the game: post definitivo

Este texto traz informações graduais sobre os três volumes da trilogia The Game, de Anders de la Motte. Por causa deste caráter fragmentado do post, ele também funciona como um diário de leitura. É possível ler somente os pedaços correspondentes aos livros que você já leu, se guiando pelas cores dos títulos. Amarelo para [O Jogo] (e os não-iniciados), azul para [Ruído] e verde para [A Bolha]
avançar pelas fases que você ainda não passou pode te trazer alguns spoilers e revelações indesejadas. Cuidado.

 

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[O JOGO]

A história começa em [O Jogo], primeiro volume da série, quando Henrik Petterson (ou HP) encontra um celular perdido num metrô e recebe uma mensagem o convidando para participar de um Jogo. Missão após missão, a trama ágil de Anders de la Motte não abre espaço para respirar. Isto porque há um grande número de reviravoltas, descobertas e segredos pelas páginas desse primeiro livro.
Outra característica interessante do autor é o fato dele conseguir, mesmo sem descrições prolixas ou exageradas, criar cenas cinematográficas e muito visuais.

Anders de la Motte é sueco e escreve uma trama de suspense policial, semelhanças o bastante para ser comparado com Stieg Larsson. Porém, ele afirma que já existiam bons autores nórdicos do gênero antes do autor da Trilogia Millenium aparecer. Para ele, a Suécia é um país pequeno, exótico, gélido, perdido no Norte e que desperta curiosidade. Por isso, combinar essas características com um crime, atentado político ou teorias da conspiração cria uma dinâmica interessante.


OS PERSONAGENS

Henrik Pettersson é um homem jovem, sem uma família estruturada, sem estabilidade no emprego e cheio de pequenas frustrações com a vida. Tudo isso o faz ser bastante ambicioso e aceitar participar de um jogo em troca não só de dinheiro, mas da atenção de centenas de seguidores empolgados. Já Rebecca Normen, que tem um passado nebuloso e não cria vínculos emocionais, é a única mulher de um importante grupo de segurança do governo. Por isso, acaba se revestindo com uma aparência mais dura e seca, para parecer mais forte.

Personagens assim, complexos e com características anti-heroicas, enriquecem a história e a presença de tantas camadas colabora com a imprevisibilidade da história e das tomadas de decisão dos protagonistas. Com certeza, o maior destaque do livro, para mim.


teorias da conspiração

A primeira missão que o Mestre do Jogo entrega a HP é a de roubar um guarda chuva. Porém, a cada nova fase o Jogo fica mais desafiador e complexo. E este jogo instalado num celular estranho começa a se relacionar com uma série de acontecimentos históricos, como o atentado às Torres Gêmeas e a morte do primeiro ministro sueco em 1986.

Além disso, a gente percebe, aos poucos, que a escolha por Henrik Pettersson como um participante não foi nada acidental. Aqui o autor começa a desenvolver um texto político, explorando teorias da conspiração, segredos de Estado, as espirais presentes nas grandes empresas de mídia, vazamentos de informações… São muitos os temas que podem ser analisados a partir dessa história.
Vale dizer que o autor trabalhou como diretor de segurança da informação em uma das maiores empresas de TI do mundo, além de ser um ex-policial. Assim, fica claro entender porque ele domina tão bem as temáticas propostas na trilogia.


“PISCAR
É SUPOSTAMENTE O MOVIMENTO MAIS RÁPIDO QUE O CORPO HUMANO É CAPAZ DE FAZER.”


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[RUÍDO]

Henrik Pettersen terminou o livro anterior com dois milhões de dólares na sua conta. Com esse dinheiro ele conseguiu ajudar algumas pessoas que ele prejudicou com sua participação nO Jogo, pagar a hipoteca do apartamento da sua irmã, contratar advogados para fazerem todas as transferências legalmente e apagar alguns rastros que deixou no banco. Ao final, ainda sobrava mais de 1 milhão de dólares, mais que o suficiente para uma vida confortável.

HP passa a viajar pelo mundo, sempre amparado por disfarces, identidades e documentos falsos. Sua companheira em todo divertimento, porém, passa a ser uma espécie de paranoia, uma desconfiança enorme de que o Mestre do Jogo poderia descobrir onde estava a qualquer momento. Celulares, pessoas, ocorrências estranhas: tudo passa a ser observado severamente pelo protagonista.

Em [Ruído], segundo volume da trilogia The Game, depois de alguns acontecimentos desfortunados, passagens pelo continente africano e a instituição de novas relações e personagens intrigantes, Henrik Pettersen acaba abrindo mão do conforto para ganhar um emprego estável e entrar numa nova fase de investigações sobre O Jogo.


