que Desenhava Monstros, vai acontecer mesmo somente quando os outros personagens ao redor de Jack começam a perceber coisas estranhas também. Um homem branco como o leite, alto e esguio aparece para Tim numa autoestrada. Holly começa a ter a sensação permanente de alguém está os vigiando e tentando invadir a moradia da família. E um outro personagem, Nick, o único amigo de Jack (e que esteve envolvido no incidente do afogamento), começa a sentir coisas estranhas também, o que o faz questionar ainda mais sua amizade com o “garoto estranho da escola”.


“Não tenha tanta certeza sobre as coisas que não pode ver. A mente conjura o mistério, mas é o espírito que fornece a chave.”


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Cada personagem de O Menino que Desenhava Monstros vai buscar em realidades diferentes suas respostas e soluções para a questão dos monstros que parecem passear pela cidade. Um busca reforço policial. Outro vai estudar as lendas que envolvem um rio perto da casa da família. Vão aparecer ainda explicações em mitos orientais e a busca por um entendimento por vias espirituais e religiosas.

O mais legal dessa leitura é que em nenhum momento Keith Donohue vai dizer em que você deve acreditar. Quem lê precisa criar suas próprias teorias: seria tudo isto imaginação ou realidade? A única coisa que posso afirmar é que a cada mudança de perspectiva, tudo pode se transformar.


cco menino que desenhava monstros – keith donohue – 256 páginas – darkside books
em 140 caracteres… um suspense que envolve segredos familiares, acontecimentos estranhos e um limite não muito claro entre realidade e imaginação.
um livro para… ficar intrigado com os ocorridos, criar diversas teorias e poder acabar bem surpreso com as últimas linhas.
combina com… nevascas, pesadelos e lugares inóspitos.

* Foto do post via deathtostockphoto

A Darkside Books é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre quer encontrar a saída do quarto.