a fábula da última guerra

Miguel é um adolescente perdido num mundo apocalíptico – um apocalipse provocado pelos homens, uma guerra na qual perdeu toda a sua família para a destruição. Quando se vê solitário, ele corre pelo jardim, tenta pedir socorro, desce e sobe a rua e, a princípio, não encontra ninguém que pudesse o ajudar. Até que esbarra num velho que recolhe objetos pela rua.

Primeiro, vem a desconfiança. Depois, o encontro acaba se mostrando como a única forma de acabar com o arrasamento do mundo. Mas, para isso, Miguel precisa resolver não somente o conflito externo, armado. Há uma guerra dentro dele que precisa ser vencida. Ele precisa aniquilar todas as suas dúvidas. É necessário uma decisão.


“Desde que minha casa foi destruída, vivo nas ruas, sem amigos, escondido de todos. E já faz tempo que ando a esmo.
Ora durmo aqui, ora ali, quase sempre sob os escombros.
Ontem, por exemplo, dormi na sala de aula de uma escola abandonada. Me alimento com o que me dão pra comer ou com o que consigo roubar.
Agora sou só eu e esta mochila, que achei por aí. Tudo que tenho na vida está dentro dela.”

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O clima em A Última Guerra é de tensão. O livro caminha o tempo todo, rapidamente, como uma contagem regressiva. A cada página, novas questões precisam ser exploradas e segredos são revelados para que o mundo não acabe ali. É interessante notar também que tudo acontece focando ações e pensamentos – não há espaço para grandes descrições, contudo a rapidez com que tudo acontece já deixa clara a urgência com que a temática precisa ser tratada.

Miguel conhece o personagem que segue as páginas ao lado dele no meio da história. Existe desconfiança e preconceito, porém juntos eles tem a oportunidade de mudar o mundo e acabar com a guerra. Miguel, então, precisa ser mais corajoso e confiar nesse desconhecido. Uma mensagem interessante sobre não se render às aparências e procurar mais profundidade nas pessoas com quem você convive.

Sem muitas explicações convincentes, com um pano de fundo raso e uma quantidade de diálogos enorme, o livro pode deixar a desejar.
Porém, funciona bem como uma fábula. O ar é fantasioso e a violência e a destruição levam tudo às últimas consequências. O “exagero” aqui é uma ferramenta dos autores, Luis Braz e Tereza Yamashita, para deixarem em claro um posicionamento antibélico – ou, mais do que isso, a possibilidade e a responsabilidade que todos temos para construir um mundo diferente, novo, mais tolerante e respeitoso.
O fim da guerra precisa partir da gente.


465555_231107557005250_1356611430_oa última guerra – luiz bras e tereza yamashita – 112 páginas – editora biruta
em 140 caracteres… uma história sobre guerra diferente e inusitada, que levanta um bom ponto mas deixa alguns furos.
um livro para… ler de uma única vez, vivendo a mesma emergência dos personagens.
combina com… barriga feliz, indecisões e esconderijos.

A Biruta é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Você pode conhecer todo o catálogo da editora aqui e acompanhá-los no blog Biruta Gaivota, no Facebook e no Instagram.

Andre é um felizardo.

grito, delírio e certeza

Fausto é um ator nato. É essa uma das primeiras descrições que a gente recebe desse rapaz em Grito, livro de Godofredo de Oliveira Neto. Porém, ele ainda não recebeu grandes oportunidades em sua carreira e vive passando de um emprego aqui para um bico ali, atendendo num cinema inferninho, numa agência de turismo ou no caixa de uma loja inglesa de sanduíches.

E então Fausto conhece Eugênia, uma ex atriz, famosa, que já passou por diversos personagens, roteiros e montagens em toda sua vida. Eugênia logo se encanta com este jovem, orgulhosa de conhecer alguém como ele, tão talentoso quanto determinado a viver do teatro e fazer da arte um sentido para sua vida. Disposta a ajudá-lo com suas dicas de veterana, os dois se inspiram na vida de Fausto para escrever juntos peças onde Fausto interprete os personagens, baseando-se nas cenas que ele mesmo viveu. Os dois trocam ideias, criam narrativas, discutem cenários, trilhas e figurinos… E fundam juntos, no conjugado onde vive, uma sala de teatro privada, batizada em homenagem à irmã gêmea do jovem que nunca nasceu.

Quando Fausto é iluminado pelo holofote da sala Ifigênia de Sá Sintra, sua pele escura ganha tons ainda mais belos. Quando Fausto brada sua voz, extraordinária para o teatro, qualquer exclamação ganha uma dramaticidade impressionante. E quando Fausto recita a resposta de Iago, de Otelo, de Shakespeare, a Rodrigo (“O amor é mera lascívia do sangue e simples complacência do desejo”) o espaço do apartamento trezentos e oito se preenche de poesia.

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“A voz do amor.
O desejo trazido pela linguagem, a linguagem que exprime o desejo.
Amor e paz. É o que aprendi na minha religião.
E você é só violência.”


De início, a relação dos dois é bastante profissional. Juntos, estes vizinhos se encontram diariamente e debruçam-se sobre suas vidas para criar as peças que a gente encontra no livro, em forma de roteiro de peça teatral mesmo. Além disso, as encenações e apresentações numa sala tão restrita evoca intimidade e a relação dos dois começa a tangenciar o afeto. É quando a gente percebe que Eugênia, que narra em primeira pessoa as passagens corridas do romance, parece começar a se empolgar demais com a situação.