“PEÇA A PEÇA, TUDO COMEÇAVA A SE ENCAIXAR, COMO AS LINHAS QUE UNEM OS PONTOS COMEÇAM A SE TRANSFORMAR EM UMA IMAGEM.
UMA IMAGEM INQUIETANTE DO CARALHO.”


SINAL E INFLUÊNCIA

Para a Comunicação, principalmente no que diz respeito à Teoria Matemática da Informação, ruído é qualquer disfunção que atrapalhe uma mensagem de ser difundida ou passada da maneira ideal. Uma escolha bastante inteligente para o título da tradução, já que a ArgosEye, cenário principal deste segundo volume, tem uma participação muito forte na eliminação e no combate destes “sinais indesejáveis” na internet – apesar do ambiente virtual contribuir justamente para a afirmação de teorias mais modernas, que atestam que não é possível prever ou suprimir problemas diante do alto e constante fluxo de informação.

Porém, o título original, Buzz (algo que viraliza ou cria empolgação, principalmente online), faz ainda mais sentido durante o decorrer da narrativa – e se conecta diretamente também com o plot que Rebecca Normen ganha no segundo livro, onde passa a ser vítima de um desconhecido num polêmico fórum de internet.

Anders de la Motte se distancia um pouco das conspirações sobre acidentes e atentados mundiais que levantou no livro anterior e coloca em questão aqui o lançamento de publicidade disfarçada de opinião na rede, o compartilhamento de “informações pessoais de outras pessoas”, a liberdade e o anonimato que as redes sociais nos dão, a intenção de marcas e empresas com o controle da informação e até mesmo a construção de um novo estilo de vida por personalidades da internet, como as blogueiras e youtubers.

“É como uma massa crítica, um ponto em que muitas pessoas começam a dizer a mesma coisa até que aquela opinião se torna uma verdade aceita. E espalhadas por aí há milhares e milhares de pessoas que estão tão desesperadas para viver uma vida diferente das que tem que eles só podem ficar felizes em absorver o que as pessoas certas podem lhe oferecer. Fragmentos da vida dos outros, que eles inconscientemente encaixam em suas próprias vidas. Produtos, tendências de alimentação, marcas registradas, opiniões – tudo!” Este trecho do livro te lembra alguma coisa?

Para desenvolver todos esses temas (e deixar o leitor com ainda mais perguntas), o autor, que foi diretor de uma das maiores companhias de TI do mundo e entende bem do assunto, abre mão da ação do primeiro livro – e também diminui, de certa forma, o número de reviravoltas na história.


A MALDIÇÃO DO SEGUNDO LIVRO

A diferença entre os dois volumes é bastante clara. Mas [Ruído] não chega a ficar lento ou desinteressante por causa disso (ao menos para mim, que gostei das questões levantadas e não me importei com a quantidade menor de perseguições e socos na cara). A quantidade de diálogos é maior, o que acelera a narrativa, e o clima de suspense e tensão aqui aumenta.

Esses fatores contribuem, então, para o principal ponto do livro: Anders de la Motte não parece estar enrolando o leitor, como costuma acontecer em “segundos livros de trilogias”. Algumas respostas sobre O Jogo e o primeiro livro já são oferecidas aqui para o leitor, que pode enriquecer e transformar suas teorias sobre o desfecho da história de HP e Rebecca.

[Ruído] entretém, enquanto provoca reflexões sobre temas relevantes e atuais e te deixa ainda mais apreensivo e curioso com os segredos que o Mestre do Jogo pode guardar – reafirmando o autor como uma das minhas melhores descobertas literárias dos últimos tempos.


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[A BOLHA]

Imagine que você conseguiu sair ileso de um Jogo que diz que não aceita desistências e conseguiu descobrir segredos e expôr uma grande empresa de tecnologia e marketing digital. Você acha que conseguiria algum momento de paz? Sua cabeça não deixaria de o alertar sobre os perigos que ele corre a todo momento – é o que acontece com Henrik Petterson e a situação em que ele se encontra no início do último livro da trilogia. Afinal, só existe um motivo para que ele esteja quieto e não tenha sofrido grandes represálias até agora: o Jogo ainda tem mais uma rodada.

Em [A Bolha], a gente acompanha HP procurando lidar diretamente com o Mestre do Jogo. Agora que ele reuniu informações sobre as empresas que guardam os controles do Jogo, ele precisa traçar um plano, invadir o local e tentar acabar com os servidores deste sistema.
Novamente, a trama ganha os ares de ação do primeiro livro, porém, HP precisa tomar decisões sem receber o controle de um aplicativo de celular. E, considerando que este protagonista da série não está muito aí para licitude e cuidado, as decisões que ele toma às vezes são ilegais, às vezes não muito inteligentes. Justamente por isso, nada mais do que a gente esperava deste personagem muito bem construído pelo autor.


“Esse era o problema com as teorias da conspiração.
Uma vez que você passava a aceitar a sua existência, era impossível dizer onde elas realmente terminavam.
Só porque você está paranoico, não significa que eles não estão realmente atrás de você…”


PASSADO

O que eu não esperava de jeito nenhum quando a série começou é que, para desmantelar o Jogo e ajudar o informação a entender porque foi escolhido para estar ali, Rebecca Normen precisaria revirar o próprio passado e o passado de sua família. Na sua trama, ela está mais madura do que nunca, duvidando das pessoas antes de confiar e questionando as informações que recebe.

Ela sempre foi acostumado a trabalhar sozinha, já que empresas de segurança pessoal não são os lugares mais amigáveis do mundo com mulheres, mas aqui ela atinge seu ápice. Seu raciocínio está firme, suas decisões são certeiras e as poucas reviravoltas de sua trama são feitas não por erros, mas por novas descobertas que ela faz: sobre o pai, sobre tio Tage, sobre si mesma. Uma personagem carismática sem exageros e séria sem ser fria, Rebecca é outra cria de Anders de la Motte que vai deixar saudade.


FILTRO

Quanto aos conceitos que Anders de la Motte explorou aqui, temos a questão da bolha como aquilo que protege algo ou alguém do mundo exterior. Isto porque a narrativa de Rebecca começa quando ela é informada de que precisa ir até um grande banco sueco para retirar um cofre no nome do seu pai. Lá, encontra uma arma e alguns passaportes, as primeiras pistas que a despertam para a caçada sobre quem foi seu pai de verdade. O que ele teria feito de verdade durante a guerra?

Mas, o conceito vai se expandindo e a gente percebe que quem está numa bolha não é apenas este objeto, mas toda a sociedade. O Jogo dissimula, esconde informações, manipula. A maioria das pessoas não faz a menor ideia do que está acontecendo de verdade fora de sua casa – e, se tem uma ideia, é provável que ela esteja um pouco deturpada.

Este conceito, chamado de Filtro Bolha, é extremamente atual quando a gente fala dos grandes serviços personalizados de hoje em dia. Você recebe dicas, sugestões e informações apenas de coisas que você provavelmente vai gostar, baseado em serviços de geolocalização e nas avaliações que você já fez anteriormente nos aplicativos. Ou ainda, fica imerso em opiniões que reforçam e apoiam a sua própria ideologia, não tendo contato com o diferente, o criativo ou o novo. O seu passado determina imediatamente o seu futuro, percebe?
Pensando no Filtro e pensando no Jogo, faz ainda mais sentido agora entender que Anders de la Motte tenha escondido algumas fases num “mapa anterior”.


GAME OVER

Quanto ao desfecho: as últimas cenas são eletrizantes e eu fiquei tenso até a última páginas. Tudo foi muito bem construído neste último volume e eu caí feio nas pegadinhas que Anders de la Motte deixou ao longo da narrativa, ficando bem surpreso com as revelações finais. Ser um leitor burrinho às vezes é bem divertido, rs

A trilogia inteira vale muito a pena, pelos personagens, pelas discussões, pelo suspense… Muito recomendada para quem gosta de thrillers de ação, quer leituras rápidas e profundas e se interessa por teorias da conspiração e outras questões sobre este mundo pós-Snowden.


 

trilogia the game – anders de la motte – 272 páginas (cada) – darkside books
uma trilogia para… duvidar de todos os personagens e questionar os grandes eventos de sua própria realidade.
combina com… paranoias, empresas de tecnologia e câmeras de vigilância!
avaliação final: vale 5 celulares perdidos!

A Darkside Books é parceira do blog e enviou os três volumes desta série como cortesia. Conheça mais do catálogo da editora clicando aqui e a acompanhe no Facebook e no Twitter.

Andre desinstalou o aplicativo.

in myron we trust

Se alguém me perguntasse qual é um dos meus personagens preferidos da literatura, sem pensar muito, eu conseguiria me lembrar de Myron Bolitar, personagem de Harlan Coben. O bom humor, a “história de vida”, as ironias, o modo de investigação… Por isso, hoje resolvi unir os livros da série da minha estante, ler tudo em sequência e fazer uma postagem coletiva de resenhas da série.

Além destes, a série Myron Bolitar também traz os livros Jogada Mortal (já li, mas emprestado), Quebra de Confiança (também lido, há mais tempo) e o Um Passo em Falso, lançamento deste mês da Editora Arqueiro. As histórias são independentes e cada livro tem um início e um fim (você pode ler tranquilamente fora de ordem), mas ler todos e na sequência traz uma visão mais ampla dos personagens e situações que se repetem.