Eugênia é viúva. Idosa, sem muitos amigos vivos, poucos restaram do Retiro dos Artistas. Sem filho ou familiares. Tudo que restou para ela são sua memória artística e a capacidade de repetir tiradas inteiras dos espetáculos em que atuou. Logo, toda essa atenção que recebe de Fausto, utilizada tanto como companhia no presente quanto como um resgate de seu passado quando jovem nos palcos, era bem capaz de se tornar mesmo algo maior e exagerado. Um sentimento de platonismo e possessividade começa a ganhar a narrativa.


“Fausto me disse ter lido depois o argumento com uma amiga, Leila Mara. Ela fazia o papel da Alice, a protagonista. A amiga adorou a peça, segundo ele. Na minha opinião é mentira dele.
Para Fausto de Sá Cintra eu sozinha preencho todo o seu afeto e toda a sua arte.”

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Grito é um livro sobre obsessões. É feito de uma mulher obcecada pelo teatro, por um rapaz e pelo seu passado. E de um jovem tão obcecado pela arte que a projeta na própria vida e nas próprias experiências. Narrado de uma forma apaixonada, com os desejos muito bem expostos e transmitidos, mesmo que a estrutura do produto final seja atípica, destinada a um interlocutor além do leitor.
Godofredo de Oliveira Neto mistura na escrita o formato de peça teatral com o romance, a vida real dividida com a arte, diversas ficções dentro da ficção. Isso sem falar nas frases completas, citações e referências a outros textos clássicos do teatro. Um jogo que mistura certezas e delírios se desenrola a cada novo ato.

Essa escolha confunde e desorienta, mas também deixa o leitor ainda mais instigado, prestando atenção nos detalhes e tentando compreender as ações dos personagens, enquanto caminha para um desfecho dramático e inesperado. Ao final, acaba sendo impossível não desejar que as cortinas fiquem abertas por mais tempo para se contemplar a potência da arte.


livro_yaghehgrito – godofredo de oliveira neto – 160 páginas – editora record
em 140 caracteres… a arte imitando a vida e a vida imitando a arte, tudo ao mesmo tempo, entrelaçadas nas páginas.
um livro para… ser lido num único fôlego, como se assistindo a uma espetáculo.
combina com… confissões, tragédias, memória e solidão.

* Ilustrações do post por Clari Esborraz.

Este livro foi enviado como cortesia pela agência Oasys Cultural para que esta resenha acontecesse (independente disso, o texto reflete a opinião do autor).

Andre não tem um ator favorito.

mas você vai sozinha?

Não é de hoje (numa época em que youtubers gravam diversos vlogs em Orlando e programas de tv fazem listas de dez restaurantes imperdíveis em Paris) que a gente deseja passar nossa visão de viagens pelo mundo para outras pessoas. Lá nos tempos de navegações e descobrimentos (e antes disso) já se escreviam longas cartas e tratados sobre as impressões de alguém sobre um lugar novo a ser explorado e colonizado.
É comum nesses relatos termos um escritor presente, atuante, protagonista, que caminha pelas ruas de uma cidade e descreve o que vê e o que sente quando vê. Contam sobre pessoas, cenários, comidas, cheiros, costumes como quem vive aquela rotina diariamente – dando dicas fundamentais para quem deseja viajar para o mesmo lugar – mas trazendo um certo encantamento com o diferente no olhar.

Esses relatos, para mim, precisam brincar com os sentidos e esclarecer quem lê sobre os pontos altos e/ou baixos de um lugar, mesmo que indiretamente. São uma chance de convencer o leitor a comprar uma passagem para o mesmo destino na mesma hora ou desistir definitivamente de tentar encarar algumas experiências. Nesse sentido, o Mas você vai sozinha?, de Gaía Passarelli, consegue cumprir muito bem seu papel.

O livro de estreia da escritora de viagem a coloca no primeiro plano de jornadas para Índia, Colômbia, Peru, Escócia e outros destinos, mas também mostra um desejo e uma grande capacidade de observação.
Gaía narra o que acontece quando olha para o outro, se envolve com as pessoas e tenta perceber, compreender e respeitar seus hábitos.
Em Austin, ela cochilou num grande festival. Em Medellín, ela participou de uma cerimônia xamânica. No Parque Nacional do Itatiaia, ela se perdeu e se encontrou.
Ela viaja sozinha e sabe que existem riscos, mas não deixa a insegurança e o medo a dominarem, os perrengues a desanimarem. E vai seguindo por conta própria e se entregando a novas sensações e vivências…


“É uma sensação surreal estar na extremidade de um continente, sozinha, tão longe quanto jamais estive.
Sabia que não era a única pessoa ocidental no sangam, mas com certeza era a única mulher tatuada e de cabelo curto no espaço visível.”

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Quem procura por onde comer, onde se hospedar, quanto custa, as melhores rotas e uma quantidade imensas de roteiros detalhados e dicas específicas pode se decepcionar com o Mas você vai sozinha?, pois ele apresenta um espaço consideravelmente pequeno dedicado a isso. Somente uma ou duas páginas, ao final de cada capítulo.

Porém, o conteúdo deste espaço é muito bem feito e, justamente pelo tamanho reduzido, fornece informações tão gerais quanto importantes e dicas de lugares realmente que valem a pena visitar. Assim, fica até uma liberdade maior para o leitor explorar a cidade e/ou fazer buscas prévias sobre o que realmente o interessa.
Além disso, algumas vezes esta página traz uma playlist feita pela autora para você entrar no clima dos lugares visitados no capítulo. E vale a pena confiar numa ex-Vj da MTV Brasil para isso! As sugestões de músicas (todas disponíveis para ouvir no perfil da Globo Livros no Spotify) trazem de Lou Reed a Yeah Yeah Yeahs, passando por uma lista especial só com músicas do David Bowie.

O mais interessante e original aqui, contudo, são os boxes que encerram definitivamente cada capítulo e que carregam o mesmo nome do livro, “Mas você vai sozinha?”. São dicas particulares para mulheres que querem viajar sozinhas, dando informações sobre a violência, a liberdade individual e o comportamento social dos locais visitados e alguns comentários sobre os cuidados que a viajante deve ter. É uma forma de incentivar e encorajar mulheres a curtirem a própria companhia em qualquer lugar do mundo.
Inclusive, o livro todo tem certo tom de empoderamento feminino. Toda a equipe que trabalhou na produção do livro é de mulheres, algo que aconteceu espontaneamente. Em destaque: a artista Anália Moraes, que fez todas as ilustrações, Babi Souza (do Vamos Juntas?), que escreveu a orelha, e Jana Rosa (escritora) e Sofia Soter (uma das fundadoras da Capitolina), que escreveram os blurbs da quarta capa.


“Vão olhar para você.
O quanto antes você se acostumar à ideia e não deixar isso estragar sua viagem, melhor. Encarar de volta, aliás, é interpretado como um convite.(…)
O segredo é sempre lembrar que você não está em casa, mas numa parte do mundo onde os códigos de comportamento são diferentes dos seus.
O mundo não é o seu quintal.”


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“Nem sempre é preciso ir tão longe para ficar tranquilo com você mesmo, claro. Mas de cima de uma montanha cujo nome até agora não sei com certeza
(Ben Nevis? Glenn Nevis? Faz diferença?),
sem conseguir ver mais de dez centímetros à frente do nariz, por um momento percebia que eu nenhum lugar eu poderia me sentir tão bem.”


Mas você vai sozinha? é como um clássico livro de relatos de viagens, mas com uma voz afetiva, bem-humorada e original explorando o prazer de descobrir novos espaços, pessoas e culturas – e sobre ser descoberto por eles. Cada crônica inspira de uma forma diferente, mas todas deixam a sensação (ou a necessidade) de que é preciso seguir em frente e colocar o pé na estrada.

Viajar sozinho pode parecer deprimente, solitário, perigoso. Porém, essa superfície esconde uma oportunidade ótima de autoconhecimento e amadurecimento.
Pode ser meio desesperador parar pra pensar que não há ninguém conhecido por perto, mas o senso de que é você quem vai tomar todas as decisões, lidar com seus resultados e, por isso, se permitir errar é engrandecedor.
Há um lado positivo em se sentir vulnerável.


medium_1686mas você vai sozinha? – gaía passarelli – 176 páginas – globo livros
em 140 caracteres… um livro menos para dar dicas específicas e mais para contar boas histórias e deixar a vontade de criar sua própria rota.
um livro para… ficar com vontade de colocar o pé na estrada (ou ficar boas horas conversando com a autora, caso não seja desses.)
combina com… alces, lanternas, cervejas e david bowie.
para quem já leu… o livro (e sua adaptação para o cinema, com reese whiterspoon) “livre”, de cheryl strayed, uma outra jornada solitária de uma mulher.

A Globo Livros é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre não saberia lidar com o alce.

algumas coisas que sei sobre michel laub

michel
diário da queda

Em uma das cerimônias de passagem da cultura judaica, os garotos adolescentes de treze anos de idade são recepcionados pela sociedade adulta sendo jogados treze vezes para o alto, um grupo o segurando nas quedas, como numa rede de bombeiros. Isto não aconteceu, porém, com João, o único gói numa escola de judeus: em sua décima terceira queda, a rede se abriu e ele caiu de costas no chão.

Mas imagine que não tivesse havido o antissemitismo e dezenas de milhares de judeus não tivessem sido mortos em campos de concentração? E se o ódio de judeus contra não-judeus não tivesse sido alimentado? João teria sido vítima de uma violência de forma sistemática no colégio em que estudava? Ele ainda assim teria ido ao chão em vez de aos braços dos colegas?
O quanto grandes tragédias mundiais podem influenciar o caminhar da vida de uma pessoa? Qual o nível de envolvimento com um acontecimento global você precisa ter para que ele te afete de fato? Essas são algumas perguntas evocadas através dos fragmentos escritos pelo narrador de Diário da Queda, de Michel Laub, que resgata este e outros acontecimentos de sua vida para discutir sobre o poder de uma escolha e tomar uma importante decisão ao final da história.