 

QUANDO ELA SE FOI

Myron Bolitar – Volume 9

Quando ela se foi foi o primeiro livro que li da série Myron Bolitar, por já conhecer o autor e por ficar extremamente instigado com a sinopse. A história começa quando, no meio da madrugada, Myron recebe um telefonema de Terese Collins, uma “amante casual” do agente esportivo, solicitando que eles se encontrem em Paris. Na cidade, eles deveriam tentar encontrar Rick Collins, o ex-marido de Terese, que está desaparecido. Porém, logo recebem a notícia de que ele foi assassinado.

O maior mistério, entretanto, é que alguns fios de cabelo são encontrados na cena do crime e que, segundo exames de DNA, pertence à filha do casal. Entretanto, a filha morreu há anos, num acidente de carro. Claro, para tentar descobrir o que aconteceu com Rick e inocentar Terese, principal suspeita, terão de revirar o passado e mexer com gente grande e importante: agências de segurança de vários países estão atrás das mesmas informações que Myron.

Todos os livros da série Myron Bolitar (ao menos o já lançados no Brasil) tem um conteúdo de algum esporte ligados no mistério, mas não neste. Porém, Harlan Coben inseriu jogos e confusões em quadra no início do livro. Então, demoramos bastante para chegar até a parte onde a ação da premissa realmente acontece. Porém, Harlan Coben segue pelos caminhos que precisa rapidamente e a tensão só aumenta à medida que o livro avança. O desfecho me incomodou um pouco quando li pela primeira vez, mas agora, na releitura, me parece bem plausível e surpreende.


O PREÇO DA VITÓRIA

Myron Bolitar – Volume 4

Seguindo a linha que disse dos mistérios com esportes e esportistas, O Preço da Vitória gira em torno do golfe. Desta vez, o mistério é o desaparecimento de Chad, filho de Linda Coldren (a golfista número 1 do ranking) e Jack Coldren, que está liderando o Aberto dos Estados Unidos e luta para não repetir um fracasso inexplicável ocorrido anos atrás e que se tornou o maior ícone de sua carreira mediana. Como Win e Linda são da mesma família, o parceiro de Myron acaba optando por ficar de fora da investigação.

O lado humano de Win (que tem um quê de sociopatia) aparece neste livro, quando sua mãe aparece à beira da morte. Os dois não se falam há anos e preferem manter distância um do outro. O Preço da Vitória tem um desenvolvimento bem rápido, cheio de reviravoltas e com várias pontas e personagens. Por causa disso, me incomoda o fato do desfecho aparecer tão de repente.

ALTA TENSÃO

Myron Bolitar – Volume 10

Alta Tensão é o último livro da série Myron Bolitar (apesar de ter sido lançado antes de outros vários aqui no Brasil). Na trama, uma ex-estrela do tênis Suzze T. está grávida, publica uma imagem do ultrassom em sua página no Facebook e acaba recebendo um comentário desagradável dizendo que Lex Ryder, seu marido e astro do rock, não é o pai. O cara não gosta do que lê e sai de casa, sendo Myron o responsável por trazê-lo de volta. Na mesma boate que o encontra, porém, Myron encontra Kitty, esposa de seu irmão, que não via há anos, se drogando.

Este, para mim, é o pior dos livros da série. A narrativa não tem ação, como nos outros. É parada, lenta. São vários diálogos, mas são repetitivos e focados somente no passado. Nada acontece feijoada. Tudo é bastante fácil para Myron e até mesmo para o leitor, já que o final nem é tão surpreendente.


 

SEM DEIXAR RASTROS

Myron Bolitar – Volume 3

Sem Deixar Rastros narra Myron Bolitar retornando às quadras de basquete, anos após o acidente que o afastou do esporte, para investigar de perto o desaparecimento do seu maior adversário nos tempos em que jogava. Este também é bem comum e não provoca tantas surpresas assim, na maior parte do tempo. Apesar de inesperado, o desfecho do mistério acontece de uma forma sem graça e alguns capítulos antes do fim.

Contudo, o que estes últimos capítulos guarda é o que surpreende de fato e, vejam só, emociona. É algo extremamente angustiante e, depois de você ler vários livros com Myron Bolitar e se apegar a ela, não há como não sofrer um pouquinho. Harlan Coben criou um dos personagens mais carismáticos que já encontrei na literatura. Irônico, convencido e perspicaz, ele te conquista e te faz rir durante toda uma série. Mas quando você entrega os pontos, chora junto dele. Sério, Harlan Coben é um escritor cruel.


 

Andre não esperava chorar com série policial.