Os capítulos (ou grandes partes) de Diário da Queda começam com títulos curiosos. “Algumas coisas que sei sobre meu avô”, “Algumas coisas que sei sobre meu pai”“Algumas coisas que sei sobre mim”. Porém, o conteúdo mostra algo que pode parecer não fazer tanto sentido assim com o título, pelo menos à princípio. Quando diz falar sobre o avô, o narrador fala sobre o pai. Quando diz falar sobre o pai, o narrador fala sobre o “acidente” com o colega de infância.
A vida de todos os personagens se intercalam e falar de um é falar do outro. Em notas numeradas aleatoriamente, mas organizadas numericamente em ordem crescente, o filho conta várias histórias que ouviu durante sua vida e tenta achar conexões e relações de causa e efeito entre elas. A história dessas três gerações é uma só – e ela é a história de Auschwitz.


“Eu imagino o que meu pai sentiu quando estava no hospital, a minha mãe em trabalho de parto, se para ele foi um momento diferente do que é para qualquer pai, se ele teve de fazer um esforço extra para cumprir esse papel, as falas e gestos, as emulações de presença e apoio, as demonstrações externas de carinho, os abraços externos, o sorriso externo para além do fato de que ele talvez pensasse no meu avô,
e acordasse diariamente com medo de repetir o meu avô,
e olhasse diariamente para mim pensando que eu poderia me tornar o que ele era caso ele se tornasse o que foi o meu avô.


laub

a maçã envenenada

Já em A Maçã Envenenada, temos um narrador que sofreu um acidente de carro, viajou para Londres, passou um tempo no serviço militar, viveu um relacionamento tão intenso quanto tóxico e teve uma banda – e consegue organizar tudo isso numa linha do tempo perfeita, observando onde cada decisão foi tomada e onde cada curva foi feita em sua vida. Hoje, é jornalista cultural (para ele, o único resultado possível depois de todas essas atividades do passado).

Em seu trabalho, acaba precisando entrevistar uma sobrevivente de um atentado horrendo, um genocídio em Ruanda. Immaculée Ilibagiza escapou da morte ao passar 90 dias escondida num banheiro com outras seis mulheres, mas perdeu todos os seus amigos, parentes e familiares, assassinados por uma tribo rival.
A entrevista é quase catártica para o narrador (sem nome explicitado, assim como em Diário da Queda), que logo o associa com a vida de Kurt Cobain, que fazia um grande show no Morumbi, em São Paulo, no mesmo dia em que Immaculée precisou se esconder.
Um ano depois, o líder do Nirvana se suicidou. Immaculée, perdida e sem nenhum laço interpessoal relevante, contudo, ainda palestra para beatas e religiosos sobre os dias terríveis que viveu, o poder do bem e a necessidade de mudar o mundo.

De certa maneira, talvez seja mais fácil observar estas relações de causa e efeito dentro de uma mesma vida. A cronologia é mais facilmente verificada e uma única fonte é necessária para confirmar ou negar qualquer informação.
O narrador, entretanto, se confunde e não chega a nenhum resultado quando tenta explicar porque Kurt Cobain (que não deixou mensagens tão claras em várias de suas canções e pode ser enxergado como um “desistente”) é considerado um ídolo até hoje, enquanto Immaculée (que pode ser considerada um exemplo de vida, otimismo e esperança) é creditada apenas por meia dúzia de freiras. Ou ainda, como alguém rico, com fama e uma criança pequena para cuidar pode ter acabado com a própria vida, se uma mulher que tinha todos os motivos para fazer isso não o fez?


“Era inevitável pensar que poderia mudar de endereço e de emprego e passar anos incógnito, e só voltariam a ouvir meu nome se eu morresse e encontrassem o passaporte e a embaixada localizasse a minha família.
Não há frase na agenda sobre a sensação quase absoluta, que às vezes me assustava porque é só estender a liberdade e de um instante para o outro você não tem mais passado, nem sente falta de nada porque é como se nada tivesse acontecido, ou só as coisas que você escolheu, as lembranças boas e inofensivas, e nada do que você disse ou fez a uma pessoa tem consequência porque nunca mais precisará encontrá-la, nem pensar nela, nem imaginar e confrontar o que foi feito dela em outro tempo e outro continente numa vida que às vezes nem parece ter sido a sua.”


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michel laub

Os narradores de Michel Laub criam uma narrativa memorialística às vezes lírica, às vezes brutal, às vezes seca, às vezes detalhista. As mudanças de tons, certeiros para cada cena contada, podem dar a certeza de que é tudo real. Eles até se misturam com a vida do próprio autor e trazem figuras históricas e reais, todavia, ambos são amplamente ficção.

Nestes dois livros (e num terceiro, prometido pelo autor, mas ainda não lançado), Laub fala sobre como uma vida interfere na outra, como tragédias globais e tragédias locais estão sobrepostas e como é quase impossível delimitar onde começa uma coisa e termina a outra.
Porque a gente está o tempo todo decidindo e escolhendo e definindo rumos não somente nossos, mas também das pessoas à nossa volta e das pessoas que ainda nem existem. É desgraçante para nossa cabeça pensar nesse tipo de coisa – e é impossível dizer se ter ciência disso muda alguma coisa, nos torna mais ou menos responsáveis. Porque é possível memorar tanta coisa para explicar um acontecimento, um conflito, um desastre, que, às vezes, é mais simples resumir tudo na dúvida.


quedadiário da queda – michel laub – 152 páginas – companhia das letras
em 140 caracteres… uma história sobre grandes tragédias mundiais, pequenas tragédias pessoais e o modo como elas se sobrepõem.
um livro para… pensar em nossas relações familiares e sobre como somos feitos de diversas pessoas.
combina com… glossários, memórias e celebrações de bar mitzvah.

envenenadaa maçã envenenada – michel laub – 120 páginas – companhia das letras
em 140 caracteres… sobre como as noções e os motivos para valer a pena viver são diferentes de pessoa para pessoa.
um livro para… refletir sobre religião, idolatria, doenças físicas e doenças mentais.
combina com… o fruto do conhecimento do bem e mal.
para quem já leu… resta aguardar a adaptação de diário da queda para os cinemas.

 

Andre desconhece as causas e aguarda os efeitos.

*a primeira imagem vem da capa inglesa de diário da queda. 

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vírus tropical – power paola

A mãe acredita na visão do futuro através da leitura de peças de dominós. O pai já foi padre e hoje celebra missas clandestinas dentro de casa. Uma irmã é totalmente rebelde e depravada. A outra é santinha e recatada. E, no meio de todos esses personagens icônicos, Paola, a caçula, nascida de uma gravidez acidental (que foi confundida com um vírus tropical), tenta encontrar quem ela é e em quem se espelhar.

Vírus Tropical é uma história autobiográfica da ilustradora que assina como Power Paola, contando sobre como foi se ver no meio dessa família tão peculiar e ainda morar em diversos países quando precisava de referenciais firmes para formar sua identidade. Super recomendada, o traço da Paola é cheio de detalhes e o visual da graphic novel acaba sendo de encher os olhos.

capa 1.jpgvírus tropical – power paola – 160 páginas – editora nemo
em 140 caracteres… uma saga familiar engraçada e bem ritmada e que gera identificação apesar das peculiaridades.
um livro para… observar com calma cada detalhezinho das ilustrações!
combina com… uma viagem pela América Latina e dias quentes de ócio!
para quem já leu… os livros da coleção Otra Língua, da editora Rocco.


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placas tectônicas – margaux motin

Também autobiográfica, Placas Tectônicas começa quando Margaux Motin se divorcia do marido aos trinta e poucos anos. A partir daí, ela acaba precisando redescobrir o mundo, solteira depois de tanto tempo e agora criando sozinha a filha pequena. Bem humorada, ela brinca aqui com situações do cotidiano e com a inabilidade de se adequar à sua realidade atual. E, apesar de seguirem certa cronologia, esta edição funciona com mini histórias – algumas delas chegam a ter apenas uma página.

O que mais me chamou a atenção em Placas Tectônicas é o estilo de ilustração da artista, com certeza. As páginas não tem os quadrinhos definidos e os desenhos e cenas se misturam em algumas delas. Já outras tem ilustrações enormes, sendo utilizada para uma única cena. Fora as intervenções em fotografias! Sério, é tudo lindo!

capa 2.jpgplacas tectônicas – margaux motin – 256 páginas – editora nemo
em 140 caracteres… uma história sobre acompanhar as mudanças na sociedade através do tempo!
um livro para… acreditar no amor depois dos 30!
combina com… palavrões, crianças barulhentas!
para quem já leu… o blog da margaux motin segue o mesmo estilo e dinâmica deste livro e é atualizado com tirinhas periodicamente! visite aqui.


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como eu realmente – fernanda nia

Como eu realmente… nasceu na internet, num blog alimentado por Fernanda Nia. Nele, Fernanda traz tirinhas onde sua versão ilustrada, a Niazinha, passa por diversos momentos comuns, mas encara isso de maneira diferente. Pela editora Nemo, a autora lançou uma reunião de tirinhas já conhecidas e inéditas, divididas em capítulos temáticos.

A autora aproveita a liberdade que tem com a literatura para desenhar os pensamentos e esclarecer o que ela realmente tinha vontade de fazer, dizer ou seja lá o que for. Outras tirinhas, brincam com expectativa e realidade. Nos dois volumes, Fernanda também cria outros personagens (como uma fangirl e um cara sem desconfiômetro) e dá voz à sua gatinha de estimação, a Srta. Garrinhas. É divertido e ótimo para passar o tempo.

capa 3.1capa 3.2como eu realmente…: volumes 1 e 2 – fernanda nia – 80 páginas cada – editora nemo
em 140 caracteres… como seria o mundo se a gente pudesse viver na nossa própria imaginação!
um livro para… se identificar e rir do cotidiano!
combina com… feminismo, fantasia e divagações!
para quem já leu… o blog da fernanda nia ainda recebe novidades sempre. visite aqui!


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primeiras vezes – sibylline

Primeiras Vezes é uma antologia com dez histórias eróticas, todas escritas pela roteirista Sibylline. A ilustração, porém, passa por outros artistas franceses (Alfred, Capucine, D’Aviau, Augustin, Vince, Rica, Vatine, Pedrosa, Bertail e McKean). Dessa maneira, cada conto é dosado e passa sensações diferentes, de acordo com o traço do ilustrador.

Como diz o título, todas as histórias falam de primeiras experiências: a primeira relação sexual, a primeira vez numa sex shop, o primeiro ménage… Sempre protagonizados por mulheres, nos contos elas ganham vida e profundidade, tomam decisões e não estão numa trama de maneira hiper sexualizada ou apenas para deleite masculino. Destaque para a história protagonizada por uma boneca inflável, que, apesar de ter certo tom de sensualidade, consegue emocionar.

capa 4primeiras vezes – sibylline – 112 páginas – editora nemo
em 140 caracteres… uma série de histórias eróticas onde, diferentemente da maioria, as mulheres não são apenas objetos pelo prazer do homem!
um livro para… se ler com uma mão só!
combina com… reações físicas, cama de casal e meia-luz!
para quem já leu… fica a inspiração, rs.


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bear – bianca pinheiro

De alguma maneira desconhecida, a pequena Raven conseguiu se perder dos seus pais. Agora, ela precisa reencontrá-los e conseguir voltar para casa, acompanhada apenas por Dimas, um urso preguiçoso e mal-humorado. Para isso, ela vai caminhar pelo mundo, conhecer diversas cidades com características excêntricas.

No primeiro volume de Bear, a dupla passa por uma cidade cercada por charadas (e aproveita o momento para falar de um governo autoritário e déspota). Já no volume 2, ela fala de responsabilidades e a importância de viver direitinho cada fase da vida quando Raven e Dimas conhecem uma cidade onde todos os adultos viraram crianças.

O traço de Bianca Pinheiro é muito fofo e a história é uma graça, muito criativa e cheia de referências a outras histórias e elementos da cultura pop. É impossível terminar e não ficar esperando uma próxima edição!

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bear: volumes 1 e 2 – bianca pinheiro – 64 e 80 páginas, respectivamente – editora nemo

em 140 caracteres…
 uma aventura engraçadinha, que vai agradar tanto crianças quanto adultos.
um livro para… ficar torcendo pelos dois amigos, mas com medo do que pode acontecer quando raven encontrar os pais. será que precisará se despedir de dimas?
combina com… enigmas, trilhas na floresta e filmes da sessão da tarde!

para quem já leu…
 vale aguardar por um volume para guardar na estante enquanto lê as páginas que ainda serão publicadas! elas são disponibilizadas aos poucos neste tumblr, em versão com gifs animados, e o capítulo três já começou!


Andre queria ser amigo de um urso.

a menina que não queria ser top model

{TW: Transtornos alimentares, bulimia}

Quando se fala em transtornos alimentares, como a anorexia, geralmente são colocados os exigentes padrões de beleza como principal culpado. Porém, como se trata de uma doença psíquica, que se relaciona com questões mentais, questões emocionais e outras tantas questões profundas, a razão dela existir nem sempre fica assim tão clara ou pode ser definida com tamanha facilidade. O desejo de emagrecer não deve ser encarado como a única resposta (além de que isto seria o resultado de um apagamento de outros transtornos alimentares, como a compulsão alimentar).

No caso do livro A menina que não queria ser top model, por exemplo, o relacionamento conturbado e cheio de cobranças de uma adolescente com sua mãe é o motivo principal para que a garota desenvolva bulimia.


“Aqui, da rocha onde estou sentada,
acompanhei o barco chegando e vejo agora os pescadores puxando a rede, cadenciadamente, como um balé.
Meus olhos ficam marejados, e uma sensação de plenitude me toma.
Mas dura pouco.
Minha mãe consegue me alcançar onde quer que eu esteja. Mesmo quando é só em pensamento, ela me invade, me perturba, me tira do sério, acaba com a minha paz.”


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Na história de Lia Zatz para a coleção Leituras Maduras, da Editora Biruta, Vitória sempre teve uma alimentação rigorosamente controlada pela mãe, Virgínia, baseada no que diziam especialistas da área da saúde em revistas femininas. Nada de açúcar, nada de óleo, nada de carne: uma dieta baseada em arroz integral, ameixa-preta, brotos de alfafa e espinafre.

Mais velha e cansada de tantas restrições, ela resolve sair dessa dieta sem sentido e descobrir outros sabores, aqueles que os amigos da escola aproveitavam nos intervalos do colégio. Contudo, começa assim um relacionamento conturbado da garota com a própria alimentação. Ela passa a tentar vomitar tudo que come, para que a mãe não perceba suas fugas. O resultado disso é um afastamento da família por um longo período, internada num hospital e, posteriormente, evitando a convivência com a mãe.

A Menina que Não Queria Ser Top Model começa depois de todos esses acontecimentos, quando mãe e filha estão tentando restabelecer contato, e vai mesclando cenas do passado com o presente, quando Vitória pede aos pais uma viagem com os amigos como presente de aniversário. Distante por um final de semana, ela consegue refletir sobre tudo que passou e sentir a liberdade de poder tomar decisões sem a intervenção de nenhum adulto. É visível o amadurecimento de Vitória nesses dias.


“A Vitória fica lutando contra mim, mas não percebe que está lutando contra ela mesma. E a psicóloga dá força para ela.
Me chamou para conversar três vezes e sempre pra me dar aula sobre o que é a adolescência, o que acontece na adolescência, as inseguranças da adolescência, o papel dos pais em relação aos filhos adolescentes.
Será que ela não percebe que eu também fui adolescente?”


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O mais interessante para mim, contudo, acabou sendo uma outra trama. Lia Zatz, quando narra as lembranças dos personagens, também tenta explicar porque a mãe de Vitória age desta maneira, sendo super protetora e exageradamente preocupada. É angustiante notar como os sonhos de Virgínia foram tolhidos pelo pai machista e autoritário. Estes capítulos de um passado mais distante não chegam a soar como uma tentativa de justificar a projeção dos sonhos da mãe na filha. Porém, a gente passar a entender outro lado dessa história é bem importante quando falamos de relacionamentos.

De leitura rápida, mas bem madura e cheia de reflexões e temáticas possíveis de serem discutidas, A Menina que Não Queria Ser Top Model é recomendado para pais que desejam entender um pouco mais seus filhos e para adolescentes que querem perceber de outra maneira a vida dos pais. Um livro tão sensível e delicado quanto são as relações em família.


A_MENINA_QUE_NAO_QUERIA_SER_TOP_MODEL_1325649674Ba menina que não queria ser top model – lia zatz – 156 páginas – editora biruta
em 140 caracteres… uma garota aprendendo a ser filha e uma filha aprendendo a ser mãe.
um livro para… repensar um pouco do nosso passado e nossas relações familiares.
combina com… pensamentos no passado e viagens com amigos!
para quem já leu… e está bem mais maduro, o livro e o filme “homens, mulheres & filhos” trazem novas reflexões sobre relações familiares na contemporaneidade.

 

A Biruta é parceira do blog e enviou um exemplar deste livro como cortesia. Você pode conhecer todo o catálogo da editora aqui e acompanhá-los no blog Biruta Gaivota, no Facebook e no Instagram.

 

Andre nunca viajou para acampar.

operação impensável

Há um tempo o Discovery Channel exibiu um documentário onde uma senhora pacata afirmava ter um marido atencioso e gentil, que a ensinou a dançar, que a levava para acampar, que planejava passeios românticos de bicicleta… Para a esposa, a única atitude suspeita, ou melhor, esquisita, de Gary, o marido, era o fato de não haver tapetes na casa dele, para onde ela se mudou depois do casamento.
Casamento que durou catorze anos e só acabou porque ele confessou ser o serial killer conhecido como o “Assassino de Green River” e enrolar os cadáveres de suas vítimas com os tapetes.

A história que Vanessa Barbara conta em Operação impensável não é tão dramática e nem tem uma revelação tão impactante no final, porém também tem a ver com detalhes pequenos que intrigam e relacionamentos que duram por muito tempo de calmaria, mas que também teve lá suas madrugadas insones.
A narrativa do livro é uma forma de Lia¹ entender melhor o que aconteceu com seu casamento com Tito².

¹ historiadora, desenvolvendo um mestrado sobre a Guerra Fria, conseguiu descobrir o assassinato de Laura Palmer em Twin Peaks com cinco episódios de antecedência;
² programador, trabalhando com tecnologia da informação, não admite que rodopiou pela sala com ares de sonhador depois uma comédia romântica.



A primeira parte de Operação Impensável, batizada de Período de Paz, é o que vai nos apresentar os personagens e as características que norteavam o casamento dos dois. Sem um narrador ou um fio claro que ligue um trecho ao outro, estas páginas são tomadas por fragmentos diversos que remontam os cinco anos de relacionamento. São contratos, diários, bilhetes, transcrições de conversas, circulares, listas, prontuários médicos… E, como é Lia quem organiza estes ficheiros, temos ainda algumas intervenções dela entre um texto e outro, fazendo referências ao futuro e tentando elucidar quando foi que o casal deixou de funcionar como um casal no sentido bíblico da coisa.

Bem distintos quando falamos de suas profissões e personalidades, é interessante ver como eles utilizam os gostos em comum (basicamente filmes e jogos de tabuleiro) e as situações vividas juntos (como o dia em que Tito jogou um litro de lavanda nos vizinhos de baixo ou quando descobriram como se usa apoios de panela) para converter tudo em noninoni e criar um modo particular de um lidar com o outro, além de todo um vocabulário próprio (acompanhar e entender as mensagens de e-mail e conversas por telefone só se torna possível porque o livro traz um índice onomástico de piadas internas).


“22 de agosto de 2006
DE: LIA
PARA: TITO

Tito, que fica lindo com luvas de cozinha, vem me contar alguma história comprida sobre amores turcos ou batatas-inglesas, me põe para dormir com as suas mãos enormes e um abraço de nos afundar até o andar de baixo, me dá um beijo salgado e canta uma canção para pentear macacos e adormecer mosquitos. (…)
Me deixa invadir seu mundo com calças de pijama, limpadores de lente de contato e preguiça, dorme comigo todos os dias e me leva pela mão quando eu me assustar.”


Esta primeira parte também traz o que Lia e Tito chamavam de “O Grande Livro do Cinema”. Apaixonados por filmes, os dois mantinham um caderno privado com críticas bastante pessoais dos filmes que viram juntos.

Os relatos contam um pouco da sinopse do filme, citam os atores, soltam um ou outro spoiler, fazem críticas espirituosas e revelam um pouco da personalidade e da identidade dos personagens quando narra também quem chorou com a cena final, qual dos dois roncou ruidosamente com um filme chato, qual o diretor preferido de cada um, qual ator eles não suportam, mep-mep.

Esta é uma das partes mais interessantes do livro, porém, é justamente aquela à qual muita gente pode se opor. Pode parecer maçante para quem não entende de cinema ou não conhece a maioria dos filmes citados, mas é plenamente possível utilizar estas resenhas apenas para rir das ironias da autora. Em vez de entoar a “Canção dos Timóteos”, o legal é desapegar dessa de tentar entender todas as referências e brincar com este recurso narrativo.


“19 de novembro de 2007
TRANSFORMERS (2007, MICHAEL BAY)

(…) Há uma trama bastante lógica e bem construída envolvendo um cubo, que os robôs desejam recuperar para… para… terminar o filme.
Após a sessão, sabe-se que Tito assistiu novamente ao longa-metragem, pois não tinha capturado a densidade psicológica e a motivação dos robôs.”

“22 de dezembro de 2007
O LABIRINTO DO FAUNO (EL LABIRINTO DEL FAUNO, 2006, GUILLERMO DEL TORO)

Categoria “metáfora”, ao lado de O rolo compressor e o violinista (Andrei Tarkovski, 1960), O sol (Aleksandr Sokurov, 2005) e Mary Poppins, a obra-prima do medo. (…)
A Lia não entendeu nada e saiu reclamando do projecionista.”

“28 de junho de 2008
GODZILLA: BATALHA FINAL (GOJIRA: FAINARU UÔZU, 2004, RYUHEI KITAMURA)

Mais um filme que faz o espectador refletir. No caso: o que fiz para merecer isso? Por que continuo assistindo? Qual o sentido do sofrimento? Um deus benevolente permitiria tamanha atrocidade?”

“14 de junho de 2009
A LÁGRIMA QUE FALTOU (THE FIVE PENNIES, 1959, MELVILLE SHAVELSON)

O filme mais emotivo desde Bambi. No pacote, criancinhas doentes, pais ausentes, artistas incompreendidos e canções de ninar. (…)
A Lia chorou copiosamente durante todo o filme, deu até medo.”


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“Janeiro de 2008
DE: TITO
PARA: LIA

Querida,
Não é por nada, mas acho que nós devemos interpretar a nossa briga de ontem como um “Kitchen Debate” igualzinho ao que ocorreu entre o Nixon e o Kruschev em 1959, e não só porque se deu na cozinha, diante da panela de pipoca.”


Já a segunda metade do livro (que, por sua vez, é dividida em três partes) mostra o declínio do casamento de Lia e Tito, a trajetória até o divórcio. Aqui, a mulher se assume definitivamente como narradora, criando uma estrutura de romance em primeira pessoa. As piadas acabam, o clima alegre da primeira parte quebra. Acaba a paz e começa uma guerra: os últimos 43 dias de relacionamento serão comparados pela historiadora com os 45 anos de Guerra Fria. Como neste período histórico, em Operação Impensável também não há um conflito bélico declarado, apesar da sensação de que algo pode explodir a qualquer momento.

Entre uma cena e outra no apartamento do casal, a gente visita personalidades da história, descobre como foram feitos planos de ataque e defesa, como eram as reações dos envolvidos nesta guerra e como tudo influenciava na vida pessoal deles… Tudo é narrado com leveza e graça, mas a gente percebe toda a tensão que existe nesses capítulos.

* Em nota um pouco relacionada, vale dizer que, aqui, as referências aos ocorridos na Guerra Fria não são as únicas. Vanessa Barbara também seleciona citações de outros autores (tanto clássicos quanto pop) para embasar o que Lia está dizendo, como se fizesse um artigo acadêmico. Entre eles, C.S. Lewis, Mário Benedetti, Gillian Flynn, Elvira Vigna e Émile Zola.


“Conversa de café da manhã:
quando a NASA iniciou o programa espacial, descobriu que as canetas não funcionavam em condições de gravidade zero. Para resolver este impasse, empregaram uma década e 12 milhões de dólares desenvolvendo uma caneta que escrevesse com gravidade zero, ao contrário e de ponta-cabeça, debaixo d’água, em praticamente qualquer superfície, incluindo cristal, e em variações de temperatura abaixo de zero até mais de trezentos graus Celsius.

Os russos utilizaram um lápis.”


Operação Impensável tem um formato bastante original, no qual Vanessa Barbara joga com diversos gêneros narrativos. No meio disso tudo, é natural se sentir confuso, desacreditar a ideia ou duvidar das referências bizarras da autora (sério, o acervo de cultura inútil dela é invejável).
Porém, é muito válido experimentar esta leitura e ir acompanhando e percebendo as nuances das esquisitices dos personagens e da dinâmica desse casal. Ou de todo casal, se é que você me entende.


downloadoperação impensável – vanessa barbara – 224 páginas – intrínseca
em 140 caracteres… a trajetória de um casal, desde a fase alegre do relacionamento até um fim doloroso e triste.
um livro para… sorrir com as referências improváveis e ironias da autora.
combina com… uma cultura inútil-porém-elegante.
para quem já leu… vale procurar cada um dos filmes citados e criar o próprio “grande livro do cinema”.

 

 

Andre adorou este livro, mas sentiu falta de grandes jantares.